Horta, 6 Setembro 2010
Publicação Periódica Online
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Se fizermos um exercício de memória podemos reconhecer à nossa volta situações que começaram muito bem e acabaram muito mal. Podíamos falar de artistas que depois de chegarem ao sucesso acabaram suicidando-se ou que depois de serem ricos acabaram na miséria.
Podíamos falar de empresa prósperas que foram à falência, de figuras públicas que mais ninguém se lembra….
Mas gostava de reflectir um pouco sobre os relacionamentos conjugais dos nossos dias.
Portugal continua a ser um dos países com maior número de casamentos. A ideia bonita de partilhar uma vida a dois com compromisso continua na mente das pessoas. Quer queiramos quer não, a maioria das pessoas sente um vazio muito grande se não tiver com quem partilhar a sua vida. Adão, sendo perfeito e estando no paraíso, sentiu-se só. Quem somos nós para não sentir esse legitimo desejo?
Normalmente, todos os casamentos tem um início bonito, uma história de amor que fez vibrar os apaixonados. Nesse tempo de namoro existe uma vontade muito grande de conhecer o outro e de dar-se a conhecer. Para honrar o namorado, oferecem-se presentes, dizem-se palavras bonitas, valoriza-se a pessoa, reconhecendo as suas qualidades e não há vergonha de assumir até publicamente que estamos apaixonados e que essa pessoa é fantástica. Pode não ser perfeita, mas é alguém com quem nos vemos a partilhar a vida, daí ser muito especial.
Dizem que, nesse período, parecemos um pouco tolos, andamos nas nuvens, com a cabeça no ar.
Há uma atmosfera especial, inventam-se palavras carinhosas, alcunhas amorosas, alguns até falam à bebé para o seu mais que tudo. Enfim…
Concordo que até se fazem algumas figuras engraças nesta fase do amor, da descoberta, do desejo de partilha. Mas, continuo a acreditar que este tempo de namoro é muito importante para o relacionamento.
Ninguém casa para partilhar um empréstimo da casa, ou pagar em conjunto as contas da água ou da luz, nem pela alegria de ter um carro novo.
Casamos para sermos felizes. O que nos leva a casar é o amor e não as contas, os empréstimos, os bens materiais que vamos conquistando.
Porém, muitos casamentos esquecem-se da razão pela qual foram contraídos. As pessoas transforma-se de namorados em companheiros de contas para pagar, e é tão fácil cair nisso.
A cultura materialista em que vivemos, a agressividade comercial, a vaidade das marcas, o status social de poder mostrar algo de bom, sob a desculpa “eu preciso, ou estava precisar”, fazem de muitos relacionamentos conjugais um sufoco financeiro, que não deixa margem para uma diversão, umas férias, um viagem, um jantar especial. Aquelas coisas que guardamos da vida e das quais nos lembramos com carinho e saudade.
Os anos vão passando e os sacrifícios, as discussões arrefecem aquele relacionamento “tolo” que nos fazia felizes, que começou tão bem e que parecia não ter hipótese da acabar, mas acabou…
O fim, cada vez mais, é o divórcio, que se apresenta como a grande solução, o fim de todos os males e a esperança de uma nova vida.
Bem, é uma solução, não acredito porém, que seja tão boa como se esperava, pois constato que muitos daqueles que por aqui passam não adquirem a paz que desejavam, a alegria que pensavam e muitas vezes acabam pior do que estavam no seu casamento.
Quanto aos filhos quando os há, ouve-se dizer é o melhor para eles. Compreendo que pensem desta forma, mas fico a pensar que o melhor eles nunca vão ter. Pois, para as crianças o melhor dos melhores é viverem com ambos os pais e isso é-lhes arrancado.
Não concordo que todos os casamentos acabem assim, pelo contrário a experiencia que tenho é de cada vez mais felicidade no meu casamento, uma história mais forte, mais íntima, com maior cumplicidade e gratidão.
Creio que há princípios fundamentais que têm que ser vividos, para que o casamento seja feliz e aumente a alegria daquele primeiro namoro.
A declaração de Adão quando recebeu sua mulher é profunda e é a base do casamento: esta é agora osso dos meus ossos e carne da minha carne… portanto, deixará o varão pai e a sua mãe e serão ambos uma carne.
Uma só vida, dois seres que puseram de parte terem a sua vida individual, com todas as potencialidades que poderiam ter enquanto indivíduos, mas que optaram por viverem uma única vida. Pensada a dois, mas com mesmos objectivos, os mesmos sonhos, lutando as mesmas lutas, fazendo os mesmos sacrifícios, tendo a mesma importância, e obtendo as mesmas vitórias e conquistas.
O divertimento mútuo, o prazer em estar com o cônjuge, o encontrar divertimentos que ambos possam sentir gozo são fundamentais para que a cumplicidade cresça e a “chama” do amor não se extinga.
Lembro-me de uma aula em que tive a oportunidade de ouvir um psicólogo especializado e relacionamento conjugais dizer que apenas 5% dos casais conseguem obter uma verdadeira intimidade.
Não se referia á parte sexual, mas sim á capacidade de comunicar dentro do casamento ao ponto de se conseguir falar sobre os medos, as frustrações, os sonhos, e todos aqueles sentimento que por vezes ficam fechado numa espécie de cofre onde ninguém tem acesso. Quando se consegue essa capacidade de revelar as nossas fragilidades, consegue-se a verdadeira intimidade que tão poucos a encontram.
O casamento é como uma linda flor num vaso. Ela continuará a expressar a sua beleza e o seu bom perfume se for cuidada. Se não a regarem, ou tratarem depressa ficará feia e acabará por morrer.
Não devemos permitir que aquilo que começou tão bem possa acabar mal.
Como dizia alguém… façam-me um favor sejam felizes!
Rui Sabino