Horta, 18 Maio 2012
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CRÉDITOS – por Joao Paulo Macedo

20 de Fevereiro de 2012

Estamos em tempos de crises e palavras como dívidas e crédito entraram na linguagem do dia-a-dia com uma força aterradora. Mas é de outros créditos que queria falar. Os dos filmes. Já reparou que algumas televisões ainda passam uma lista (muitas vezes acelerada e ilegível – de nomes e funções no final dos filmes? Já reparou que muda de canal quando aparece a palavra FIM nos filmes a que assiste? E quantas vezes se levantou do cinema ainda às escuras?

 

É do trabalho desse conjunto de pessoas (e de funções) que nascem os filmes. Depois do trabalho do argumentista, do realizador, do produtor do director de fotografia, do director de casting, do director de arte (só para dar alguns exemplos) se ter iniciado começa o trabalho de actores e de uma lista mais ou menos longa de assistentes, técnicos, figurantes. Uma plêiade de outros actores anónimos responsáveis pelo resultado colectivo que é um filme. Deles raramente se fala, mas são essenciais para que o filme aconteça.

 

Por isto, quando se fala de financiamento do cinema se referem valores muito acima de outras artes. Os valores de produção de um filme (é a designação de todo o processo) atingem as dezenas de milhões em alguns países. Centenas de milhões quando falamos das mega-produções americanas. A montagem financeira de apenas um filme pode ser comparada à constituição de uma empresa, com um plano de negócios, criação de postos de trabalho, impactos na economia que muito raramente são tidos em conta por quem fala, desconhecendo o assunto na maior parte dos casos, do financiamento do Cinema em Portugal.

 

Se em países como os Estados Unidos ou a Índia a indústria cinematográfica e audiovisual é uma realidade, nos países europeus é ainda um sonho em construção. E em Portugal? Em Portugal toda a cadeia do cinema é um esforço diário, constante e muitas vezes brutal pela conquista de espaço de expressão, de meios para produzir e de um desafio permanente à imaginação para sobreviver e continuar a fazer filmes. É o artesanato na sua forma mais genuína, onde o improviso e a imaginação são ferramentas e instrumentos narrativos.

 

A Europa, tem múltiplas realidades. Países de grande produção com a França à cabeça, o Reino Unido, a Alemanha entre outros, onde já se vislumbra um sector do cinema e audiovisual com características industriais e comerciais. E os outros países de pequena produção, maioritariamente com um forte cunho autoral, artesanal mas surpreendentemente rico em diversidade, originalidade e com uma qualidade de resultados que surpreende na maior parte dos casos.

 

Desde a produção americana até cada um destes países uma coisa é comum à montagem financeira: a presença de dinheiro público. É conhecida a guerra de alguns estados norte-americanos (e até de cidades) para conseguirem localizar nos seus territórios a rodagem de filmes ou de séries de televisão. E mesmo lá, terra de liberalidades por vezes exageradas, seja em subsídios, descontos ou isenções fiscais também há dinheiros públicos envolvidos. Em França o CNC apoia em média a produção de 200 longas-metragens por ano. Alguma polémica? Não, de todo, nestes países a actividade cinematográfica é reconhecida em pé de igualdade com outra qualquer. Até com cláusulas de “excepção cultural” em alguns países. Os esquemas de financiamento são muito variados, mas todos contam com várias fontes: orçamentos de estado ou benefícios fiscais, contributos das televisões (públicas e privadas), taxas sobre a exibição cinematográfica.

 

E porquê este investimento público? Pelas evidentes vantagens no marketing territorial, na divulgação e na atracção para os seus territórios das mais variadas actividades, com significativos impactos económicos de maior ou menor relevância. O Cinema está no top ten das exportações americanas, por exemplo. Nos países europeus não consegue atingir aquele significado, mas é gerador de impactos económicos relevantes e tem uma importância cultural fundamental.

 

Crucial na afirmação de identidades culturais e na manutenção dessa mesma identidade.

 

 

Estamos a meio da discussão pública de um interessante projecto de Lei do Cinema em Portugal. No ano de 2011 estreou um número anormalmente elevado de filmes portugueses de grande qualidade, e agora o Festival de Berlim inclui dois filmes portugueses com três prémios no seu palmarés. RAFA, de João Salaviza e TABU, de Miguel Gomes. É o reconhecimento no maior festival de cinema do mundo. Enche de orgulho e oportunidade para políticos saudarem os criadores portugueses. Tudo muito bem, só que não basta.

 

Tudo o que representa o pouco cinema que se faz em Portugal – da produção à exibição não comercial – se encontra parado. No nosso país temos técnicos, temos produtores, actores e realizadores que não vivem exclusivamente do cinema na sua maioria. A paralisia ou atraso nos financiamentos significa o abandono da actividade, significa o fim do Cinema em Portugal.

 

Quando se fala de crise os sectores culturais são os primeiros a ser apontados como subsidiodependentes, os primeiros a ser cortados e deixados ao abandono, esquecendo o que significam em termos de geração de emprego e a fragilidade do próprio sector. E portanto, objecto do maior desinvestimento e do desinteresse de quem tem responsabilidades políticas.

 

No momento em que a discussão de uma boa proposta de Lei do Cinema mantém o Cinema paralisado, importa reflectir se depois desta crise e deste desinvestimento, ainda vamos ter quem faça filmes em Portugal.

 

João Paulo Macedo

19-2-2011



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