Horta, 18 Maio 2012
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ECOS DO CONTINENTE DO JOÃO SEM REGRAS

26 de Junho de 2011

Um ano após a morte Saramago, a minha singela homenagem por alguns momentos tão singulares com o prémio Nobel. 

 

O meu Lagarto Verde 

 

 

Tive o tremendo prazer de conhecer pessoalmente, de um modo mais aprofundado José Saramago: Como sou crítico de cinema, devido a este ter acedido à adaptação das suas obras para cinema, primeiro em Jangada de Pedra, cujo filme luso-espanhol, realizado por George Sluizer, (do qual não fiquei particular fã ou morri de amores). E até mesmo o livro deixou-me algumas (para não dizer várias), reticências quanto à ideologia subsequente. E depois de Ensaio Sobre a Cegueira, de Fernando Meyrelles, onde tive a oportunidade de voltar a colocar algumas questões ainda mais pertinentes, primeiro numa conferência de imprensa, e mais tarde numa entrevista destinada a apenas um grupo bem restrito de jornalistas, onde me incluía nessa elite. Particularmente neste último evento, a conversa decorreu numa sala de dimensões menores e foi mais intimista e pudemos falar sobre os mais diversos temas e assuntos, desde a adaptação dos seus livros Jangada de Pedra ou Ensaio sobre a Cegueira a filme ou à sua visão politizada de Portugal e dos portugueses e até a assuntos mundanos. Não havia temas tabu, nem limites para as questões que desejássemos colocar. O que se percebeu, e ainda bem que o grupo era homogéneo e bem preparado, era que foi mais uma conversa do que propriamente uma entrevista, mesmo e apesar do nosso papel não ser propriamente expressar as nossas opiniões ou ter juízos, aqui não fazia sentido se não o fizéssemos. E o mesmo sentiu-se até exultante por termos adoptado essa postura de forma natural. Dito desta forma parece não ser real, que explanámos as nossas opiniões e maneiras de pensar e explicarmos temas ao nosso prémio Nobel. Isto não quer dizer que desconhecesse os assuntos, pois era um homem com uma sapiência tremenda, mas a forma como normalmente lhe era revelada (os lambe-botas desta vida), deixava-o na dúvida, pois não tinha obtido a lógica que necessitava para a compreensão total. E depois demonstrou-se feliz por perceber que afinal estava certo e agradecido por lhe explicarmos com a mecânica verbal que este necessitava. Mas, como deve ter percebido; o que vou revelar aqui não é o teor das entrevistas, que seria demasiado fastidioso, mas apenas o que me ficou gravado na memória e na alma desta figura tão singular.

Além da sua douta e descontraída sabedoria e retórica, gostei principalmente a franca maneira de se expressar, pouco se importando se era ou não politicamente correcto na forma como o fazia. Às vezes mesmo desbocada. Contudo, era isso que realmente pensava e de este não ter que procurar subterfúgios verbais foi o que mais me seduziu nele. Depois, e como a conversa (pois já transcendia há muito a entrevista) estava agradável, com movimento, fluidez e fluência, parecia que as ideias enchiam a sala e eram quase palpáveis. Notava-se que o escritor estava mesmo a gostar do diálogo que mantínhamos. O próprio verbalizou isso mesmo e até chegou a mandar calar-se o encarregado pela gestão do tempo para as entrevistas (Que achou por bem que o melhor era ir buscar umas garrafas de águas para refrescar tantos argumentos). Este grupo só terminou quando ele achou que era tempo, mas só depois de gentilmente perguntar se tínhamos mais alguma questão. Tendo inclusive revelado qual o blog que mantinha e nos gentilmente nos convidou a mandar-lhe missivas e ideias. Para quem gosta de uma boa conversa, como eu gosto, esta, apesar do léxico usado não parecer muito intrincado e de compreensão simples, o que está inerente à sintaxe da mesma é que era simplesmente extraordinário e genial. É que as suas frases simples encerravam sempre uma vasta ideia. O que dizia e a compreensão do que queria dizer na sua plenitude, era um abismo de entendimentos, subentendidos, de segundos e terceiros sentidos… implícitos e explícitos. Não nos esquecemos, tudo isto vindo de uma mente ágil de um homem octagenário. Pode-se não concordar com a sua ideologia. Pode-se não concordar com a sua escrita, onde a falta de pontuação torna a leitura mais difícil, com necessárias releituras de frases ou mesmo parágrafos inteiros. Mas não podemos tirar algo que tinha em abundância; talento. E quando começamos a perceber qual a intensidade do enredo tem através da respiração acertada que se faz no acto de leitura, faz-nos parecer que sentimos que Saramago o fazia precisamente nesses mesmos momentos e nos lê o que escreveu. Passava não só a ser uma experiência intelectual, mas até física.. Recordo-me bem da sua prestabilidade e estranhamente amável com os jornalistas, embora fosse intolerante para os que colocavam perguntas estranhas ou mesmo estúpidas. Era um sentimento de como se fossemos colegas da mesma profissão, sem a longa separação de um Nobel pelo meio. Muitos se questionaram e criticaram a sua (suposta) “repatriação” espanhola e por ter decidido viver numa ilha de Nuestros Hermanos, como se o lugar onde vivia o fizesse menos luso ou menos atento à realidade do nosso país. Não se diz que o corpo pode estar preso a um local, mas a mente é livre? Pobres diabos. Mas, mesmo assim, se havia pessoa a quem se prestava atenção sobre o que escrevia ou falava a amiúde, independentemente se concordássemos com os seus argumentos, era José Saramago. Ele falava e nós escutávamos atentamente. Por isso, um dia vou sentar-me no banco sob a sombra da azinheira, transplantada da sua terra Natal para Lisboa, (e onde foram depositadas as cinzas do escritor, junto à Casa dos Bicos (perto da futura Fundação Saramago), de onde Saramago viu sair um Lagarto Verde quando ainda era muito criança. Um facto que até poderemos considerar banal, mas cuja imagem o marcou e nunca esqueceu e, mais importante, serviu-lhe de mote como inspiração. Irei lá para ler uma das suas obras, apesar de serem muito poucas as que me faltam, e de deixar o meu espírito libertar-se e encontrar alguma similaridade no seu engenho e arte. Mas acima de tudo, e é este o meu primeiro propósito, de uma forma singela prestar-lhe homenagem. Ele foi o meu lagarto verde que um dia vi sair da árvore, mas eu tive mais sorte, vi-o sair mais que uma vez. 

 

Saramago sentimos muitas saudades tuas 

 

(I)

 

Eduardo Sobral



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