Horta, 10 Setembro 2010
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A Casa das Rugas
ou as marcas de África
“Assim fui escrevendo este livro, junto aos espelhos da memória e às fissuras de todo este percurso”
(pág. 14)
Eduardo Bettencourt Pinto escreve a poesia dos instantes fugazes e é um artista da palavra, ele que é poeta da claridade solar e da luz crepuscular: a sua escrita é eruptiva, de boa ressonância musical e prenhe de poeticidade e de sedutora prosódia. O seu livro, A Casa das Rugas (Campo das Letras, 2004), escrito em prosa poética, vem confirmar isso mesmo.
Toda a obra literária é a emanação de uma instância chamada autor. Este, partindo da experiência do real, reinventa, reelabora e/ou distorce esse mesmo real e o que escreve é, simultaneamente, o resultado da memória e da invenção.
Este é, pois, um livro de ficção que se enraíza na realidade. Escondendo-se atrás de um narrador autodiegético, é Eduardo Bettencourt Pinto que nos vem falar sobre as suas memórias africanas. África é a “terra vermelha” e é a “herança emocional” da sua infância angolana, que povoa a sua vida, a sua escrita e o seu imaginário. Porque África é a interpenetração do Homem e do Cosmo, a liberdade dos grandes espaços a perder de vista. África é a negritude de mãe Carminha, que simboliza e personifica África, terra-mãe, ou seja, é uma metáfora da própria África. Carminha é mulher em toda a sua plenitude e beleza, primordial e genesíaca, portadora da vida e do desejo, princípio e fim de todas as coisas. África é o fascínio de uma luz mágica e esplendorosa e é o mistério, o mito, o símbolo, o sonho, o segredo, o ritual, os ciclos da vida, a serenidade de uma cultura própria… África são as cores vivas e quentes da terra, e sãos as tintas tropicais e esbatidas da volúpia e da melancolia. África são os horizontes que se incendeiam, o azul infinito do céu, a transparência irreal das águas dos rios, o verde mágico da vegetação, o negro crepuscular dos embondeiros, o rumor das palmeiras, das mangueiras, dos coqueiros… E há os cafeeiros, os mamoeiros, o capim, a savana, o sisal… África é, enfim, o paraíso irremediavelmente perdido – o mítico e o psicológico.
A Casa das Rugas capta – e bem – este “espírito do lugar” e é atravessado por uma harmonia que é quebrada por acontecimentos que marcam a encruzilhada de um tempo histórico: a Guerra Colonial (1961-1974) e posterior processo de Descolonização.
Nascido num tempo (silenciado) de um “país em guerra” (Angola) e a viver o fim do império colonial, o narrador vem estudar Direito para Lisboa. Traz consigo as melhores memórias da mãe Carminha (quitandeira de frutas num mercado, personagem muito humana e psicologicamente muito rica), mas também muitos sentimentos e alguns ressentimentos. Por exemplo: não compreende as razões que levaram à expulsão de Angola de Denise Thompson, a missionária protestante americana. Mas tem consciência de que a Guerra fora um logro e a Descolonização uma autêntica tragédia. Afonso Domingos, encontrado morto alguns dias antes da independência de Angola, “vítima de uma bala transviada” (pág. 89), tipifica bem o logro da referida Descolonização.
Este é essencialmente um livro sobre a solidão e a orfandade do narrador, cujo pai, o branco Pedro Rico, ele desconhece e, por isso mesmo, parte em busca do seu paradeiro em Portugal. O que sabe do pai fora-lhe transmitido por mãe Carminha e por outras testemunhas. Impelido pelo sonho e personagem da errância, da dispersão e da perdição, Pedro Rico é duplamente vítima dos detentores do poder: sofre a repressão e as contradições do colonialismo português (em Luanda é perseguido pela Pide) e, naquela cidade, vive o medo, a violência, os atropelos, as inquietações, as perplexidades, as arbitrariedades, os conflitos político-partidários e os horrores dos dias da “loucura colectiva” (pág. 103). O destino ser-lhe-á fatal: acabará a vagabundear pelas ruas de Lisboa, vindo a morrer na miséria, à porta de um café…
Por conseguinte, este é um livro sobre orfandades. O narrador é órfão de pai e este anda à deriva porque se perdeu da sua história, das suas raízes e das suas referências mais profundas. Portugal fica órfão das suas colónias e estas, por sua vez, ficam entregues a si mesmas, a contas com a guerra civil…
A Casa das Rugas é um livro sobre as “rasteiras do destino” (pág. 137), isto é, sobre a condição humana. É um livro de emoções e sentimentos, de vibrações e olhares cruzados sobre África e Portugal. Aqui se fala de distâncias e esperas, de encontros e reencontros, de angústias e desesperos, de denúncias e renúncias. Aqui se encontra a vitalidade e a densidade de um discurso poético (“A cor da tua pele é a de uma flor quando anoitece”, lê-se na página 99).
Estamos na presença de uma obra envolvente e bela, deslumbrante e assombrosa que se lê com infinito prazer.
Victor Rui Dores