Horta, 10 Setembro 2010
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João Ângelo,
mestre de cantorias e lavrador de palavras
“Não tenho recheio que dê para fazer um livro” – disse João Ângelo a Liduino Borba quando este se dispunha a escrever uma obra lançando olhares aos 72 anos de vida vivida daquele poeta popular. A modéstia tem destas coisas e João Ângelo enganou-se redondamente. É que o “recheio” dele dá para várias teses de doutoramento. Para já, deu para as 320 páginas deste João Ângelo – o Mestre das Cantorias (BLU Edições, 2008), de Liduino Borba, livro que se apresenta com esmerada qualidade gráfica.
A obra, resultado das 15 noites em que Liduino Borba esteve à conversa com João Ângelo, inclui documentos, fotografias, recordações, escritos, ditos, cantorias e muitas “Velhas” do conhecido cantador popular.
Todos o sabem e ninguém ousa refutar: João Ângelo é, actualmente, o maior poeta popular dos Açores.
Homem sábio e sério, íntegro e bondoso, com uma capacidade de improviso e um sentido de humor sui generis, este terceirense é herdeiro de uma tradição poética e musical que remonta aos cantares de gesta medievais (cantigas de amigo e cantigas de escárnio e mal dizer) e é um testemunho vivo da agudeza de espírito, do humor sagaz e da capacidade de ironia e de sarcasmo.
Foi na escola (dura) da vida que João Ângelo aperfeiçoou as técnicas do seu improviso. O curriculum académico nada tem a ver com a capacidade de versejar. Estamos a falar de um dom inato. Por isso a grandeza desta arte está na sua espontânea e efémera força criativa.
As cantorias são autênticas disputas poéticas em que os improvisadores, cantando ao som estimulante da viola da terra e do violão, se degladiam usando como única arma ofensiva a redondilha maior e a sextilha (esta quase sempre utilizada para rematar a cantoria). Em arraiais e folias, no terreiro ou nos palcos, em lugares públicos ou privados, espalham os seus méritos repentistas, dando brilho aos festejos. As suas quadras caem facilmente no domínio popular, o que vem provar que a oralidade foi sempre uma característica fundamental da cultura açoriana.
Ouvir uma cantoria deve constituir, por isso mesmo, um acto de cultura. E isto porque os poetas populares, regra geral, improvisam quadras que são técnica e literariamente perfeitas. João Ângelo vai mais longe: é capaz de improvisar humor nos dois tercetos e na quadra de uma “Velha” – tarefa nada fácil e que não está ao alcance de todos.
De resto, “deitar cantigas” é sempre o pretexto para se comentar os mais diversos assuntos mundanos, divagar sobre episódios da vida quotidiana e encetar um saudável exercício de crítica social.
E o povo acorre a esses “desafios”, animados do mesmo espírito com que enche estádios de futebol. Todos querem saber qual dos opositores irá “ganhar”. Cantar ao desafio é, por assim dizer, uma “luta” que forçosamente terá que conduzir à vitória de um dos participantes e à derrota do outro. E quando, nesse combate, os adversários “se encostam um ao outro”, é mais do que certo que o público fique decepcionado.
Nanja o João Ângelo que, dotado de uma espantosa lucidez, nunca deixa os seus créditos por mãos alheias.
Em boa hora, Liduino Borba registou, por escrito, aquilo que é efectivamente do domínio do efémero. Trabalho de muito mérito. Quero, pois, saudar este historiador local que, prosseguindo caminhos abertos por outros estudiosos terceirenses na área da cultura popular (Gervásio Lima, Luís da Silva Ribeiro, João Ilhéu, J.H. Borges Martins, entre outros), nos dá um valiosíssimo contributo sobre o conhecimento de um poeta que vale por toda uma literatura. Porque em tempo de globalização e de massificação, é importante preservar a nossa memória colectiva de povo ilhéu.
João Ângelo – o Mestre das Cantorias não é apenas um livro que nos faz rir e pensar. É acima de tudo um tratado sobre a sabedoria popular.
Victor Rui Dores