Horta, 18 Maio 2012
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Um Livro por Semana XCVIII

9 de Novembro de 2010

Canção da vida vivida

de Armando Côrtes-Rodrigues

 

 

         Faz todo o sentido escrever poesia numa altura em que, manifestamente, a poesia não está na moda. E não está na moda porque a linguagem poética tem dificuldade em competir com outras linguagens: a teórica, a social, a política e, sobretudo, a linguagem dos órgãos de comunicação social.

            Por outro lado, os ventos não correm de feição para a coisa poética. Vivemos um tempo marcado por um feroz neo-liberalismo, por um capitalismo desenfreado, por ausência de referências e de valores. Este é, acima de tudo, um tempo marcado pelas novas tecnologias da informação e da comunicação que, com todo seu rol de coisas positivas, também traz aspectos nefastos. Por exemplo: hoje falamos muito, mas comunicamos pouco; vivemos essencialmente da imagem – (os jovens passam mais tempo em frente do écran do computador do que em vez do écran da televisão). Está aí a geração do videoclip e tudo o que não seja uma imagem por segundo é, para os nossos jovens, uma perfeita chatice… Jovens que, segundo Umberto Ecco, utilizam o telemóvel como um apêndice natural das trompas de Eustáquio…

            Moral da história: com tanta comunicação, com tanta informação e com tanta imagem, os nossos jovens são hoje cada vez mais comunicativos, mas menos cultos; cada vez mais informados, mas menos eruditos. Pior do que isso: hoje confunde-se cultura com animação e diversão…

            A poesia não está na moda. É certo que os livros de poesia não fazem aumentar as receitas públicas nem equilibram as contas externas. E não é menos certo que o poema não tem ainda a cotação do dólar ou do Euro. E, no entanto, nunca como agora, estivemos tão carentes e carenciados de sonho e de utopia. Nunca como agora precisamos tanto de poetas, de filósofos e de gente das Letras. (Afinal “o binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo”, como escreveu Fernando Pessoa).

            Vem tudo isto a propósito do livro Canção da vida vivida (Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1991), de Armando Côrtes-Rodrigues (1891-1971), com selecção e apresentação do professor brasileiro Celestino Sachet.

 Estamos na presença de uma colectânea de poemas inéditos daquele autor micaelense, poemas esses que se encontravam no espólio sob guarda da família e dispersos por jornais e revistas.

Apesar do evidente circunstancialismo dos poemas, e não obstante tratar-se de um livro desigual, quer na forma, quer no conteúdo, Canção da vida vivida é, mesmo assim, uma obra importante para a compreensão da poética de Armando Côrtes-Rodrigues que, recorde-se, foi amigo pessoal de Fernando Pessoa na fase futurista da revista “Orpheu”, e que viria a trocar Lisboa por São Miguel, onde durante longos anos, se dedicou a um certo franciscanismo literário, cantando, em verso e em prosa, louvores à paisagem, à vida e às gentes daquela ilha, de que são exemplos significativos o livro de poesia Em louvor da humildade (1924) e a bem conhecida peça de teatro Quando o mar galgou a terra (1940).

 

 

 

 

                                                                                                          Victor Rui Dores



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