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Açores 24Horas

“A Cultura é Revolucionária!”

ónicas » 5 de Julho de 2011


“A Cultura é Revolucionária!”

 

 

Uma das vantagens na partilha nas redes sociais é que nos deparamos, por vezes, com surpresas agradáveis. Uma amiga deixou há dias um texto que veio de encontro a um conjunto de preocupações e reflexões que vinha fazendo para a crónica deste mês. Roubo, da citação que ela fazia de uma intervenção de Sophia de Mello Breyner, na Assembleia Constituinte.

 

Os anos que passaram, de 1975 até agora, não retiraram actualidade ou importância a frases como as que então proferiu na Assembleia da República. De vez em quando, vultos da Cultura e da Cidadania tomam em suas mãos a consciência, e soltam o grito de um alerta.

 

“Num país e num mundo onde há doentes sem cama e doentes sem tratamento e sem hospital a questão da liberdade artística e intelectual pode parecer uma questão secundária.

Mas sabemos que a cultura influi radicalmente na estrutura social e na estrutura política. E por isso a questão da liberdade da cultura é uma questão primordial. E sabemos que toda a cultura real trabalha para a libertação do homem e que por isso toda a “cultura real” é, na sua raiz, revolucionária.”

 

Nos tempos que correm, de troikas, ratings, défices e dívidas soberanas a Cultura foi abatida a Secretaria de Estado, os artistas e agentes culturais a “subsidio dependentes”. Apelida-se a Cultura de supérflua como se de um luxo se tratasse e corta-se cegamente sem cuidar dos danos infligidos num sector tão importante na vida de uma nação.


Claro que, nos dias que correm, seja por conveniência de serviço (da dívida) seja pela incapacidade democrática de muitos governantes e autarcas de lidar com a liberdade da crítica e com a liberdade de expressão (sim, tantos anos depois de 74!) ainda existe por aí uma certa “inteligência política” que defende que o povo se quer acrítico e silencioso.

 

No passado impedia-se a acção cultural pela repressão e pela censura, hoje, sinais dos tempos, pela asfixia financeira e pela demagogia do discurso órfão de cultura, de inteligência e de sensibilidade democrática.

 

Como sempre, seguimos numa luta de resistência e de defesa de princípios e valores culturais cidadãos e democráticos. Volto ao discurso de Sophia: “Pois a cultura não é um luxo de privilegiados, mas uma necessidade fundamental de todos os homens e de todas as comunidades.

 

A cultura não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar – para que o homem possa construir e construir-se em consciência, em verdade e liberdade e em justiça. E, se o homem é capaz de criar a revolução, é exactamente porque é capaz de criar a cultura.”

 

O Estado nunca quis e, acima de tudo, nunca soube exercer a actividade cultural. Demitiu-se democraticamente de o fazer naquela Constituição confiando aos agentes culturais esse papel. Hoje há, como antes de 74 quem não queira que este exercício democrático e cidadão continue a ser desempenhado. A tentação de uma “cultura de regime” ainda continua a espreitar por alguns gabinetes.  E esse retrocesso – cultural, social e democrático – é provavelmente bem pior do que a infeliz despromoção do Ministério da Cultura a uma mera Secretaria de Estado.

João Macedo

6-7-2011

 

 

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