Horta, 18 Maio 2012
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Um Livropor Semana XCVII

1 de Novembro de 2010

Um testemunho de vida em

Histórias de Aventuras e Contrabandos,

de Nuno Álvares de Mendonça 

 

      Amante do mar e da liberdade, Nuno Álvares de Mendonça largou de novo amarras na aventura da escrita.

      Após ter dado à estampa a 3ª edição desse livro incontornável que dá pelo título de Memórias de um Baleeiro, este autor jorgense (filho de mãe picarota e pai graciosense) volta agora, com estas Histórias de Aventuras e Contrabandos (edição de autor, Nova Gráfica, Lda., Ponta Delgada, 2005) a aparelhar a memória e a rizar o discurso. Navegar é preciso, não importa a rota, muito menos o destino. Sem temer furacões, ventanias, tempestades e outras tormentas, ei-lo timoneiro experiente, a navegar à bolina, perseguindo a liberdade, a felicidade e o sonho.

 

      Ainda e sempre há em Nuno Álvares de Mendonça o gosto de surpreender o leitor e o prazer de contar histórias com desfechos surpreendentes.

      Mas atenção: estas histórias não são viagens imaginárias, já que este livro resulta de experiências vividas pelo seu autor no âmbito da ilha de S. Jorge, em geral, e da vila das Velas, em particular.

      De regresso à sua ilha natal, o velho Jaime (alter-ego de Nuno Álvares de Mendonça) acompanhado de um amigo recente em viagem de férias pelas ilhas (e que na narrativa funciona como um interlocutor), visita lugares, recorda acontecimentos, reencontra pessoas, mata saudades. Esta revisitação geográfica e afectiva à ilha de S. Jorge constitui, afinal, o pré-texto, ou o leit motiv do livro.

 

      Histórias de Aventuras e Contrabandos constitui um testemunho de vida e traz-nos, à partida, três grandes novidades temáticas.

      Em plena Segunda Guerra Mundial, e numa altura em que no decorrer de tal conflito armado Portugal manteve a chamada “neutralidade colaborante”, Nuno Álvares de Mendonça foi testemunha de acções de negócios e contrabando na ilha de S. Jorge, praticadas em terra e no mar, envolvendo tripulantes de submarinos alemães e naturais da ilha. O dólar americano servia de moeda de troca, uma vez que o marco alemão tinha pouco valor cambial. Os lucros eram chorudos. Segundo o autor, numa altura em que uma casa razoável se comprava por 15 ou 20 contos, os lucros obtidos no contrabando da borracha poderia atingir os 30.000$00. Tanto quanto julgo saber é a primeira vez que este assunto (por muitos ainda considerado tabu) é, no contexto açoriano, assumidamente trazido às páginas de um livro.

 

      Segunda novidade: a existência, na ilha de S. Jorge, de uma “Justiça da Noite” ainda durante o primeiro quartel do século XX. Até agora, os registos escritos sobre tal prática circunscreviam-se à ilha Terceira. Pois a verdade é que, num tempo em que se ia parar à cadeia por transportar aguardente do Pico para S. Jorge, Nuno Álvares Mendonça, ainda muito jovem, esteve directamente envolvido em manifestações dessa organização secreta que visava a moralização dos costumes.

      Terceira novidade: a homenagem sincera e sentida que o autor presta a seu pai, Rui de Mendonça (1896-1958), dando-nos a verdadeira dimensão humana dessa personalidade de referência que, tendo sido professor primário, advogado provisionário, armador, poeta, contista, teatrólogo, jornalista e político, sempre se bateu pelos valores da liberdade, da justiça e da democracia.

 

      Em 1931, Rui de Mendonça, então Delegado da Junta Revolucionária da ilha de S. Jorge, envolveu-se em acções que visavam o derrube de Salazar… Acabaria por sofrer as consequências da sua coragem e do seu envolvimento político: esteve preso na cidade da Horta e, posteriormente, foi engrossar as fileiras dos deportados políticos que conheceram o cativeiro no Castelo de S. João Baptista, na ilha Terceira, não se concretizando, felizmente, a ameaça do Tarrafal… Foram tempos muito difíceis para a família, que era numerosa, sendo de destacar a grande determinação e a inexcedível dignidade com que a mãe do autor soube enfrentar tamanhas adversidades.

      Recorde-se que, no dia 9 de Junho de 1989, Rui de Mendonça foi condecorado, a título póstumo, com o Grau de Oficial da Ordem da Liberdade, pelo então Presidente da República, dr. Mário Soares.

 

      De resto, a influência de Rui de Mendonça seria determinante na formação cívica, moral e intelectual de Nuno Álvares de Mendonça que, desde muito cedo, se habituou a não gostar de ditaduras, fossem elas exercidas, lá longe, por Carmona e Salazar, ou, cá dentro das ilhas, por directores de alfândega, guardas-fiscais e outros inimigos de estimação… Mantendo sempre uma atitude de inconformismo e resistência, viria ele, mais tarde, a apoiar, em S. Jorge, as candidaturas de Humberto Delgado e Norton de Matos.

      Mas este é, essencialmente, um livro de histórias, memórias, aventuras e peripécias. Algumas são heróicas: por exemplo, a ousadia e a coragem dos “lutadores do mar” na amarração ao cais de lanchas e batelões, em tempo de mar bravo e de falta de infra-estruturas portuárias…

      E há a epopeia do autor que, com apenas 14 anos de idade, transportou, num pequeno barco e pela calada de noite, um leitão de S. Jorge para o Pico… Ele que, muito jovem, fez uma chave da porta da cadeia das Velas, em estreita colaboração com a “justiça da Noite”… E salvou uma criança prestes a morrer afogada… E concebeu, a partir de uma ventoinha de ferreiro, um invento para aumentar a potência do motor de uma lancha (“gasolina”). E, mais tarde, domesticou um cavalo que, na primeira tourada de praça realizada em S. Jorge, salta por cima do toiro livrando-se assim de uma cornada fatal. (“…e enfrentar um toiro não há-de ser pior do que enfrentar uma baleia”, é-nos dito na página. 109). E, já homem maduro, empreendeu uma viagem arriscadíssima, a bordo da sua traineira, de S. Jorge para o Faial…

 

      Outras narrativas são absolutamente hilariantes: a forma radical com que o autor aprendeu a nadar…; a do outro que foi roubar uma melancia e que, perseguido por um cão e seu dono, corre desalmadamente com a melancia debaixo do braço e, ao saltar para a “chata”, estatela-se no mar, sem saber nadar… Ou a peripécia daquele sujeito que, ao cair da tarde, vai caçar pombas da rocha, mas começa a chover e ele abriga-se num palheiro; aí chegado escuta a voz de uma mulher que lhe pergunta se ainda chove. O homem, que era amante de saias, procura no escuro o vulto da mulher que estava sentada em cima de um monte de palha. Manhosamente foi-se aproximando e como aquela não lhe oferecesse resistência, tudo se tornou fácil… A surpresa veio depois do acto consumado quando a mulher, dando-se a ver, disse: “Nossa Senhora te pague, meu filho! Há mais de 30 anos que não sabia o sabor disto!” (pág. 106).

 

      Este é um livro atravessado por personagens de grande riqueza humana, algumas frenéticas e tumultuosas: tio Medeiros, contrabandista; o avô Mafredo e a sra. Amélia, contadores de histórias; o João Mentiroso, que fazia partidas; o padre Faria, que se endividava para pagar as contas dos mais necessitados; mestre Amaro Carvalho, homem sensato, culto e contador de casos; Manuel da Rosa, homem de sabedoria

      Mas este regresso à ilha serve também um propósito de ajuste de contas, já que os oportunistas do passado são desmascarados (José Silva, o polícia, por exemplo), bem como é posta a nu a “nabice” e a incompetência do mestre do barco “Espírito Santo” que, em dia de mar chão, naufragou ao fazer a manobra de saída do cais das Velas… As causas de tal naufrágio são aqui minuciosamente analisadas.

      Estamos, por conseguinte, perante um belíssimo livro de aventuras marítimas, de memórias marinheiras e de apetecíveis peripécias. Há aqui uma nostalgia irónica que apetece e uma escrita bem fluída (que se fica entre a ilha e a viagem) e se lê com infinito prazer. 
 
 

 

 

 

Victor Rui Dores 



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