Horta, 6 Setembro 2010
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27 de Agosto de 2010

Sobre Rapsódia Vegetal

de António Fernando Vieira Lucas da Silva 

 

     “Isto já foi muito animado e rico. Tudo à volta da Horta e dos Flamengos eram casas, quintas cheias de laranjas, de plantas e flores, a quinta de S. Lourenço, a quinta da Silveira, a quinta dos Dabney, depois abandonadas quando a Inglaterra deixou de comprar os frutos no Faial indo buscá-los ao Cabo”.

Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas 

 

O desenvolvimento económico dos Açores tem sido feito por e através de ciclos: logo nos séculos XV e XVI viveu-se o ciclo dos cereais, sobretudo do trigo que fez dos Açores “o celeiro de Portugal” e, paralelamente, assistiu-se ao ciclo do pastel e da urzela, plantas tintureiras cujo cultivo se ficou a dever aos flamengos. O pastel fornecia corante azul escuro e a urzela, pertencente à família dos líquenes, permitia a coloração vermelho-violeta.

 

     No Livro 3 de “Saudades da Terra”, Gaspar Fructuoso refere que o flamengo Van der Haegen (Silveira) carregava navios com pastel e urzela para a Flandres e para a Inglaterra. De realçar a importância destas plantas numa época muito anterior à descoberta dos corantes químicos para dar coloração aos tecidos.

      Depois, a partir do século XIX, assistimos ao ciclo da moagem (os moinhos de vento foram, por assim dizer, a primeira “indústria” açoriana), a que se seguiram o ciclo da laranja, o ciclo da vinha e o ciclo da baleia.

     Os autores e viajantes do século XIX e primeiro quartel do século XX deixaram testemunho escrito sobre estes ciclos económicos, sendo de realçar as muitas referências feitas às quintas, pomares, hortas e ao exotismo dos jardins da família Dabney, nomeadamente quando aludem às residências da “Bagatelle”, “Fredónia” e “Cedar´s House”. A recente publicação dos 3 volumes dos Anais da família Dabney no Faial veio trazer nova luz sobre a presença desta importante família norte-americana entre nós. Ficámos a saber, por exemplo, que foram os Dabneys que introduziram as araucária nos Açores a partir do Faial.

 

     O século XX será caracterizado, no arquipélago, pela prevalência do ciclo da agro-pecuária e, mais recentemente, um novo ciclo económico de desenvolvimento tem vindo a abrir-se: o do turismo.

        Este brevíssimo contexto histórico serve para melhor percebermos o opúsculo intitulado Rapsódia Vegetal (edição de autor, 2010), de António Fernando Vieira Lucas da Silva, faialense que ama incondicionalmente a terra, cidadão dotado de uma consciência ecológica e acérrimo defensor do património natural.

       Falando da sua experiência pessoal, o autor vem recordar-nos que, num passado recente, o milho, o trigo, a beterraba, o tabaco, a chicória, a cevada e o milho canarinho constituíram as plantações mais importantes do Faial, com relevância em termos económicos e sociais para a ilha, sendo que a fruticultura chegou, de igual modo, a ter aqui alguma expressão e importância.

      Recorrendo ao conhecimento empírico, e fazendo abordagens que estão muito próximas de “O Seringador”, “O Borda d´Água” e outros almanaques congéneres, esta Rapsódia Vegetal vale pelo que tem de útil repositório de informações, opiniões, recomendações e sugestões.

     O autor escreve falando connosco: refere as dificuldades com que se deparam os agricultores; tece considerações sobre algumas técnicas de plantação da fruta, precisando as épocas próprias para o fazer; fala-nos dos benefícios da fruta na nossa saúde (“An apple a day keeps the doctor away”); historia, classifica e caracteriza frutos e plantas; dá contributos sobre como vindimar e achegas sobre adubação, sulfato e podas; avança com algumas curiosidades. Por exemplo: que se deve semear ervilhas e feijão no enchente da Lua; que a hortelã afasta as moscas; que o sr. José Baleeiro ainda faz chinelos de casca de milho; que houve um tempo em que os sabugos serviam de papel higiénico; e que ainda bem recentemente se cultivava mil canarinho com a finalidade de se construir vassouras.

 

     Para ilustrar as suas observações, António Fernando Vieira Lucas da Silva recorre à fraseologia popular (“O rabanete vai à mesa do rei”; “O feijão quer ver o dono sair da terra”; “A uva é a fruta do sol”; “A laranja substitui o sol de inverno” (porque tem vitamina C), bem como ao adagiário: “Maio maião, ganhas na cana mas não ganhas no grão”; “Até São João se semeia pão”; “Até S. Pedro da vinha tem medo”; “Em S. Martinho, vai à adega e prova o vinho”; “Na vinha a rebentação de Março vai ao cabaço, rebentação de Abril vai ao funil”…

 

     E, volta e meia, o autor é tocado pela emoção poética quando escreve:

     “Como bonito era ver as searas na nossa Ilha, então quando o trigo estava perto de ser ceifado e fazia um pouco de vento, formava pequenas ondas mágicas e douradas que produziam uma doce canção de embalar.” (pág. 30)

 

     A vegetação do Faial de há muito que tem vindo a ser alterada, já que a área de distribuição de floresta primitiva deu lugar aos aglomerados urbanos, campos agrícolas e áreas de pastagem. Nesta matéria, o século XIX foi determinante com a introdução, no arquipélago, de plantas exóticas, tais como o incenso, a roca-da-velha (ou conteira), a fona de porca, o chorão, a cana e a hortênsia que vieram aumentar as ameaças à nossa flora natural e endémica, nomeadamente o cedro-do-mato, o louro, o azevinho, o queiró, a azorina vidali, os fetos entre outros. Tomemos a hortênsia como exemplo: originária do Japão, a hortênsia é, sem dúvida, muito vistosa e bela, mas é uma infestante e uma invasora e, por conseguinte, dá cabo da comunidade endémica. 

     Ser ecológico é muito mais do que gostar da natureza – é ter consciência de todas estas dinâmicas. Por isso quero saudar António Fernando Vieira Lucas da Silva, que se identifica com a flora e valoriza o património vegetal, e, por isso, luta para que o Faial não seja esquecido nem se apague no mapa da globalização.

     Recomendo vivamente a leitura desta Rapsódia Vegetal porque nela encontramos dados de interesse geral e sugestões que são verdadeiramente úteis. 

 

 

Victor Rui Dores 



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14 de Agosto de 2010

Sobre Andanças de pedra e cal,

de Álamo Oliveira  

 

 

     Artesão de palavras sempre em busca de novas significações para as mesmas, poeta telúrico de agudíssima sensibilidade e apreciáveis recursos sensoriais, Álamo Oliveira é um dos nomes mais representativos da açorianidade literária. E, nos seus 34 livros até agora publicados (e bem cuidados), este autor persegue as palavras certeiras, no seu modo (insulado) de olhar as coisas, de as reflectir e transfigurar. Senhor de várias artes, ecléticas escritas e múltiplos talentos, ele identifica-se, enquanto cidadão e escritor, com a ilha Terceira, seu microcosmo de referência, e capta, em prosa e em verso, o espírito do seu povo.

     A poesia é tanto mais importante quanto mais se confunde com a vida. E falar de Álamo Oliveira é falar da íntima ligação entre a vida e a escrita. Isto é, da integridade viva do real, da sua essência infinita e concreta que o habita, que o assombra, que o renova. É esta dimensão do amor à terra e do desejo da viagem que faz deste terceirense um poeta sui generis – ele que já foi insuportavelmente barroco e sufocantemente rebuscado… Com o tempo, Álamo encontrou o equilíbrio formal, descobriu o domínio da economia do verso e a requintada arte de finalizar o poema, sendo que um constante sentido de rigor e de vigilância orientou a demanda de uma linguagem depurada e erguida sobre a palavra exacta e essencial. Resultado: o percurso poético de Álamo tem sido sempre de sentido ascendente.

 

       Duas circunstancialidades rodeiam a génese dos poemas reunidos neste seu último livro, Andanças de pedra e cal (BLU edições, 2010): o autor empreendeu, nos últimos anos, viagens (reais e imaginadas) por terras europeias, brasileiras e americanas (Eu próprio pude testemunhar o seu “exílio” pessoal em Berkeley, em 2002), sendo que das impressões e experiências colhidas dessas viagens resultaram os versos que constituem a primeira parte do livro, com o título de “andanças”; por outro lado, a segunda parte da obra, intitulada “de pedra e cal”, reúne poemas que já haviam sido publicados no álbum Memórias de Ilha em Sonhos de História, poemas esse escritos para dar respiração a uma série de serigrafias do artista plástico Álvaro Mendes – são olhares (com denso conteúdo poético) lançados sobre determinados monumentos e espaços da ilha Terceira.

     Por conseguinte, este é um livro dispersivo, de itinerâncias e peregrinações, atravessado por olhares, impressões, alusões, afectos e imagens. Estamos perante a revisitação mítica da viagem, ou, se quisermos, da geografia afectiva de lugares, memórias e coisas que povoam o imaginário de Álamo Oliveira, isto é, tudo aquilo que lhe ficou suspenso na memória e é, aqui, matéria de evocação.

       Tematicamente este livro traz a novidade de uma concepção estética universalizante: o poeta decifra o enigma dos dias e viaja da Ilha para o Mundo, funcionando a Ilha como uma alegoria ou uma metáfora do Mundo; e isto porque estando o poeta condicionado pela distância e pelo apartamento, necessário se torna um diálogo entre a Ilha e o Mundo.

     Por isso estes são versos forjados à luz da observação do real, do vivido e do sentido, do “cá” e do “lá”, num jogo poético do mítico e do simbólico. Os poemas condensam, en passant, a condição insular nas suas vertentes geográfica, humana, histórica e cultural. O poeta colhe impressões do que vê, sente e pensa e, viandante anónimo, procura na viagem não o destino, mas a sua própria natureza. Mais do que uma viagem física, trata-se aqui daquela que ele, poeta, empreende em busca da sua identidade e do encontro consigo mesmo e com os outros.

     Aliás, a arte poética alamiana tem precisamente como duas grandes linhas de força a íntima ligação do homem com a terra-mater insular, por um lado, e por outro, o drama antigo do partir ou do ficar. Neste livro, o autor assume o compromisso de partir, como pretexto para ver a ilha de fora, sendo que o desejo da viagem é uma forma de procura e de descoberta, e a errância é a busca do sonho e da felicidade possível.

     Em Álamo Oliveira a poesia faz e faz-se. E o leitor mais atento e informado saberá que este autor revela grande domínio da escrita e mestria na composição poética. Apenas três exemplos retirados, ao acaso, do livro em apreço. Uma prosódia prenhe de poeticidade: “só sabiá sabia que não sabia desafiná” (pág. 29 ); a depurada limpidez de uma bem conseguida sonoridade: “no rio é sempre Janeiro. mas caem águas de março/ na cachoeira de versos enfiados na saudade como missanga (pág. 28); a ironia: “todo o ano é santo em são francisco e/ por vezes o pacífico não é tanto” (pág. 26).

     Gostei incondicionalmente desta poesia marcadamente lírica e destes poemas que são fugazes fulgurações. Porque encontrei, neste livro, a harmonia do mundo para lá das ruínas e das sombras do quotidiano. 

 

 

 

 

Victor Rui Dores 



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9 de Agosto de 2010

O esplendor de Eduíno de Jesus!

“Caríssimo

O computador não está avariado, eu é que começo a adornar. Meti carga a mais, não a estivei devidamente, atafulhei tudo num bric-à-brac de sonhos e decepções a trouxe-mouxe, e agora não sei o que devo deitar borda fora para equilibrar o casco, ou se isso tão pouco é possível.

Quatro vezes passei o cabo dos 20 e nunca cheguei aprender a rota! Os almirantes, lá à proa, sabê-la-ão? A minha cerviz calcificada nem me permite espreitar, daqui onde estou, o sentido da viagem que se abre nas minhas costas. Envelheci grumete, nunca subi, uma vez que fosse, à gávea; e agora para aqui estou, sentado à popa, olhando o mundo a ficar para trás…

Um abraço

Eduíno”

(e-mail, datado de 1/10/2008, e enviado a Onésimo Teotónio Almeida, pág. 365)
Acabo de ler, de fio a pavio, o livro Eduíno de Jesus – A Ca(u)sa dos Açores em Lisboa, homenagem de amigos e admiradores (Instituto Açoriano de Cultura, 2009), organizado por Onésimo Teotónio Almeida e Leonor Simas-Almeida, casal unido na arte e no afecto.

De afectos e com afectos está este livro escrito. Trinta e quatro autores dão, nas páginas desta obra, público e vivo testemunho da importância de Eduíno de Jesus – um autor que, na minha opinião, vale por toda uma literatura.

– Este é o “borracho” dos escritores açorianos! – foi assim que, em Abril de 1987, o poeta Álamo Oliveira me apresentou Eduíno de Jesus, no âmbito do 2º Encontro de Escritores no Solar de Lalém (na Maia do Daniel de Sá), nesse tempo em que havia tempo para os escritores celebrarem a vida, a amizade e a literatura.

Duas décadas depois, o sereníssimo e admirável Eduíno de Jesus, agora octogenário, continua a ser um “borracho”, isto é, possui essa capacidade inesgotável de comiseração e de ternura. E continua a ser, para muitos de nós, um raio de luz e um farol de saber.

Homem afectivo e modesto, professor aposentado, ensaísta profundo, poeta de primeiríssima água, intelectual rigoroso, dinamizador cultural e cidadão empenhado, o Eduíno é um sortido de cultura(s), fina ironia e sólidos conhecimentos. Solidário e acolhedor, dotado de uma infinita paciência, ele é igual a si próprio: agudo e arguto observador da realidade, extremamente cordial no trato, cumpridor e meticuloso, competente e minucioso, homem da perspicácia, da agudeza de espírito e da finura, um jeito muito fraterno de ser e conversar.

Interlocutor precioso e amabilíssimo, estar à conversa com o Eduíno é, efectivamente, receber uma lição de vida porque este homem entende inteligentemente o seu tempo e possui ideias claras e rigorosas sobre as coisas de que fala. Com ele aprendi que não se coloca o escritor de um lado e a obra do outro, mas que ambas devem ser entendidas como escuta, decifração e conhecimento. Dele tenho recebido crítica construtiva, natural, afectuosa, livre e segura, sem o tom pedagógico ou quase insolente de certos académicos que conheci durante os meus cinco anos de servidão na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa.

Ah, o inefável Eduíno dos colóquios e das conferências, resplandecente de sapiência e esplendoroso de enternecimento, com a sua voz mansa e os seus papelinhos na mão… É uma delícia para a mente e é um consolo para o espírito ler e ouvir este carismático pequeno grande homem, micaelense dos Arrifes e açoriano do Mundo! Ele tem essa capacidade de nos animar, no verdadeiro sentido etimológico da palavra, ou seja, de dar a alma.

E depois o Eduíno é aquele gentil cavalheiro de nobres e generosos sentimentos. Por exemplo: cumprimenta as senhoras sempre de beijo na mão, o que faz as delícias da minha mulher…

Homem de poucos deslumbramentos e de nenhumas complacências, o Eduíno é, por conseguinte, um “borracho” e uma ternura. Devolvo-lhe, neste escrito, aquilo que ele escreveu ao “poliédrico” Onésimo quando este completou 50 anos de idade, mas troco os 50 por 80: “Fazer 80 anos não é nenhuma coisa do Outro Mundo. Aliás, é mesmo uma coisa que só se faz neste mundo”.

O Eduíno será velho quando o for. Entretanto, e à semelhança do que já foi feito com a sua poesia, urge que ele (ou alguém por ele) recolha os muitos ensaios e estudos que tem dispersos em livros, jornais, revistas e outros periódicos, tendo em vista a sua publicação em vários volumes. A leitura das suas mensagens internéticas (capítulo III da obra em apreço) são disso um bom exemplo.

Pérolas linguísticas

Onésimo fez uma recolha da correspondência via e-mail por ele recebida de Eduíno de Jesus entre 2004 e 2009, e organizou-a em forma de diário. O resultado salta à vista de todos: os e-mails de Eduíno dirigidos a Onésimo (esse “impenitente passageiro em trânsito” (pág. 377), mostram os muitos e multifacetados conhecimentos do autor de Os Silos do Silêncio e são, por assim dizer, uma espécie de diário de bordo que se lê com infinito prazer.

Através deste diário de bordo acompanhamos o quotidiano de um homem que vive de palavras, para as palavras e com as palavras e que, devagar, devagarinho (nele é lenta a gestação da escrita), vai trabalhando uma série de projectos, dois dos quais hão-de fazer furor quando virem a luz da publicação: o Léxico Açoriano e o Arquivo de Autores Açorianos.

Do capítulo “Diário em e-mail” (que sublinhei até mais não), respigo estes saborosíssimos nacos de prosa que seleccionei e que aqui deixo à fruição do leitor.

“Hoje estou chateado sem saber porquê.” (pág. 191)

“Estou admirado com o teu inabitual silêncio, mas não o quebres se ele for de oiro.” (pág. 205)

“Enfim, que se lixem esses filhos da pátria que os pariu.” (pág. 211)

“Pelas esquinas, os partidos políticos, à falta de ideias, insultam-se recíproca e porcamente.” (pág. 205)

“Foi um fechar de festa com chave enferrujada”. (pág. 211)

“Ontem escrevi-te um e-mail que se volatilizou.” (pág. 213)

Assunto: “Nada de nada” (pág. 214)

“Em que parte do planeta estarás? Eu por mim andarei na Lua, como sempre fiz na vida.” (pág. 215)

“Os seus versos (Gilberto de Vasconcelos) eram banalmente ultra-românticos, mas de um ultraromantismo requintado em lume brando e, pior do que isso, parturejados sem dor. Não obstante, morreu tuberculoso, como qualquer verdadeiro poeta ultra-romântico.” (pág. 216)

“E quanto à nota biobibliográfica, não te afreimes.” (pág. 219)

“E tu por essa gentlemaníaca Inglaterra (…)” (pág. 232)

“Mas, sabes?, não me regozijo de ter sido sempre sincero. Perdi amigos por isso.” (pág. 258)

“Logo será a gala do aniversário da Casa dos Açores. Não vêm Laborinho nem Carlos César, que andarão nessa altura a laborinhar ou a cesariar por outras bandas.” (pág. 264)

“Não quebres a cabeça a procurar nessa selva obscura um trilho transitável” (pág. 268)

“As férias têm isto de negativo: acabam.” (pág. 283)

“Bem, ando (e não vejo porquê) com o astral em baixo. Isto não é em mim “nada de novo”, dá-me de vez em quando. Umas vezes corro as cortinas da alma e fico cá por dentro em retiro, fazendo contas à vida (que nunca dão certo…); outras, venho cá para fora, ou vou lá para fora (depende do meu ponto de vista na altura) e espanejo-me, cabriolo, retouço. Disfarço quando posso, mas às vezes os amigos dão por isso. Bom, agora estou numa de cortinas corridas.” (pág. 291)

“Por aqui faz frio por fora e por dentro da alma” (pág. 306)

“… a gente está sempre a tropeçar um no outro por essas esquinas do mundo”. (pág. 307)

“Quando eu era adolescente, a América era umas casas de madeira muito lindas por fora e confortáveis por dentro no meio de relvados verdíssimos com rapazes por ali andando a pé com bicicletas com muitos cromados pela mão, de um lado, e raparigas do outro lado, de sapatinhos rasos e soquettes e saias de organdi muito rodadas com laços azuis à cintura e um cestinho com a merenda que iam comer debaixo de uma grande árvore muito frondosa: as raparigas pareciam-se todas com a Deanna Durbin e cantavam como ela. Depois, já para o fim da adolescência, começo da juventude, as raparigas já tinham crescido na minha memória e os rapazes também, claro; eles fumavam aromáticos cigarros como os Philips Morris que comprávamos à unidade na loja do Sr. Figueiredo do Largo 2 de Março, elas levavam debaixo do braço as poesias de Lamartine ou de Musset (porque os poetas naquele tempo eram todos franceses, a América não tinha poetas)” (…) (págs. 331 e 332)

“Ainda um dia conto ir à Irlanda. Quem sabe? Hoje imagino essa ilha como uma imensa planície verde ondulante onde é preciso caminhar com cuidado para não pisar os gnomos que vivem por ali. Eles escondem-se debaixo da copa dos cogumelos à nossa aproximação, mas, mesmo que não se escondessem, a gente passaria sem dar por eles, pois o seu talhe é o de um polegar, mais ou menos. Chamam-se todos Patrick”. (pág. 340)

“A fisioterapia comigo não dá: fiz vinte sessões e fiquei vinte vezes pior. Psicoterapia… não imagino massajarem-me a alma. Primeiro, teriam de a encontrar; e, encontrando-a, tinham de lhe tirar radiografias, e como o fariam se a alma não é opaca para os raios X?” (pág. 346)

“Por aqui nada faz sentido. Vejo a vida passar como árvores por uma janela de comboio depressa e falsamente. Consulto o relógio que, noutro tempo, estava sempre atrasado, e agora vejo que é tarde.” (pág. 370)

“Por aqui o sem-saborismo do costume.” (pág. 379)

“Cessei com vagas melhoras o meu tratamento por acupunctura.

Gostava que a Terra fizesse a sua rotação completa mais devagar e idem o percurso da sua órbita” (pág. 379)

Enfim, deliciei-me com estes textos internéticos. A epistolografia tem os dias acabados? Com Eduíno, não. E quem disse que não se pode escrever literatura nas gloriosas auto-estradas da Net?

Longa vida a Eduíno! Que é de Jesus e nosso.

Victor Rui Dores



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3 de Agosto de 2010

Histórias de uma paixão pelo mar,

de Manuel Mota e Pedro Oliveira

Manuel Mota é um andarilho do mar e um marinheiro do vento. Sempre em busca de viagens longínquas e rotas imaginárias. Um homem que, na linha da proa dos vários barcos que teve, contornou o sonho e velejou a aventura. No início em viagens costeiras, depois em incursões inter-ilhas e participação em várias regatas. Finalmente, fazendo-se valer de um capital de experiência acumulado, encetou a viagem de circum-navegação a bordo do veleiro “Oásis”, juntamente com alguns amigos.


Histórias de uma paixão pelo mar (Agora Comunicação, 2009) relata (pela voz de Manuel Mota e escrita de Pedro Oliveira) não só a aventura dessa viagem durante 20 meses: foram 36.000 milhas percorridas, 32 países visitados e muitas outras emoções de momentos inesquecíveis. Aqui também se fala da relação fascinada e afectiva que Manuel Mota sempre nutriu pelas suas embarcações. Porque a errância foi sempre o destino deste skipper micaelense, a sua forma de perseguir a felicidade maior e a liberdade suprema.


Victor Rui Dores



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30 de Julho de 2010

Vaidade de Março, de Paulo Freitas

ou a solidão do poeta

Deste autor já aqui falei do seu livro Amores de raiva (1999), mas hoje trago à liça o livro que o trouxe para a poesia: Vaidades de Março (1998), numa altura em que ele contava 24 anos de idade, acabara de sair do Seminário de Angra do Heroísmo, escrevia ainda um pouco agarrado à forma, mas revelava já indiscutível talento poético.


A primeira coisa que se me oferece dizer sobre Vaidades de Março é que este não é um livro de vaidades; isto é, não estamos perante a lírica amorosa de um estudante em tempo de crise afectiva e sentimental e este não é um daqueles livros “precoces e precipitados” (a expressão é de Nemésio) que por aí abundam. Esta obra surpreende pela maturidade poética do seu autor, que exprime a sua tristeza e a sua solidão em versos bem carpinteirados, como neste soneto:


Andam meus dias tristes e acabados,

no chão rodopiando em desatinos…

Parecem chorar alto como os sinos

daquela igreja além, desentoados.

Andam meus dias tristes e curvados,

de mágoas e saudades tão divinos!

Parecem formar bando de meninos,

vestidos sempre igual, acinzentados!

Transformado na vida pela idade,

Como se o tempo fora em mim tecendo

Como lagarta o fio de um casulo!…

E na vida eu me vi envelhecendo,

perdendo a toda a hora a mocidade,

como se o tempo desse em mim um pulo. (pág. 18)

O que este livro nos apresenta é um “poeta magoado” e um “náufrago de alma e de cabeça”, que busca “transpor o transcendente”. E tudo isto através da expressão de um intimismo subjectivista (como forma de alheamento ou rejeição do mundo concreto) e de um pessimismo fatalista e decepcionado.

Rompem amargura, inquietação e angústia nos poemas de Paulo Freitas. Confrontado com “a vil Humanidade em podridão” e com “a vil doença”, o poeta parte em busca do sentido da existência e interroga a contingência e a transitoriedade do ser humano, buscando caminhos de libertação e liberdade.

Confrangido na solidão, o poeta vira-se então para a natureza, com a qual se identifica, isto é, consubstancia-se às coisas naturais numa afirmação panteísta.

Aqui também se fala da morte, não apenas a morte física, mas sobretudo a morte metafórica enquanto libertação, castigo ou perdão; daí a relação/oposição nascer/morrer, vida e morte.

Vaidades de Março também nos remete para uma poética telúrica, onde os símbolos insulares andam de mãos dadas com a açorianidade: mar, ilha, vulcão, vento, água, vendaval, mato, bago, hortênsia, bardo, prado, cais, barcos, etc.

Saúde-se este livro salpicado de memórias, emoções e afectos.

Victor Rui Dores



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20 de Julho de 2010

O Homem e o Marembarcações dos Açores

 de João Gomes Vieira 

 

        Figura incontornável da ilha das Flores, João Gomes Vieira é um cavalheiresco homem de cultura(s), conversador nato dotado de miúda e graúda erudição, inquieto e irrequieto, lapa da ilha mas animado por uma curiosidade universal, sentencioso e humanista, possuidor de uma consciência crítica e de um finíssimo sentido de humor, voz rouca e olhos encharcados de luz marítima…

      Vivendo ao ritmo cadenciado de ondas e marés, este florentino dividiu a sua vida entre a carreira administrativa e o fascínio pelas coisas do mar. Ele é herdeiro de marítimas aventuras: quando menino foi tocado pelas histórias que ouviu da boca de velhos marinheiros da baleação americana; desde muito cedo aprendeu o sonho da viagem, e da família herdou uma tradição embarcadiça, revendo-se na figura modelar de seu pai que foi marinheiro e oficial baleeiro.

 

      Por conseguinte, existindo e resistindo, agindo e reagindo no microcosmo da sua ilha (espaço de muitas partidas e de poucos regressos), João Gomes Vieira sentiu sempre o apelo do mar, traduzido no desejo de evasão e na necessidade indomável de quebrar silêncios e distâncias. E precisamente por ser portador de um imaginário telúrico e de uma memória marinheira, começou a escrever O Homem e o Marembarcações dos Açores (edição de autor, Intermezzo-Audiovisuais, Lda., 2002), que daria por concluído 50 anos depois.

 

      Apresentando-se em edição bilingue (português e inglês, sendo que as traduções são excelentes), com esplendoroso aspecto gráfico, este não é um livro de circunstância, mas sim a obra de uma vida. De uma vida de trabalho e de contínua e continuada pesquisa nos domínios da historiografia e da antropologia marítima.

      Com apetecível Prefácio do escritor João de Melo, a que se segue avisada Nota Explicativa do autor, o livro arranca com a descrição de uma viagem “rumo ao alto mar”, que João Vieira Gomes efectuou na corveta General Pereira d´Eça, viagem essa (d)escrita em escorreita prosa diarística. A viajar nessa “fortaleza de aço”, o autor dá conta das actividades a bordo e reflecte sobre o mar e a epopeia marítima de um povo que, através da errância, buscou caminhos de felicidade e sonho. Simples pretexto, afinal, para escrever sobre as embarcações primitivas dos Açores (recorrendo a informações de autores que vão de Gaspar Fructuoso, António Cordeiro, Frei Diogo das Chagas, passando por Padre Manuel de Azevedo da Cunha e José Cândido da Silveira Avelar até a estudiosos e pessoas da actualidade), seguindo rotas por outros portos e outras memórias.

 

      João Gomes Vieira sabe que os barcos de que fala fazem parte da nossa memória afectiva e têm alma (1). Por isso mesmo, em plena era da fibra de vidro, lança olhares retroactivos (e fascinados) às embarcações que existiram e/ou existem nas nove ilhas dos Açores nos últimos 100 anos. E isto numa altura em que, dada a imparável marcha do progresso, a construção naval em madeira tem os dias contados. Procede o autor à inventariação de todo um património marítimo, escrevendo sobre embarcações tradicionais e contando histórias de homens do mar e da terra – gente de grande riqueza psicológica e funda expressão humana.

 

      Convirá  não esquecer que esses homens e esses barcos não são apenas homens e barcos – são pedaços da nossa cultura, da nossa memória e da nossa história.

      Bem documentado e informado, e através de uma muito bem conseguida fluência narrativa, João Gomes Vieira capta esse “espírito do lugar” (que compreende as 900 milhas náuticas quadradas do universo marítimo açoriano) e fala do tráfego local e cabotagem; recorda baleias, botes e baleeiros; analisa a pesca do alto e a recolha de algas marinhas; evoca embarcações de recreio e de aventura; não esquece os artistas que no mar buscaram inspiração; comenta aspectos ligados à construção naval; através de textos que lhe foram fornecidos pelo padre José Idalmiro Ferreira, traz à lembrança devoções marítimas e, a fechar o livro, apresenta-nos um preciosíssimo glossário baleeiro por ele recolhido na ilha das Flores.  

 

      Por outro lado há este dado inapelável: mais do que para ser lido, este é um livro para ser visto, tocado e contemplado. Tal é a impressionante e riquíssima iconografia nele contida. Importantes arquivos fotográficos (os de Coronel Afonso Chaves e de Cônsul Dabney, por exemplo), recolhidos junto dos Arquivos Públicos dos Açores e nos contactos pessoais com fotógrafos e particulares, aqui se apresentam à fruição do nosso olhar. Porque esta é uma obra que também deve ser entendida como objecto de prazer visual.

 

      Atravessado pela memória do vivido e do sentido, e escrito com grande poder evocativo, O Homem e o Mar – Embarcações dos Açores resulta da relação apaixonada e apaixonante que João Gomes Vieira, ilhéu com sede de infinito, sempre teve para com as coisas do mar e da terra. Um livro que, a partir de agora, passa a constituir uma referência e um marco incontornável no âmbito da etnografia marítima. 

 

 

Victor Rui Dores 

     

  1. Na minha qualidade de professor de línguas anglo-saxónicas, quero também crer que os barcos têm sexo: feminino. Por alguma razão os barcos ostentam, quase sempre, nomes de mulheres. Por algum motivo são femininas as figuras de proa. De igual modo não será em vão que, na língua inglesa, “boat” (barco), “ship” (navio) e “plane” (avião) são substantivos femininos, pelo que são precedidos do pronome pessoal “she”. Exemplo: She´s a beautiful boat.

          Recordo, aqui, o poema Os barcos, do meu amigo Mário Machado Fraião: “os barcos levam nomes de mulheres/ por elas nos consumimos/ e nos perdemos/ e nos reencontramos” (…).

          Julgo ainda que a associação barcos / mulheres ultrapassa os domínios do linguístico e do poético. E isto porque pessoalmente conheço mulheres que apetecem como barcos. E barcos que têm a sensualidade e a elegância de mulheres (é o caso das canoas baleeiras)… 
     



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12 de Julho de 2010

O nascimento de uma paróquia

analisado por Mário Moura

  

 

      Em tempo de globalização e massificação, e numa era marcada pela mistificação e pela desidentificação, há, nas ilhas dos Açores, um punhado de estudiosos atentos à realidade local e dispostos a contribuir para a valorização histórica e patrimonial de tudo o que os rodeia. O micaelense Mário Moura é um desses historiadores locais que, numa linha de contínua e continuada pesquisa histórica, vem mostrar e demonstrar que é a partir da História local que se chega à História universal. De resto, e num outro contexto, já no-lo havia lembrado Miguel Torga: “O local é o universal sem paredes; (…) quanto mais local, mais universal”.

 

      Mário Moura é, pois, um historiador local que (re)visita e (re)escreve aspectos ligados à História da ilha de São Miguel e, no seu mais recente livro Nascimento de Uma paróquia – Nossa Senhora da Conceição (século XVII), fá-lo a partir do microcosmo da Ribeira Grande.

      Há  grandeza em ser-se historiador local. Gaspar Frutuoso, Frei Agostinho de Monte Alverne, Frei Diogo das Chagas, entre tantos outros que lhes sucederam, foram também historiadores locais e hoje não podemos passar sem eles.

 

      Não fora Mário Moura um historiador local e hoje não saberíamos, por exemplo, a história completa da paróquia de Nossa Senhora da Conceição da Ribeira Grande e desconheceríamos de todo o perfil de Matias Nunes de Melo, o seu primeiro vigário.

 

      Bem documentado e informado, Mário Moura dá, ao referido livro, tratamento criterioso e meticuloso. Estamos na presença de um estudioso bem apetrechado em termos teóricos e que possui capacidade de informar, esclarecer, decifrar e avaliar, ele que incorpora nos seus estudos os métodos e as preocupações dos mais diversos ramos da investigação histórica.

 

      Ao ler este ensaio, dou comigo a pensar que a estrutura moral dos açorianos deve muito ao clero. Com efeito, nestas ilhas, o padre, e também o professor primário, deram um contributo decisivo para a alfabetização e para o desenvolvimento cultural das nossas gentes. Os padres, mais dos que os professores primários, eram detentores de vasta cultura humanista; uns e outros não se limitavam a ensinar a ler, a escrever e a contar, foram também responsáveis pela criação de jornais, filarmónicas, grupos corais, ranchos folclóricos, grupos de teatro, tunas, agremiações desportivas e até actividades científicas. Lembro aqui o padre faialense Manuel José de Ávila (1851-1923), que foi meteorologista reputadíssimo.

 

      Sim, devemos muito ao clero, e logo desde os primórdios do povoamento: primeiro com os frades franciscanos e carmelitas e, mais tarde, com os jesuítas e capuchinhos, que para além da religião e instrução, nos deixaram outras influências igualmente importantes: a produção do vinho e aguardentes… (De igual modo ficamos a dever às freiras a nossa melhor doçaria conventual…).

 

      “É muito fácil construir igrejas; o que é difícil é meter Deus lá dentro”, escreveu o sociólogo norte-americano Toynbee. A história do nascimento e da construção da igreja de que, na referida obra, nos fala Mário Moura é bem esclarecedora dessa dificuldade, noutros tempos de escassos recursos.

 

      Este é, pois, um trabalho de investigação de grande interesse, documentado com importantes registos fotográficos. Ao lê-lo, fico a pensar que seria importante reconstituir uma história da arquitectura dos monumentos eclesiásticos açorianos, ou então uma História de Artes dos Açores. Porque foi através das artes que os açorianos deram respostas às eternas perguntas da vida. Temos que preservar o património escultórico religioso dos Açores, desenvolver os nossos recursos espirituais e salvaguardar o património artístico que os nossos antepassados nos legaram.

 

        Pergunto: o que se tem feito pela salvaguarda de todo o recheio das nossas igrejas? O espólio artístico nelas existente estará todo inventariado e devidamente acautelado?

      Em tempos de pirataria, houve muito espólio roubado, queimado e arruinado para sempre. É óbvio que também houve causas naturais para a destruição das nossas igrejas ao longo dos últimos 500 anos: convulsões vulcânicas, sismos, enchentes, tempestades marítimas, os altos índices de humidade, etc. Abundavam os incêndios nos templos e, à incúria do homem, juntava-se a sempre constante falta de dinheiro… Mas convirá não esquecer que, nos confortáveis tempos que correm, continua a haver por aí muitas outras formas de pirataria…

 

      Estejamos vigilantes e atentos ao nosso património.

 

      Defendo o princípio de que não há cultura nacional se não houver uma cultura regional. Por isso saúdo este trabalho exaustivo de Mário Moura, historiador local que continua à descoberta das nossas raízes, o mesmo será dizer, da nossa identidade cultural. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Victor Rui Dores



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5 de Julho de 2010

Se ficares em meus lençóis, de Jayme Velho 

 

      Após ter publicado Quando os brandais cedem (Ponta Delgada, 1988) e Por detrás do embondeiro (Ponta Delgada, 1999), Jayme Velho – pseudónimo do médico Rui de Mendonça – deu à estampa Se ficares em meus lençóis (Ponta Delgada, 2002) e que, tal como os anteriores, se apresenta com excelente cuidado gráfico.

 

      Trata-se de um livro de vibrações e de fragmentos de vida vivida e de vida sonhada: a vivência auto-biográfica interage com a crónica; e a narrativa ficcionada interliga-se com a reflexão analítica. O autor (que é simultaneamente narrador e narrador-protagonista) navega sonhos e memórias em viagens reais e imaginárias.

 

      E a viagem deste livro começa com uma revisitação à infância insular enquanto passado irrecuperável e paraíso irremediavelmente perdido. Isto é, são-nos descritas vivências iniciáticas do narrador em pleno despertar para a vida, para a sexualidade, para o conhecimento das coisas e para o mundo. Vivendo no microcosmo da ilha, o narrador recorda os verdes anos e a sua relação fascinada e inocente com os outros: a mãe, o pai, os irmãos e outros familiares, mas também gente castiça que ele conheceu de perto e que faz parte do seu imaginário e da sua memória afectiva: o Herculano, o Anatólio, o José da Rosa, o Chico da Charra, o José da Avó e outras personagens (de grande riqueza humana) que surgem do fundo dos tempos como uma aparição de saudade no meio das ruínas da vida.

 

      Da Rua Nova e das tropelias da infância, passa-se à “crise do acne” da adolescência e à inquietação de quem, nas primeiras rajadas de vida pré-adulta, vive dividido entre alegrias e dúvidas, sonhos e desejos, raivas e frustrações, separações e reencontros. São as memórias do liceu, dos primeiros amores, de atmosferas felizes e familiares, da pistola de zagalotes de atirar aos pássaros e de tantas outras aventuras…

 

      Já  na idade madura, convida-nos o narrador a partilhar momentos de felicidade por ele vividos em viagens efectuadas pelo mundo, através das quais (re)colhe ensinamentos proveitosos e inesquecíveis impressões.

      E há a considerar este dado inapelável: Jayme Velho dá-se bem com o universo feminino. Para ele a mulher é sempre esplendorosa e simboliza o mistério, o fascínio, o sonho, a volúpia, o pranto, a ternura, a salvação, a coragem, a verdade, o espanto, a paixão, a serpente… Estamos na presença de um autor que traça admiravelmente o perfil psicológico de personagens femininas e vai fundo na expressão do êxtase amoroso e erótico e na polarização do desejo totalizante. E que gosta de surpreender o leitor com desfechos imprevistos e imprevisíveis: é de antologia o acto de cópula por cima do presépio na narrativa “Um desastre natalício”….

 

      Atente-se, por exemplo, na minúcia da descrição pictórica e verdadeiramente literária do rosto de uma mulher (página 146):

 

      Saí apressado, estupefacto e tonto. A senhora do carro vermelho também saíra e com naturalidade foi ver os estragos que tinham resultado do acidente. “Nada de grave” disse-me como se não se tivesse passado nada. “Está magoado”? perguntou a ajeitar uma madeixa enorme do cabelo que lhe caía em cascata sobre a testa inteligente e os olhos claros que faiscavam poder. As sardas eram aos milhares numa tez escura como ilhas perdidas no mar negro. E o nariz que acompanhava de forma impressionante o traço triangular do rosto forte acabava por se fundir de forma harmoniosa com os lábios carnudos e trémulos sempre prestes a falar como veleiros nervosos na linha de partida à espera do tiro da largada. O carmim, o pálido, o escuro, o verde e o vermelho misturavam-se num conjunto forte duma pintura de traços vigorosos de génio inspirado”.

 

      Porém, sendo esta uma escrita de afectos e de outras nostalgias, é também ela um lugar de confronto e de ajuste de contas com aspectos relacionados com aquilo que em determinado tempo e local se viveu e experimentou. Escrever continua a ser, para Jayme Velho, uma forma de resistência, de denúncia das verdades ilusórias, de renúncia às máscaras de um quotidiano alienante e, sobretudo, de exorcismo da memória. E é curioso que este autor faça a sua catarse recorrendo quase sempre ao sonho, levando o leitor às mais fascinantes ambiências oníricas.

 

      É também pelo lado da memória interior que Jayme Velho lança olhares críticos às perplexidades do nosso presente, questionando os mitos do nosso passado recente e do nosso futuro incerto. E interroga-se sobre “a crise de líderes”, reflecte sobre pintura e pintores, fala no sopro de Deus, remetendo-nos para a analogia essencial que liga a criação divina à criação artística; ou seja, de que modo é que o artista se mede pela figura de Deus criador.

 

      Com capa e apetecíveis gravuras da autoria de Sérgio Luís (que acentuam o sentido de humor de algumas histórias), Se ficares em meus lençóis é também um belo livro sobre o amor e a solidão. Um livro bem disposto, bem carpinteirado e bem urdido, com um bom ritmo discursivo e apreciável frescura narrativa.

      É que vale mesmo a pena ler estas 166 páginas plenas de espessura evocativa e de atenta observação do humano. 
 

 

 

 

 

Victor Rui Dores



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27 de Junho de 2010

A poesia toda de Emanuel Félix  

 

      Mantive uma (longa) relação de amizade e de cumplicidade com os poemas de Emanuel Félix (1936-2004), poeta autêntico, inteligente, exigente e fraterno. E sempre que os leio experimento uma alegria breve. Uma alegria breve que eu sei que vai durar para sempre. Aconteceu quando pela primeira vez li o poema “Five o´clock tear” e, mais recentemente, com os incontornáveis versos de “As raparigas lá de casa”. E isto para dar apenas dois exemplos.

 

      Os (furtivos) livros deste autor, porque raros, tornam-se por isso mesmo mais valiosos e apetecíveis: A fonte da saudade (1954), 7 poemas (1958), O vendedor de bichos (de que há duas edições, uma de 1965 e outra de 1971), As Quatro Estações de Vivaldi (1965), Sete poemas chineses (1967), Angra no último quartel do século XVI (1967), A palavra, o açoite (1977), A viagem possível (antologia poética, 1984), Seis Nomes de Mulher (1985), António Dacosta – esboço de um roteiro sentimental (1988), O Dragoeiro (Dracaena Draco da Macronésia) – chave da grande obra em Jerónimo Bosch (1988), Conceito e Dinâmica do Património Cultural (1989), O instante suspenso (1992), Os trincos da memória (crónicas, 1994), Habitação das chuvas (1998), The possible Journey – poems (1965-1992), em versão bilingue (Gávea-Brown, 2002).

 

      De resto, já o escrevi noutro lugar, referindo-me à qualidade e à beleza formal da poesia de Emanuel Félix: neste autor, o poeta e o restaurador trabalham em perfeita sintonia e harmonia. E isto porque o poeta assume o ofício de artesão de palavras, esculpindo-as e lapidando-as até à sua (possível) perfeição, com o mesmo amor e do mesmo modo com que o restaurador trabalha os materiais.

 

      Nascido em Angra do Heroísmo, a 24 de Outubro de 1936, senhor de várias artes e de múltiplos talentos, este autor é, acima de tudo, poeta. Mas também intelectual, ensaísta, autor de crónicas e de contos, psicopedagogo, crítico literário e de artes plásticas, desenhador, pintor, conferencista… e tudo. Fundou (em 1958) e foi co-director da revista Gávea. Entre 1967 e 1974 tomou parte, na sua cidade natal, de um importante movimento cultural que se verificou em redor do suplemento literário Glacial, do jornal “A União”. Recorde-se que este movimento mobilizou à sua volta poetas, escritores, intelectuais e pintores. Em 1974/75 foi presidente da comissão administrativa do município angrense.

 

      Profissionalmente, Emanuel Félix começou pelo ensino (foi professor do ensino primário, leccionou Didáctica Especial na Escola do Magistério Primário e foi ainda professor eventual da então Escola Comercial e Industrial de Angra do Heroísmo),  tendo depois exercido funções de Técnico-Adjunto do Museu de Angra do Heroísmo e, mais tarde, de Técnico-Chefe do Centro de Estudo, Conservação e Restauro de Obras de Arte dos Açores, cargo de que se encontra já aposentado. Trabalhou no Instituto José de Figueiredo, em Lisboa, frequentou o Instituto Francês de Restauro, em Paris, a Escola Superior de Belas Artes de Anderlecht e o Instituto Superior de Arqueologia e História de Arte da Universidade de Lovaina. Estagiou durante longos períodos em museus de Paris, Ruão, Bruxelas, Liége, Amsterdão, Londres, Roma e Florença.

 

      Foi esta mundividência que ajudou a universalizar a poesia de Emanuel Félix, ele que é considerado um dos pioneiros do concretismo poético em Portugal, embora logo o abandonasse para dedicar-se a uma arte mais próxima do surrealismo. Experimentalismos à parte, a sua poética evoluirá depois para uma poesia, de envolvente fascínio e de grande beleza plástica e visual, que nos fala de fragmentos da vida vivida e da vida sonhada. Em poemas de uma permanente e perene modernidade.

 

      Precisamente porque possuidora e portadora de uma vocação universalista, a poesia de Emanuel Félix parte da ilha e projecta-se em espaços do universal. Esta é uma poética do amor e dos sentidos – que sente, pensa, sonha, viaja e age. Uma poesia que, viajando pelo mundo ocidental e oriental, ligada está às raízes comunitárias ancestrais da expressão poética no horizonte da nossa cultura europeia. Isto é, uma poesia mitológica, helénica, da civilização do sul, da luz, da emoção e da razão. Depurada, coesa, luminosa e plasticamente muito bela.

 

      A antologia Emanuel Félix, 121 poemas escolhidos (1954/1997), da extinta editora Salamandra (2003), está aí a provar isso mesmo.

 

Viva Emanuel Félix, digo, restaurador de palavras e excelente poeta!  
 
 

 

 

Victor Rui Dores



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22 de Junho de 2010

Apontamentos apícolas,

de José  António da Silva 

 

       Há livros que são úteis. É o caso de Apontamentos apícolas (edição Adeliaçor, Nova Gráfica, Ponta Delgada, 2005), de José António da Silva.

     Sobre esta obra farei uma abordagem no âmbito da antropologia cultural e não numa perspectiva científica e técnica, pois que manifestamente não sou nem conhecedor nem especialista em apicultura.

      Feito este primeiro aviso à navegação, saúdo José António da Silva que revela o seu saber, a sua experiência, a sua prática e a sua sabedoria, ele que, com esta publicação, pretende justamente transmitir às gerações vindouras o muito que sabe sobre apicultura.

 

      Profusamente ilustrado e com excelente apresentação gráfica, abordando uma temática sem precedentes entre nós, Apontamentos apícolas constitui um manual de grande alcance didáctico-pedagógico, dividido que está em três capítulos: Colmeias (I), Calendário apícola (II) e Alguns conselhos úteis (III). Ao longo de 28 páginas, o autor lança olhares à floração e ao comportamento das abelhas, dando valiosíssimos conselhos sobre técnicas e modos de se proceder à montagem e à condução do apiário. E não só. Diz-nos também que “o homem é o pior inimigo das abelhas” (pág. 17/18).

 

      E é por aqui que tecerei algumas breves considerações, fazendo “cair a sopa no mel”…

      “O homem é o pior inimigo das abelhas” e é o pior inimigo de si próprio. Já dizia Plauto que homo hominis lupus (o homem é um lobo para o homem), numa alusão à ferocidade com que os homens procuram prejudicar-se mutuamente.

      Alguém escreveu que o homem se diferencia dos outros animais porque, contrariamente àqueles, come quando não tem fome, bebe quando não tem sede e copula em todas as estações…

 

      Predador de si mesmo, o homem é incapaz de entender a eficaz e eficientíssima teia de trabalho e de produção das abelhas: obreiras e operárias incansáveis, geómetras perfeitas! (Espantosos são os favos de células hexagonais). O homem é incapaz de perceber a complexíssima rede de organização e interacção das abelhas, insectos himenópteros e superiores!… (Convirá não esquecer que a abelha é a representação simbólica do trabalho).

 

      Mais difícil se torna admitir que as abelhas vivem entre si uma espécie de matriarcado… Vivem em sociedade com laivos de um perverso “feminismo”. A abelha-mestra, a rainha ou maioral é a soberana: é ela que manda e comanda; é ela que prevalece, pois tem a seu cargo a reprodução e preside aos trabalhos da colmeia.

      O macho, o zângão, depois de cumprida a sua missão, é absolutamente dispensável, descartável. E isto porque ele, após fecundar a fêmea, é expulso da colmeia pelas obreiras; incapaz de se alimentar e de se aquecer, acabará, mais tarde, por morrer de frio e de fome, ingloriamente…

 

      As abelhas são tudo menos sentimentais – quando uma delas volta do trabalho tão gravemente ferida que julgam não poderá já prestar serviço, expulsam-na implacavelmente.

      Não há sociedades perfeitas e as abelhas não constituem excepção. É, no meio de tanto trabalho, tanta produção, tanta organização e eficiência há sempre as vilãs a estragarem o arranjinho. Refiro-me às “pilhadeiras” que, segundo José António da Silva, “são abelhas transviadas dedicadas ao roubo e existem em todas as colmeias” (pág. 12).

 

       As abelhas não produzem apenas cera e mel – criam também um modo de ser e de estar em sociedade. Há um “espírito de colmeia”, tal como nas forças armadas há um espírito de corpo. Se não respeitarmos este “espírito de colmeia”, pagaremos as consequências de ameaça e perigo, picadas e dor… Nessa situação o mel pode rimar com fel…

      Desde a Antiguidade Clássica que é reconhecido o valor nutritivo do mel. E não só. Para muitos povos o mel era (e continua a ser) considerado como um dos mais eficazes afrodisíacos.

      Vejamos agora, através de alguns exemplos, como a abelha e o mel surgem na cultura popular.

      Na linguagem popular, “abelha” pode ser: uma mulher astuta e esperta; dona de prostíbulo; pessoa que dirige outra com cuidado excessivo.

      Da abelha, resultou o adjectivo “abelhudo”. Uma pessoa abelhuda é uma pessoa intrometida, astuta, habilidosa.

      O mel no Adagiário:

      “Não há mel sem fel”.

      “As moscas mais se apanham com mel do que com fel”.

 

      O mel na fraseologia popular:

 

      “Por dez reis de mel coado” – por baixo preço, por uma insignificância, quase de graça.

      “Doce como o mel” – muito doce.

      “Fazer-se mel” – mostrar-se fraco, transigir.

      “Ser de mel” – ser dócil, calmo, meigo.

      “Dar mel pelos beiços” – procurar ser agradável a alguém, bajular, adular.

      “Cair a sopa no mel” – vir uma coisa a propósito, estar a calhar, ser oportuno.

      “Passar o mel pelos beiços” – agradar com fins vantajosos. 

      Termino, fazendo votos para que os leitores deste faial on line comam muito mel, sejam felizes e… haja saúde! 

 

 

Victor Rui Dores 



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Fotografia – Ricardo Guilherme
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