Horta, 18 Maio 2012
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Os novos povos dispensáveis

12 de Setembro de 2011

Crónica nº 7 – Os novos povos dispensáveis

 

 

Há uns bons anos atrás numa conferência sobre o século XX, ouvi da boca do Professor Adriano Moreira uma frase que ficou gravada na memória. Referia-se, na altura,  à tragédia vivida pelo Povo Timorense na invasão indonésia e nas duas décadas seguintes. Perguntava-se ele, porque é que perante aquela tragédia – como outras  que tiveram lugar no mundo, a Comunidade Internacional se tinha pautado por uma actuação de quase absoluta indiferença. E a resposta, tão acutilante como verdadeira foi: “Porque simplesmente, para essa Comunidade Internacional, estávamos perante povos dispensáveis”. Lembro-me que continuou a sua linha de pensamento denunciando o cinismo presente em toda a “grande política” e os esforços que Portugal como pequeno país fez a partir de determinado momento.

 

Confesso que, olhando para o seu percurso político, fiquei surpreendido. Foi também naquele momento que o orador passou a fazer parte daquele conjunto de personalidades das quais discordo profundamente do seu pensamento e prática política, mas pelas quais nutro atenção e respeito intelectual.

 

Hoje, Timor Leste é um país independente que esperamos siga no caminho da reconstrução de uma Nação. Culminar da luta de um Povo que sofreu na pele o facto de ter sido considerado “dispensável” pela Comunidade Internacional.

 

Os jornais trazem-nos hoje, passadas décadas sobre estes factos, notícias de Novos Povos Dispensáveis, agora a propósito de uma absurda “crise económica”, que pega na realidade e se recria a toda a hora!

 

Hoje, o “grande povo dispensável” é a Grécia, um país nas mãos dos mesmos que originaram a crise: a banca e o sistema financeiro. Os juros das obrigações gregas a um ano ultrapassam os 100%. Ao mesmo tempo o governo grego avisa que não terá dinheiro para pagar salários e pensões a partir do mês de Outubro.

 

A dita crise que se auto-regenera e auto-alimenta nos dramas quotidianos de um número cada vez maior de cidadãos, tem autores e criadores que importa não esquecer:

-  A “banca” (americana onde tudo teve início e europeia onde se propagou a gananciosa apetência pelo lucro fácil),

- O “Sistema Financeiro Internacional” (onde tudo se amplificou)

- Os “governos e instituições internacionais” como a União Europeia que, chefiados por figurinhas de terceira categoria continuam incapazes de dar as respostas  correctas aos problemas que se tem levantado nos últimos anos.

 

Independentemente das responsabilidades dos políticos gregos (ou irlandeses, portugueses, espanhóis ou italianos…), quem está a pagar tudo isto é o cidadão comum.

 

O cidadão que vive do seu trabalho e do seu esforço diário e se vê empobrecer de dia para dia com medidas que cortam, de forma cada vez mais profunda, os orçamentos familiares.

 

As figuras de diminutas capacidades que chefiam os países e organizações internacionais (como a União Europeia) já decidiram quais os povos que hoje são “dispensáveis”.

 

E como vai ser quando a “coisa” chegar aos “indispensáveis”?

 

Por João Paulo Macedo

12-09-2011



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