Horta, 6 Setembro 2010
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9 de Dezembro de 2009

O futuro… ou será equilibrado ou nem será

   Magda Costa Carvalho 

    O ser humano caracteriza-se pela posse da razão.

 

    Esta é uma afirmação que se mostra isenta de grande polémica. Basta abrirmos os olhos para percebermos que o que distingue o mundo humano civilizado teve a sua origem nesse grande prodígio que é o raciocínio abstracto. Casas, carros, pontes, igrejas ou colheres de chá só se tornaram possíveis porque apurámos o engenho, desenvolvemos as ciências exactas (e as menos exactas), afinámos a arte e prolongámos com os instrumentos técnicos as habilidades da mão.

 

    Não desejaríamos viver noutro mundo e estamos absolutamente gratos às gerações anteriores todo o trabalho que nos legaram, possibilitando os índices de conforto e bem-estar de que hoje dispomos.

    No entanto, – e reflexões como esta têm sempre um “no entanto” – à medida que fomos entrando nos recessos do nosso campo mental, e daí retirando os recursos necessários à transformação do meio, fomo-nos afastando cada vez mais do que está para além da nossa subjectividade.

    Aliás, é curioso como utilizamos a palavra “meio” para nos referirmos ao que nos rodeia, ao Ambiente, à Natureza. Como se a tivéssemos realmente transformado no “meio” ao serviço dos nossos próprios fins. E como vivemos numa época em que, de um modo geral, todos os meios à disposição justificam os fins a que nos dispomos, instalámo-nos numa leitura instrumental do ecossistema que habitamos.

 

    É já habitual o discurso ecologista que apela a sermos mais “verdes”, o que tem a séria vantagem de começarmos a observar uma real alteração da mentalidade ocidental, até há algumas décadas centrada exclusivamente nos interesses humanos. Porém, parece-me que o grande desafio é ainda outro.

    O segredo do nosso futuro planetário não pode passar por um discurso utópico e idealista que sirva apenas uma meia dúzia de radicais ambientalistas. O segredo do nosso futuro planetário passa por uma abordagem global e universal, que nos inclua a todos (humanos e não-humanos) e não exija que abdiquemos daquilo que nos torna o que somos: precisamente a racionalidade com que comecei. O “mundo natural” necessita do “mundo humano” (se é que são dois mundos verdadeiramente diferenciados!), tanto quanto este necessita do primeiro.

 

    O desafio hoje é o de aprendermos que somos uma parte decisiva num sistema muito mais vasto e complexo. E que apenas haverá futuro se nos adaptarmos à Natureza, sem perdermos a nossa especificidade.



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15 de Setembro de 2009

Criados por Deus ou resultado da natureza?

   Magda Costa Carvalho 

  

 

 

  Qual é a origem do Homem e do Mundo?

    Esta pergunta mantém-se hoje sem solução consensual.

 

 

    Os físicos centram as suas respostas em moléculas e átomos, os biólogos recorrem ao ADN, os químicos apontam as reacções de uma hipotética “sopa primordial”, os filósofos preferem redireccionar a questão para o plano metafísico e os homens de fé apelam às Escrituras.

 

 

    A verdade é que continuamos sem saber, afinal, de onde proveio o Mundo e tudo o que nele está contido. À medida que reflectimos, a questão vai mostrando a sua dificuldade e torna-se numa das mais difíceis e apaixonantes perguntas que o Homem coloca a si mesmo.

 

 

    No nosso país, a questão tem sido colocada sem grande visibilidade: de há poucos anos a esta parte, algumas reuniões de especialistas e publicações de divulgação têm procurado fazer luz sobre o tema. Mas nem a notícia da criação de um Museu (em Mafra) dedicado a contestar a teoria da Evolução, nem a alteração do programa de Educação Moral e Religiosa Católica para o 7º ano, conciliando de um modo esclarecido e fundamentado o discurso científico acerca das origens biológicas da vida e a narrativa bíblica dos Génesis, foram ainda suficientes para levantar a polémica em Portugal.

 

 

    Contudo, em países como os Estados Unidos da América, já desde o início do século XX que este tema tem vindo a apaixonar a opinião pública. Foi em 1925 que os americanos se envolveram no primeiro – de muitos – julgamentos mediáticos em torno do debate: o famoso “Julgamento do Macaco” condenou em praça pública um simples professor de ciências por ensinar as teorias de Charles Darwin nas suas aulas. Num país marcado por uma forte presença de facções religiosas mais conservadoras, parecia um ultraje a toda a condição humana pretender que, afinal, somos ainda “parentes” de um ser tão repugnante e primário quanto seja um símio.

 

 

    De um modo genérico e simplificado, podemos resumir a polémica a duas facções, apelidadas pelos especialistas como “Criacionismo” e “Evolucionismo”. Criado por Deus ou descendente do reino animal, o que está em causa é sobretudo o nosso próprio estatuto no seio da natureza: os partidários do Criacionismo advogam para o Homem uma filiação divina, com todos os privilégios existenciais que daí decorrem, os defensores do Evolucionismo inserem-no numa linhagem puramente natural, nada mais do que uma de muitas partes.

 

 

    A polémica estendeu-se por longas décadas e permitiu que cada uma das leituras envolvidas tenha refinado argumentos e reestruturado as suas posturas. O saldo dos combates resolveu-se muitas vezes em propostas cada vez mais radicais e, consequentemente, inconciliáveis. Rapidamente se confrontaram um fundamentalismo religioso com um fundamentalismo científico.

 

 

    De um lado, os Criacionistas pugnam por uma postura de fundo espiritual e metafísico, coroado por um moralismo ingénuo, mas pretendem defender a mais objectiva, e até científica, das posições. Do outro, os Evolucionistas apresentam uma atitude totalmente isenta de qualquer factor meta-físico e religioso e defendem uma visão que ceifa do mundo as dimensões que ultrapassam o plano das ciências.

 

 

    No dia 21 de Setembro próximo, a questão será debatida em Ponta Delgada, no Colóquio “Darwin e a Sociedade”, uma iniciativa integrada nas comemorações darwinianas que se têm celebrado, em 2009, um pouco por todo o mundo. Esta iniciativa procurará juntar, numa Mesa Redonda, diversas perspectivas sobre a Evolução da vida (religiosa, científica, educativa e filosófica), de modo a permitir uma conciliação concertada entre o que são, afinal, diversas facetas de um mesmo problema.

 

 

    Esperemos que o debate traga novas luzes sobre o tema e nos permita caminhar, não para uma solução final à pergunta pela nossa origem, mas para um patamar de reflexão crítica e fundamentada.



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14 de Junho de 2009

Votámos, mas pouco…

   Magda Costa Carvalho 

 

   Depois da tempestade, a bonança. Depois das eleições, o sossego.

 

   Bom, desta vez parece que não é tanto assim. Nas últimas eleições, os cidadãos não assistiram nem participaram como é habitual numa “tempestade” de informações (muitas vezes contraditórias), de promessas (tantas delas vãs) ou de distribuição (absolutamente inúteis) de pequenos objectos de marketing partidário. Na verdade, nos cerca de 15 dias que antecederam as Europeias não só presenciámos um modo mais sereno de fazer política, como passámos mais ou menos indiferentes à habitual balbúrdia da campanha.

 

   Em meu entender, esta alteração ficou a dever-se quer à benéfica ausência regional de insultos e afirmações pouco honestas por parte da maioria dos intervenientes (digo “a maioria” porque sempre há os que fogem à regra), quer à maléfica fraca intervenção do público no que se estava a passar.

 

   O problema é que “o que se estava a passar” era nada mais nada menos do que o nosso futuro político, sendo que pelo político passa o social, o económico, o cultural… Nestas últimas eleições, enquanto população, fomos o mais irresponsáveis e inconsequentes que poderíamos ter sido. Seja a nível nacional, seja sobretudo a nível regional.

 

   O não envolvimento sério na campanha cifrou-se depois no não envolvimento na votação. O resultado era já esperado e a abstenção foi gritante. Quase 80% é um escândalo democrático, um contra-senso cívico.

 

   Os meios de comunicação social lá tentaram justificar o facto com o desinteresse do povo pela política. O povo assegurou esta sua suposta verdade nas entrevistas de rua e nas conversas de café. E justificou a sua postura com a corrupção dos políticos, com a falta de crédito dos dirigentes partidários, com uma série de chavões que começam a entrar num grave processo de erosão.

 

   Parece-me que há uma dura realidade que temos estado a escamotear, talvez porque estamos já tão habituados à democracia que nos esquecemos que ela não é um recurso natural inesgotável: é que só tem legitimidade para contestar quem faz ouvir a sua voz na altura certa.

 

   O poder democrático não é um depósito fechado de pertença exclusiva de quem assina documentos e promulga leis. É antes um conjunto infindável de rios que começam em cada um de nós e confluem para os nossos representantes legitimamente eleitos. Quem não vota, seca voluntariamente a fonte e impede que o caudal final do rio tenha o volume aconselhado a uma legítima e segura governação.

 

   O que aconteceu no passado dia 7 de Junho não deve terminar no encerramento das urnas ou no apuramento dos votos. Agora é a altura de, calmamente e sem pressões de agenda, reflectirmos sobre o que se passou: seja na esfera privada de cada cidadão, seja num debate público esclarecido e esclarecedor.

 

   Esta parece-me a única medida a tomar, sobretudo se pensarmos que muito em breve seremos chamados novamente à responsabilidade democrática do voto.



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14 de Maio de 2009

 “Nanoética” ou os problemas éticos da nanotecnologia

 

   Magda Costa Carvalho 

  

  São já antigos os debates em torno dos dilemas éticos decorrentes da utilização das mais variadas tecnologias. A adesão da Humanidade a um estilo de vida dominado pela maquinaria permitiu-nos aumentar exponencialmente o nosso ritmo de produção. Contudo, uma vez que o recurso à técnica conferiu ao Homem um maior poder de intervenção no que o rodeia, tornou-se igualmente necessário repensar o enquadramento da sua acção. Se as novas tecnologias nos permitiram chegar mais longe mais depressa, isso significa que o impacto de tudo o que fazemos é cada vez maior.

 

    Assim sendo, torna-se necessário repensar se os benefícios valem todos os custos, se os riscos e sacrifícios são totalmente recompensados pelos (grandes) feitos atingidos.

 

    Todas estas questões surgem com maior ênfase quando as tecnologias em causa pertencem ao domínio do infinitamente pequeno. Referimo-nos às chamadas “nanotecnologias”, um ramo tecnológico ainda em desenvolvimento que se reporta à construção de dispositivos a uma escala próxima das dimensões do átomo. Apesar de haver ainda muita especulação em torno desta manipulação da matéria a um nível molecular, a sua utilização é já hoje uma realidade a muitos níveis, como a produção de cosméticos ou a manipulação de tecidos resistentes a manchas de sujidade. Para além disso, a produção de pequeníssimas estruturas com os mais diversos fins tem permitido aos cientistas projectar importantes avanços, por exemplo, nas ciências médicas, sendo este um dos campos mais promissores para a cura de doenças como o cancro.

 

    Contudo, apesar das inegáveis mais-valias com que a nanotecnologia hoje nos acena, existe todo um vasto domínio de interrogações que permanecem por responder. Uma vez que estamos a falar do imensamente pequeno (os entendidos falam de um milionésimo de milímetro), torna-se extremamente difícil conceber um controlo absolutamente rigoroso destes materiais. Tratando-se de materiais minúsculos e extremamente leves, podem propagar-se pelo ar com acelerada rapidez e sem que ninguém se dê conta disso, pelo menos a olho nu. As nanopartículas podem inclusivamente alojar-se nas células dos seres vivos, produzindo aí os mais variados efeitos.

 

    O maior problema com esta chamada “nanopoluição” prende-se com o que ainda hoje desconhecemos acerca do poder da nanotecnologia: estamos no início do processo de exploração desta novidade e, como tal, existe um vasto leque de efeitos que não são totalmente conhecidos pelos cientistas que os manejam. O impacto ambiental das nanopartículas, a sua relevância em questões de segurança internacional e até mesmo a sua projecção na saúde pública, a ameaça que representam perante a confidencialidade e a autonomia dos cidadãos, entre outros, são temas já hoje em debate.

 

    É precisamente nesse contexto que surge a “nanoética” como uma nova disciplina: se a utilização destas “ultra-mini-máquinas” não pode deixar de nos surpreender pelo que parecem prometer em termos da resolução de problemas ainda hoje sem solução, por outro lado impõe-se uma reflexão ética acerca dos seus limites. Sendo certo, em qualquer contexto, que não devemos fazer tudo aquilo que podemos de facto fazer (a liberdade necessita de vir a par com a responsabilidade), este preceito aplica-se com muito maior razão no domínio das nanotecnologias. A nanoética parece estar a desenvolver-se nesse sentido, não com o intuito de boicotar junto dos cientistas as suas novas investigações, mas antes de permitir um amplo e correcto enquadramento de tudo o que está em jogo quando entramos no mundo “liliputiano” das micro-partículas.



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27 de Março de 2009

  A (Pré)Ocupação

 

   Magda Costa Carvalho 

 

 

 Martin Heidegger (1889-1976) é um dos principais nomes da filosofia alemã contemporânea e as suas obras trouxeram uma renovação do pensamento ocidental sobre a realidade.

 

   Numa dessas obras, o pensador transcreve uma pequena história antiga em que a natureza humana é apresentada através de uma linguagem mitológica simples: 

 

   Um dia, quando a Preocupação atravessava um rio, viu um pedaço de terra argilosa. Pegou-lhe e começou a moldá-la. Enquanto reflectia sobre a obra que criara, chegou Júpiter, o pai de todos os deuses. A Preocupação pediu-lhe que desse uma alma àquela forma de barro, o que Júpiter fez de bom grado. Foi então que se gerou uma grande discussão sobre o nome que teria a nova criatura: a Preocupação quis dar o seu nome porque lhe tinha dado forma, a Terra exigiu o mesmo direito porque lhe tinha dado a matéria, mas Júpiter reclamava que a tinha dotado de alma. Então, chamaram o Tempo para decidir: “Como tu deste à criação uma alma, disse a Júpiter, receberás a sua alma depois da morte. E tu, Terra, receberás o corpo. E a Preocupação, porque moldou a criatura, possui-la-á enquanto viver. Quanto ao nome será “Homo” (homem) por ter vindo de “Húmus” (terra)”. 

 

   A riqueza de conteúdos é imensa e explorá-la na sua totalidade iria para além dos limites destas crónicas. Opto apenas por vincar o aspecto que me parece o mais marcante do relato: fomos moldados pela “preocupação”.

 

   O significado desta palavra começa por ser etimológico: “pré-ocupação” ou “ocupação prévia”.

 

   De facto, o homem é, por natureza, um ser preocupado, não apenas no sentido de se inquietar e desassossegar com os mais variados assuntos e temas que preenchem o seu dia-a-dia, mas sobretudo enquanto se “pré-ocupa” com o que o rodeia. O que nos irá acontecer, a curto ou a longo prazo, começa sempre por ser objecto dos nossos pensamentos e inquietações.

 

   A falar verdade, nunca vivemos apenas no momento presente e mesmo aqueles que se dizem guiar pela célebre frase latina Carpe Diem, ou “Aproveita o Dia”, acabam por despender tempo e energia a ocupar-se mentalmente com o que lhes acontece. Seja em relação às necessidades mais básicas que temos que satisfazer, seja no que respeita a grandes ideais ou a importante tomadas de decisão, a existência do homem é permanentemente atravessada pela pré-ocupação que, segundo a história mítica de Heidegger, se explica pelo modo como fomos moldados.

 

   Apesar de este ser um relato metafórico, faz-nos pensar na forma como naturalmente encaramos a realidade e permite-nos perceber que a nossa existência é uma constante rede de interacções mentais e afectivas com tudo e com todos os que vivem connosco. É essa a verdadeira “pré-ocupação” e é por ela que nos definimos como “seres humanos”.



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25 de Fevereiro de 2009

   Seres do sentido

   Magda Costa Carvalho 

    Tantas vezes nos questionamos sobre o que distingue e distancia o homem dos restantes animais. As respostas surgem como as mais variadas: desde a posse da racionalidade ao exercício da consciência moral, desde a construção de códigos linguísticos elaborados a um agir livre e indeterminado.

    Reconhecemos o profundo parentesco que nos liga ao mundo animal. Depois de Darwin – cujo centenário da mais famosa obra, On the origin of species, este ano se celebra –, a evidência da semelhança entre o homem e a restante natureza tornou-se incontornável. Porém, ao olhar a civilização actual, quer nas suas obras mais grandiosas, quer nos seus pormenores mais ínfimos, parece-me claro que sobressaem mais as diferenças do que as semelhanças entre nós e o que nos rodeia.

    A base de todas essas diferenças reside, em meu entender, na questão do sentido. Só o homem é capaz de interpretar o presente em função de projectos futuros, de dar significado a gestos e acontecimentos de acordo com momentos passados, de entender a vida enquanto reservatório de diferentes vias de acção e, em função disso, de escolher o melhor rumo a seguir. O ser humano precisa desses vários sentidos para orientar a sua existência quotidiana, sendo através deles que a vida ganha o seu verdadeiro e pleno valor.

    Enquanto seres do sentido que inevitavelmente somos, nunca nos devemos furtar ao que isso exige de nós – a cada instante, em cada tomada de decisão, em cada pensamento.

    Agir de modo inconsequente, falar irreflectidamente, ajuizar sem uma correcta e rigorosa consideração dos factos, são apenas exemplos das inúmeras atitudes em que tantas vezes nos perdemos. Em todas elas, recusamos as exigências do sentido, procedendo do modo mais superficial e descomprometido possível.

    Aceitarmo-nos enquanto seres do sentido implica optarmos pela via mais difícil, mas também mais gratificante. Implica abdicarmos de uma existência demasiado leve, demasiado fácil, em prol de uma actuação prática em conformidade com um pensamento sério e esclarecido, envolvido em verdadeiros valores de referência. Significa renunciarmos à moral da multidão e procurarmos construir um código de acção próprio, solidificado em normas e valores humanos. Porque só essa vida com sentido deverá ser autenticamente con-sentida.



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7 de Janeiro de 2009

A irrecuperável perda do ser

Magda Costa Carvalho

 

Por vezes assusto-me com a frieza de algumas das reacções humanas perante a morte de outrem. Já não nos deixamos comover quando o locutor de um serviço noticioso anuncia um dos frequentes massacres de vidas humanas nalgum país distante. Tão habituados que estão os nossos ouvidos a este tipo de notícia, é como se o nosso cérebro não permitisse que processássemos a informação de modo emotivo. Registamos mais essa catástrofe como se de um facto virtual ou até fictício se tratasse e raramente voltamos a pensar no assunto. A memória a longo prazo não regista qualquer dado e, nem mesmo quando nos deparamos com outra notícia idêntica, nos deixamos abalar.

Todavia, manifestamos um comportamento radicalmente diferente perante o desaparecimento de alguém conhecido. Quando parte um ser humano que nos era próximo, quando se trata da perda de uma vida que bem conhecíamos, a reacção é outra. Ao invés do registo abstracto de uma massa anónima, mantemos uma representação concreta de um nome, de um rosto, de um projecto de vida.

Só então nos é dado compreender a irrecuperável perda que representa a morte de um ser humano. A quantidade de informação, de conhecimentos, de sentimentos, de projectos, de ideias,… enfim, tudo o que desaparece definitivamente quando morre um homem ou uma mulher! E, contrariando o provérbio, quando morre esta “andorinha”, sentimos que acaba mesmo a Primavera. Sabemos bem que, por mais que nasçam indivíduos, por mais que se propague a espécie humana, ninguém poderá substituir integralmente aquele ou aquela que conhecíamos e amávamos.

Percebemos, então, que somos caracterizados pelo facto de sermos únicos e irrepetíveis, e que isso pesa sobre nós como um dos mais maravilhosos aspectos da Criação. Mas também, inevitavelmente, como um dos mais angustiantes. É fabulosa a infinita diversidade cósmica que permite a unicidade de cada um. Mas é também profundamente trágico que grande parte da riqueza inerente a um ser humano se perca de modo irremediável quando desaparece a nossa componente natural biológica.

Quando morre um ser humano, é todo um mundo que desaparece. E não há dúvida que os conflitos e as guerras que, todos os dias, teimam em dizimar milhares ganham outro significado se os perspectivamos a esta luz.



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24 de Dezembro de 2008

Uma Festa de Anos à escala da Humanidade

Magda Costa Carvalho

 

Não gosto de fazer parte da multidão de vozes críticas que lançam, de modo radical, anátemas à civilização contemporânea pelo excesso de consumismo que atingiu o Natal. Contudo, penso que, na verdade, todos reconhecemos a grande justeza destes comentários e todos sabemos bem como, de ano para ano, aumentamos os acessórios nas celebrações natalícias. Sem querer fazer parte dos “velhos do Restelo” que ficam resmungando no cais enquanto vêem partir os barcos, parece-me inegável que gastamos mais no Natal do que seria desejável ou, sequer, necessário.

Outro dia, em conversa matinal com minha Mãe, encontrei o que me pareceu uma boa metáfora para o caso: sendo certo que é o açúcar que coloca o chá no equilíbrio de sabor exacto, sei muito bem que estrago a bebida se, encantada pelo poder do açúcar, resolver despejá-lo em demasia dentro da chávena. Na proporção certa, transforma o chá em delícia, em excesso condena-o à ruína.

E é precisamente assim com o Natal: os presentes, as decorações na mesa da Ceia, as luzes nas portas e janelas das casas, os enfeites da árvore de Natal, as guloseimas… tudo contribui para transformar esta época numa altura de eleição. São, portanto, como o açúcar que, em excesso, fazem do Natal uma feira de vaidades e da Noite Santa um autêntico circo.

Contudo, apesar de me parecer necessário insistir na nossa cada vez maior proximidade a um abismo de consumismo desenfreado, há um aspecto de que não abdico. Quando comecei estas linhas a dizer que me afasto das vozes críticas à actual vivência do Natal, é sobretudo porque estou longe de advogar que deveríamos implantar a simplicidade absoluta em que nem prendas se trocariam. Longe disso! Considero mesmo genial – e muito “natalício”, na verdadeira acepção da palavra – a ideia de, numa única noite, estarmos todos a trocar prendas em simultâneo.

Numa ocasião, ao reflectir sobre a prática de, na Noite da Consoada, toda a gente desembrulhar presentes ao mesmo tempo, pensei como aquilo parecia mesmo uma festa de anos. E, de facto, era: fazia anos o Menino. Mas, então, por que motivo não é apenas Ele a receber as prendas, à semelhança do que aconteceu quando os Magos O visitaram? Esta pergunta acompanhou-me durante algum tempo, deixando-me com o gosto amargo e angustiado de estarmos a esquecer o essencial.

E foi então que tudo se tornou claro: esta é uma festa de anos, só que é a melhor de todas as festas de anos porque é aquela em que todos, ao mesmo tempo, podem ser os aniversariantes! Somos todos nós que celebramos porque é cada um que renasce nesta noite. E quem mais seria capaz de ceder o Seu lugar no dia de anos, partilhando-o com quem quiser juntar-se à Festa, senão o mais importante dos Aniversariantes? Só o Menino Deus poderia permiti-lo porque Ele é o único Homem capaz de mostrar como pode a humanidade abdicar da sede de protagonismo.

 Gosto de nos imaginar todos sentados à mesma mesa, soprando as velas de um mesmo bolo, e sendo, nesse momento, centros irradiadores de uma alegria incontrolável e imensa. Se pensássemos mais nesta ideia, parece-me claro que talvez muitos dos nossos problemas seriam resolvidos.



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2 de Dezembro de 2008

A inevitável e sublime fragilidade da vida

Magda Costa Carvalho

 

Viveríamos de modo diferente se fôssemos incorruptíveis, se nos tivesse sido dada a oportunidade de viver para sempre, sem defeitos ou máculas físicas, numa extensão infinita de tempo?

A questão é pertinente e tem, com certeza, ocupado muitos de nós desde o começo dos tempos, desde que se tornou clara a consciência da inevitável presença do sofrimento na vida humana. Percebermos que a natureza corporal e psíquica que nos compõe passa por forçosos processos de deterioração, que cada minuto que vivemos é um pequeno, mas seguro, passo para o desaparecimento físico, constitui uma das angústias originais de qualquer ser humano. Felizmente, na maior parte de nós, esta consciência chega tarde, passados já os risonhos anos da infância e primeira juventude, em que crescemos com a inabalável certeza de que tudo e todos são eternos e eternamente belos.

Na sequência destas descobertas, temos tendência para alimentar o sonho de uma vida “perfeita”, infinita, eterna… e, ainda que saibamos o quão utópica se torna a ideia, preenchemos o quotidiano com pequenos gestos que visam torná-la real.

Quando me deparo com esta questão, recordo inevitavelmente um texto de uma das maiores escritoras portuguesas do século XX. Sophia de Mello Breyner (1919-2004), num dos seus Contos exemplares intitulado “A Viagem”, relata a história de um casal em busca da casa ideal. Percorrem longos quilómetros, visitam várias moradias, mas em todas encontram defeitos que não se enquadram no padrão que haviam desenhado inicialmente. A certa altura, o casal reflecte um pouco nas visitas que já havia feito e compreende que, afinal, eram capazes de viver em algumas daquelas casas porque o que os desgostara talvez nem fosse tão relevante quanto o consideraram de início. Então, optam por voltar para trás na tentativa de recuperarem alguma das residências que, tolamente, tinham deixado escapar. Porém, contra todas as suas expectativas, o retorno mostra-se impossível… já nenhuma casa estava onde eles a tinham visto, as estradas que tinham percorrido haviam deixado subitamente de existir e os dois encontram-se irremediavelmente perdidos. Uma sucessão inesperada de más surpresas atinge o infortunado par que, desnorteado, acaba no abismo.

O leitor compreende, então, as intenções da autora: a “perfeição” almejada não existe e tornarmo-nos escravos da sua ideia apenas nos pode conduzir à maior de todas as rasteiras, ao mais grave dos pecados contra a vida, ou seja, o esquecimento do presente real pela projecção de um futuro utópico e sem consistência.

Ao encararmos o problema da fragilidade da vida necessário se torna evitar o tipo de viagens descrito por Sophia, de modo a compreendermos que, sendo inevitável, é esse mesmo carácter delicado que confere à existência o que ela tem de mais sublime. Assumir esta postura permite-nos reconhecer os pontos cardeais de que necessitamos em cada passo do nosso percurso próprio, para não perdermos nunca as referências. “Se não estivéssemos perdidos – afirmava a certa altura o homem do conto –, esta caminhada seria uma viagem maravilhosa”… Ora, para não nos perdermos na Vida, o essencial é que olhemos o mundo tal como ele é e não como gostaríamos de fantasiar que ele fosse. Porque, acreditamos, a vida é, afinal, uma viagem maravilhosa.



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7 de Novembro de 2008

“A dor de todas as ruas vazias…”


Magda Costa Carvalho

Num dos poemas do último livro publicado em vida, o poeta português Al Berto (1948-1997) utiliza uma expressão marcante. Ainda que o propósito do autor não fosse aquele que, enquanto leitora, coloco na dita frase – não vive a obra por si só, muito para além da intencionalidade do autor? – considero que a mesma se aplica de um modo paradigmático ao sentimento que experienciamos aquando da perda física de alguém que nos era muito próximo.

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“A dor de todas as ruas vazias”.

É deste modo que sinto a partida corporal definitiva. Uma dor de se saber de antemão que todas as ruas ficarão para sempre vazias, mesmo que se encham de gente. Vazias não de conteúdo, mas de sentido. Vazias não de pessoas, mas da pessoa que já não está. A sensação tremenda de uma ausência física radical e absoluta, o silêncio que se instala no mais íntimo de nós… a sensação de que uma voz se calou materialmente, para sempre. A certeza de que só a ouviremos ecoar nos recantos das memórias que nos ficaram. Ou então, na presença espiritual que ganham aqueles que amámos – e amamos – e que, assim, se eternizam.

“A dor de todas as ruas vazias” fala dessa tormenta de sabermos que mesmo que percorramos em passo de corrida todas as estradas do mundo, que passemos em revista todos os becos e ruelas, que vasculhemos os atalhos e as calçadas já gastas pelo tempo, jamais encontraremos a presença física dos que partiram. O silêncio torna-se, por isso, ensurdecedor, mesmo no maior ruído citadino. A ausência torna-se demasiado presente, feita agora restos do que ficou por dizer.

“A dor de todas as ruas vazias” capta, assim, a saudade mais saudosa de todas, a mágoa de um desatino que se torna por vezes insuportável, a verdade de já não podermos recorrer ao corpo para encontrar indícios de quem tantas vezes nos deu um abraço apertado, nos consolou com uma carícia ou com um olhar de cumplicidade.

Mas ao mesmo tempo, a frase de Al Berto impele-nos para o alto, reclama da mente e do coração que busquemos com maior afinco e determinação onde “esteja” agora quem partiu. Se todas as ruas estão vazias, procuremos então fora delas. Na subtileza do entre-tempos, na imaterialidade dos espíritos, na incorruptibilidade das almas. Encontrar nesse outro plano quem partiu fisicamente exige uma perícia e um treino dos sentidos, mas apazigua o coração. O vazio das ruas deixa, assim, de doer… ou, pelo menos, dói com menor intensidade porque, simultaneamente, se revela o carácter fugaz e transitório destes corpos, a insignificância destas lágrimas, a pequenez destas angústias, quando comparados com o essencial.

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Quando, de repente, todas as ruas se tornam dolorosamente vazias, é também quando se preenche de significado o mais importante recanto da existência: aquele que não está sujeito às contingências do tempo, nem do espaço, nem da matéria, nem do movimento físico. É então que se ilumina o verdadeiro mundo e que, ao olharmos o seu brilho, descobrimos como passámos a ter “do lado de lá” quem nos proteja, vele e aguarde.

“A dor de todas as ruas vazias” é, afinal, a alegria do verdadeiro despertar, a repousante chegada a casa depois de um longo peregrinar. Mais do que um triste e sufocado “Adeus…”, um esperançoso e confiante “Até breve!”.



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Propriedade – Espaço Liquido Bar/Moda, Lda
Morada – Rua Dr. Mello e Simas, 2 * 9900 Horta
Numero Fiscal Contribuinte – 512 096 643
Registo na Conservatoria do Registo Comercial da Horta – 512096643
Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) - registo nº 125502

Director – Sissa Madruga
Editor – Sissa Madruga
Colunistas- Rui Sabino, Sissa Madruga, Vitor Rui Dores, Magda Carvalho, Eduardo Sobral
Fotografia – Ricardo Guilherme
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