CRÉDITOS – por Joao Paulo Macedo
20 de Fevereiro de 2012
Estamos em tempos de crises e palavras como dívidas e crédito entraram na linguagem do dia-a-dia com uma força aterradora. Mas é de outros créditos que queria falar. Os dos filmes. Já reparou que algumas televisões ainda passam uma lista (muitas vezes acelerada e ilegível – de nomes e funções no final dos filmes? Já reparou que muda de canal quando aparece a palavra FIM nos filmes a que assiste? E quantas vezes se levantou do cinema ainda às escuras?
É do trabalho desse conjunto de pessoas (e de funções) que nascem os filmes. Depois do trabalho do argumentista, do realizador, do produtor do director de fotografia, do director de casting, do director de arte (só para dar alguns exemplos) se ter iniciado começa o trabalho de actores e de uma lista mais ou menos longa de assistentes, técnicos, figurantes. Uma plêiade de outros actores anónimos responsáveis pelo resultado colectivo que é um filme. Deles raramente se fala, mas são essenciais para que o filme aconteça.
Por isto, quando se fala de financiamento do cinema se referem valores muito acima de outras artes. Os valores de produção de um filme (é a designação de todo o processo) atingem as dezenas de milhões em alguns países. Centenas de milhões quando falamos das mega-produções americanas. A montagem financeira de apenas um filme pode ser comparada à constituição de uma empresa, com um plano de negócios, criação de postos de trabalho, impactos na economia que muito raramente são tidos em conta por quem fala, desconhecendo o assunto na maior parte dos casos, do financiamento do Cinema em Portugal.
Se em países como os Estados Unidos ou a Índia a indústria cinematográfica e audiovisual é uma realidade, nos países europeus é ainda um sonho em construção. E em Portugal? Em Portugal toda a cadeia do cinema é um esforço diário, constante e muitas vezes brutal pela conquista de espaço de expressão, de meios para produzir e de um desafio permanente à imaginação para sobreviver e continuar a fazer filmes. É o artesanato na sua forma mais genuína, onde o improviso e a imaginação são ferramentas e instrumentos narrativos.
A Europa, tem múltiplas realidades. Países de grande produção com a França à cabeça, o Reino Unido, a Alemanha entre outros, onde já se vislumbra um sector do cinema e audiovisual com características industriais e comerciais. E os outros países de pequena produção, maioritariamente com um forte cunho autoral, artesanal mas surpreendentemente rico em diversidade, originalidade e com uma qualidade de resultados que surpreende na maior parte dos casos.
Desde a produção americana até cada um destes países uma coisa é comum à montagem financeira: a presença de dinheiro público. É conhecida a guerra de alguns estados norte-americanos (e até de cidades) para conseguirem localizar nos seus territórios a rodagem de filmes ou de séries de televisão. E mesmo lá, terra de liberalidades por vezes exageradas, seja em subsídios, descontos ou isenções fiscais também há dinheiros públicos envolvidos. Em França o CNC apoia em média a produção de 200 longas-metragens por ano. Alguma polémica? Não, de todo, nestes países a actividade cinematográfica é reconhecida em pé de igualdade com outra qualquer. Até com cláusulas de “excepção cultural” em alguns países. Os esquemas de financiamento são muito variados, mas todos contam com várias fontes: orçamentos de estado ou benefícios fiscais, contributos das televisões (públicas e privadas), taxas sobre a exibição cinematográfica.
E porquê este investimento público? Pelas evidentes vantagens no marketing territorial, na divulgação e na atracção para os seus territórios das mais variadas actividades, com significativos impactos económicos de maior ou menor relevância. O Cinema está no top ten das exportações americanas, por exemplo. Nos países europeus não consegue atingir aquele significado, mas é gerador de impactos económicos relevantes e tem uma importância cultural fundamental.
Crucial na afirmação de identidades culturais e na manutenção dessa mesma identidade.
Estamos a meio da discussão pública de um interessante projecto de Lei do Cinema em Portugal. No ano de 2011 estreou um número anormalmente elevado de filmes portugueses de grande qualidade, e agora o Festival de Berlim inclui dois filmes portugueses com três prémios no seu palmarés. RAFA, de João Salaviza e TABU, de Miguel Gomes. É o reconhecimento no maior festival de cinema do mundo. Enche de orgulho e oportunidade para políticos saudarem os criadores portugueses. Tudo muito bem, só que não basta.
Tudo o que representa o pouco cinema que se faz em Portugal – da produção à exibição não comercial – se encontra parado. No nosso país temos técnicos, temos produtores, actores e realizadores que não vivem exclusivamente do cinema na sua maioria. A paralisia ou atraso nos financiamentos significa o abandono da actividade, significa o fim do Cinema em Portugal.
Quando se fala de crise os sectores culturais são os primeiros a ser apontados como subsidiodependentes, os primeiros a ser cortados e deixados ao abandono, esquecendo o que significam em termos de geração de emprego e a fragilidade do próprio sector. E portanto, objecto do maior desinvestimento e do desinteresse de quem tem responsabilidades políticas.
No momento em que a discussão de uma boa proposta de Lei do Cinema mantém o Cinema paralisado, importa reflectir se depois desta crise e deste desinvestimento, ainda vamos ter quem faça filmes em Portugal.
João Paulo Macedo
19-2-2011
Decisões estúpidas têm a perna curta! – por João Paulo Macedo
16 de Dezembro de 2011
Gostei particularmente do texto do Baptista Bastos no Jornal de Negócios com o tema “A grande ofensiva contra os nossos valores” sobre as bizarrias que um conjunto de políticos falhados e de limitada inteligência vem impondo aos povos europeus. Nunca, nas últimas décadas da história europeia, a falta de inteligência e sensibilidade social estiveram tão presentes numa cimeira de governantes europeus.
Valeram os Primeiros-Ministros britânico e húngaro que, por razões diferentes, invocaram os direitos dos Povos e o respeito pela Democracia para não alinharem no pragmatismo bacoco daqueles que defendem quem uma “austeridade permanente e metas de execução orçamental impossíveis” são a solução para uma crise que ajudaram a agudizar. Resta-nos a esperança que a história nos ensina: decisões estúpidas têm a perna curta!
Dizia Baptista Bastos: “A mudança de paradigma social, económico, político e cultural é evidente. E, por arrasto, uma certa ideia de democracia, senão a própria democracia, está ameaçada. Já vivíamos numa democracia de superfície, na qual os princípios fundamentais do regime estavam a ser tripudiados. Com a extensão da ofensiva, o problema torna-se perturbador. Pouco a pouco, ou não tão lentamente quanto parece, a requalificação do ideal democrático e a recomposição das forças de Direita e de Extrema-Direita tornam-se manifestos.
Impostos, aumento do horário de trabalho, abolição de subsídios, congelamento de salários, despedimentos em massa, redução das pensões, acréscimo das taxas moderadoras nos hospitais – eis alguns aspectos da política obscena deste Executivo, que tende a agravar-se cada vez mais. Depois, há a presença da troika e a questão da perda da autoridade de Estado em favor de uns senhores que chegam, fazem, podem e mandam, à revelia das nossas características culturais, históricas e de identidade. Adicione-se ao panorama os vencimentos extraordinários que auferem.
A pátria tornou-se num regabofe. Enquanto as classes trabalhadoras são oneradas com o peso de uma vida que se lhes afigura sem direcção nem sentido, continua a haver ordenados e reformas insultuosos. Na Europa, uma senhora notoriamente ignara e um senhor sem qualidades apreciáveis dominam países e populações, sem que para isso tivessem sido mandatados pelo voto. A miséria alastra. E, apesar de alguns povos, o grego, por exemplo, demonstrar que não deseja ser escravo, a verdade é que parece uma situação inalterável. Periodicamente, uma que outra “cimeira” (há, agora, esta, recente) custa rios de dinheiro aos contribuintes – e tudo fica na mesma, senão pior. A senhora alemã e o senhor francês são fotografados e filmados aos beijinhos muito afectuosos, e, já se sabe!, as coisas vão piorar no dia seguinte.
A leitura exclusivamente económica do mundo, a inércia conivente das elites, o silêncio compulsivo ou deliberado da inteligência europeia está a conduzir-nos para a catástrofe. Sem que nada façamos para nos opor?”
João Paulo Macedo
Viagem CDIJ’s a Bruxelas – Recomeçar é um direito
14 de Novembro de 2011
Adivinhava-se uma viagem tranquila, na qual as baixas temperaturas de Bruxelas previam ser o único senão destes dois dias no coração da velha Europa.
Tudo começou num dia com uma interessante conjugação de números (11/11/11) e uma visita ao Parlamentarium. Um espaço onde todas as perguntas sobre a história da União Europeia são respondidas em 23 línguas. Este “Parlamento” virtual, inaugurado há menos de um mês, encerra em si um mundo de descobertas fantásticas aliado à mais alta tecnologia.
Aqui começa outra viagem… o ponto de viragem entre a viagem tranquila e algo que ainda não sabia bem o que era. Eram olhos brilhantes, gestos de descoberta, expressões de admiração… eram jovens descobrindo outro Mundo, que também era o seu, e a sua identidade. Eram jovens irradiando sede de algo, a sede da partilha. O reconhecimento do outro eu, do ser igual, do ser que sofre, do ser que ri, que também se sente só e incompreendido!!! Jovens com problemas iguais que descobriam juntos um mundo diferente.
Parlamento Europeu. Paredes meias com o grande hemiciclo. Muitos flashs. Todos querem registar este momento. Bandeiras – vinte e sete – servem de cenário.
As expressões sérias e diferenciadas do início da manhã abandonaram de vez os rostos destes jovens que se libertaram, não só dos casacos, mas do peso da solidão individual. Eram sem dúvida, já naquela altura, um grupo coeso; eram eles próprios em união, uma nação!
Aqui, nesta sala no Centro da Europa, esta deixou definitivamente de ser uma viagem tranquila e passou a ser uma viagem que me inquietará pela vida fora!
A cada palavra, a cada frase, a cada olhar, a cada entendimento de palavras que não precisavam de ser ditas, o testemunho na primeira pessoa de uma história igual à Europa, uma força que nasce para combater ameaças externas, da necessidade de reconstrução e resolução de problemas comuns.
Cumpriu-se ali, um dos conceitos da Europa proferidos por Schuman – “Não nos limitaremos a aproximar os estados, queremos unir os Homens”… “ A Europa far-se-á por realizações concretas desenvolvendo antes de mais uma solidariedade de facto”.
Hélder, Ana Rita, Paulo, Rui, outro Paulo, Frederico, Diogo, Andreia, Renato e Daniela representaram (de modo digníssimo, porque aqui é-me permitido opinar) todos os jovens que a dada altura da sua vida passaram por experiências similares. Abandono precoce da actividade escolar, desvios comportamentais e cedências a substâncias ilícitas, sentimento de incompreensão familiar e social; são diversos os caminhos que conduziram estes jovens aos Centros de Desenvolvimento e Inclusão Juvenil (CDIJ’s) que à margem dos olhares recriminatórios da sociedade encontram um rumo que se pretende sólido e é construído diariamente. Todos eles abraçaram com êxito, cada um a seu ritmo, o caminho do voluntariado, contribuindo assim para uma rua, uma freguesia, uma cidade, uma ilha, uma região, um país, uma Europa melhores.
Esta realidade colocada a nu na primeira pessoa, exigiu a todos uma quantidade razoável de coragem… até os silêncios tinham voz. Gritavam bem alto, até. E para nós, os que não conheciam por dentro esta realidade, ruiu um muro… nasceu um mundo!
Em três palavras: Impróprio para cardíacos!
Em duas palavras: Sem palavras
Numa palavra – Obrigado!
Aos monitores e demais responsáveis das várias associações que participaram na viagem, deixo uma palavra de apreço e força, até talvez um pedido de desculpas por não estar a noticiar esta viagem do modo convencional: No âmbito do Ano Europeu do Voluntariado, e a convite da Eurodeputada Maria do Céu patrão Neves, quinze Centros de Desenvolvimento e Inclusão Juvenil visitaram o Parlamento Europeu e o Parlamentarium, tendo tido oportunidade de apresentar as suas instituições e os projectos de voluntariado desenvolvidos.
”Fico satisfeita quando os princípios e os objectivos que estabeleci para as visitas ao Parlamento Europeu são alcançados, dos quais destaco a aproximação aos órgãos de decisão Europeus, como foi o caso da visita guiada e a ida ao Parlamentarium, bem como a troca de ideias e o debate tão frutífero que decorreram durante a visita. É sem dúvida uma mais-valia para todos nós”, referiu Patrão Neves sobre esta visita.
Mas ficaria muito por dizer se me obrigasse ao registo de uma noticia. Tanto quanto a minha alma tem a capacidade de sentir e de recordar.
Aos 15 projectos representados nesta viagem, um bem-haja:
Associação de Pais e Amigos Deficientes da ilha di Faial, Mosaico, Novos Rumos, CIEV – Instituto de Apoio à Criança, Cáritas Ilha Terceira, Escolha Certa – Casa Bernardo Estrela, Trevo, Pedra Segura, Porto Seguro, Assoc. Escuteiros de Portugal, Assoc.Guias de Portugal, Quercus, Amigos dos Açores, Junta dos Amigos dos Açores – CNE, Projecto Renascer, Rotarac Faial.
Sissa Madruga
12 de Setembro de 2011
Crónica nº 7 – Os novos povos dispensáveis
Há uns bons anos atrás numa conferência sobre o século XX, ouvi da boca do Professor Adriano Moreira uma frase que ficou gravada na memória. Referia-se, na altura, à tragédia vivida pelo Povo Timorense na invasão indonésia e nas duas décadas seguintes. Perguntava-se ele, porque é que perante aquela tragédia – como outras que tiveram lugar no mundo, a Comunidade Internacional se tinha pautado por uma actuação de quase absoluta indiferença. E a resposta, tão acutilante como verdadeira foi: “Porque simplesmente, para essa Comunidade Internacional, estávamos perante povos dispensáveis”. Lembro-me que continuou a sua linha de pensamento denunciando o cinismo presente em toda a “grande política” e os esforços que Portugal como pequeno país fez a partir de determinado momento.
Confesso que, olhando para o seu percurso político, fiquei surpreendido. Foi também naquele momento que o orador passou a fazer parte daquele conjunto de personalidades das quais discordo profundamente do seu pensamento e prática política, mas pelas quais nutro atenção e respeito intelectual.
Hoje, Timor Leste é um país independente que esperamos siga no caminho da reconstrução de uma Nação. Culminar da luta de um Povo que sofreu na pele o facto de ter sido considerado “dispensável” pela Comunidade Internacional.
Os jornais trazem-nos hoje, passadas décadas sobre estes factos, notícias de Novos Povos Dispensáveis, agora a propósito de uma absurda “crise económica”, que pega na realidade e se recria a toda a hora!
Hoje, o “grande povo dispensável” é a Grécia, um país nas mãos dos mesmos que originaram a crise: a banca e o sistema financeiro. Os juros das obrigações gregas a um ano ultrapassam os 100%. Ao mesmo tempo o governo grego avisa que não terá dinheiro para pagar salários e pensões a partir do mês de Outubro.
A dita crise que se auto-regenera e auto-alimenta nos dramas quotidianos de um número cada vez maior de cidadãos, tem autores e criadores que importa não esquecer:
- A “banca” (americana onde tudo teve início e europeia onde se propagou a gananciosa apetência pelo lucro fácil),
- O “Sistema Financeiro Internacional” (onde tudo se amplificou)
- Os “governos e instituições internacionais” como a União Europeia que, chefiados por figurinhas de terceira categoria continuam incapazes de dar as respostas correctas aos problemas que se tem levantado nos últimos anos.
Independentemente das responsabilidades dos políticos gregos (ou irlandeses, portugueses, espanhóis ou italianos…), quem está a pagar tudo isto é o cidadão comum.
O cidadão que vive do seu trabalho e do seu esforço diário e se vê empobrecer de dia para dia com medidas que cortam, de forma cada vez mais profunda, os orçamentos familiares.
As figuras de diminutas capacidades que chefiam os países e organizações internacionais (como a União Europeia) já decidiram quais os povos que hoje são “dispensáveis”.
E como vai ser quando a “coisa” chegar aos “indispensáveis”?
Por João Paulo Macedo
12-09-2011
5 de Julho de 2011
“A Cultura é Revolucionária!”
Uma das vantagens na partilha nas redes sociais é que nos deparamos, por vezes, com surpresas agradáveis. Uma amiga deixou há dias um texto que veio de encontro a um conjunto de preocupações e reflexões que vinha fazendo para a crónica deste mês. Roubo, da citação que ela fazia de uma intervenção de Sophia de Mello Breyner, na Assembleia Constituinte.
Os anos que passaram, de 1975 até agora, não retiraram actualidade ou importância a frases como as que então proferiu na Assembleia da República. De vez em quando, vultos da Cultura e da Cidadania tomam em suas mãos a consciência, e soltam o grito de um alerta.
“Num país e num mundo onde há doentes sem cama e doentes sem tratamento e sem hospital a questão da liberdade artística e intelectual pode parecer uma questão secundária.
Mas sabemos que a cultura influi radicalmente na estrutura social e na estrutura política. E por isso a questão da liberdade da cultura é uma questão primordial. E sabemos que toda a cultura real trabalha para a libertação do homem e que por isso toda a “cultura real” é, na sua raiz, revolucionária.”
Nos tempos que correm, de troikas, ratings, défices e dívidas soberanas a Cultura foi abatida a Secretaria de Estado, os artistas e agentes culturais a “subsidio dependentes”. Apelida-se a Cultura de supérflua como se de um luxo se tratasse e corta-se cegamente sem cuidar dos danos infligidos num sector tão importante na vida de uma nação.
Claro que, nos dias que correm, seja por conveniência de serviço (da dívida) seja pela incapacidade democrática de muitos governantes e autarcas de lidar com a liberdade da crítica e com a liberdade de expressão (sim, tantos anos depois de 74!) ainda existe por aí uma certa “inteligência política” que defende que o povo se quer acrítico e silencioso.
No passado impedia-se a acção cultural pela repressão e pela censura, hoje, sinais dos tempos, pela asfixia financeira e pela demagogia do discurso órfão de cultura, de inteligência e de sensibilidade democrática.
Como sempre, seguimos numa luta de resistência e de defesa de princípios e valores culturais cidadãos e democráticos. Volto ao discurso de Sophia: “Pois a cultura não é um luxo de privilegiados, mas uma necessidade fundamental de todos os homens e de todas as comunidades.
A cultura não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar – para que o homem possa construir e construir-se em consciência, em verdade e liberdade e em justiça. E, se o homem é capaz de criar a revolução, é exactamente porque é capaz de criar a cultura.”
O Estado nunca quis e, acima de tudo, nunca soube exercer a actividade cultural. Demitiu-se democraticamente de o fazer naquela Constituição confiando aos agentes culturais esse papel. Hoje há, como antes de 74 quem não queira que este exercício democrático e cidadão continue a ser desempenhado. A tentação de uma “cultura de regime” ainda continua a espreitar por alguns gabinetes. E esse retrocesso – cultural, social e democrático – é provavelmente bem pior do que a infeliz despromoção do Ministério da Cultura a uma mera Secretaria de Estado.
João Macedo
6-7-2011
ECOS DO CONTINENTE DO JOÃO SEM REGRAS
26 de Junho de 2011
Um ano após a morte Saramago, a minha singela homenagem por alguns momentos tão singulares com o prémio Nobel.
O meu Lagarto Verde
Tive o tremendo prazer de conhecer pessoalmente, de um modo mais aprofundado José Saramago: Como sou crítico de cinema, devido a este ter acedido à adaptação das suas obras para cinema, primeiro em Jangada de Pedra, cujo filme luso-espanhol, realizado por George Sluizer, (do qual não fiquei particular fã ou morri de amores). E até mesmo o livro deixou-me algumas (para não dizer várias), reticências quanto à ideologia subsequente. E depois de Ensaio Sobre a Cegueira, de Fernando Meyrelles, onde tive a oportunidade de voltar a colocar algumas questões ainda mais pertinentes, primeiro numa conferência de imprensa, e mais tarde numa entrevista destinada a apenas um grupo bem restrito de jornalistas, onde me incluía nessa elite. Particularmente neste último evento, a conversa decorreu numa sala de dimensões menores e foi mais intimista e pudemos falar sobre os mais diversos temas e assuntos, desde a adaptação dos seus livros Jangada de Pedra ou Ensaio sobre a Cegueira a filme ou à sua visão politizada de Portugal e dos portugueses e até a assuntos mundanos. Não havia temas tabu, nem limites para as questões que desejássemos colocar. O que se percebeu, e ainda bem que o grupo era homogéneo e bem preparado, era que foi mais uma conversa do que propriamente uma entrevista, mesmo e apesar do nosso papel não ser propriamente expressar as nossas opiniões ou ter juízos, aqui não fazia sentido se não o fizéssemos. E o mesmo sentiu-se até exultante por termos adoptado essa postura de forma natural. Dito desta forma parece não ser real, que explanámos as nossas opiniões e maneiras de pensar e explicarmos temas ao nosso prémio Nobel. Isto não quer dizer que desconhecesse os assuntos, pois era um homem com uma sapiência tremenda, mas a forma como normalmente lhe era revelada (os lambe-botas desta vida), deixava-o na dúvida, pois não tinha obtido a lógica que necessitava para a compreensão total. E depois demonstrou-se feliz por perceber que afinal estava certo e agradecido por lhe explicarmos com a mecânica verbal que este necessitava. Mas, como deve ter percebido; o que vou revelar aqui não é o teor das entrevistas, que seria demasiado fastidioso, mas apenas o que me ficou gravado na memória e na alma desta figura tão singular.
Além da sua douta e descontraída sabedoria e retórica, gostei principalmente a franca maneira de se expressar, pouco se importando se era ou não politicamente correcto na forma como o fazia. Às vezes mesmo desbocada. Contudo, era isso que realmente pensava e de este não ter que procurar subterfúgios verbais foi o que mais me seduziu nele. Depois, e como a conversa (pois já transcendia há muito a entrevista) estava agradável, com movimento, fluidez e fluência, parecia que as ideias enchiam a sala e eram quase palpáveis. Notava-se que o escritor estava mesmo a gostar do diálogo que mantínhamos. O próprio verbalizou isso mesmo e até chegou a mandar calar-se o encarregado pela gestão do tempo para as entrevistas (Que achou por bem que o melhor era ir buscar umas garrafas de águas para refrescar tantos argumentos). Este grupo só terminou quando ele achou que era tempo, mas só depois de gentilmente perguntar se tínhamos mais alguma questão. Tendo inclusive revelado qual o blog que mantinha e nos gentilmente nos convidou a mandar-lhe missivas e ideias. Para quem gosta de uma boa conversa, como eu gosto, esta, apesar do léxico usado não parecer muito intrincado e de compreensão simples, o que está inerente à sintaxe da mesma é que era simplesmente extraordinário e genial. É que as suas frases simples encerravam sempre uma vasta ideia. O que dizia e a compreensão do que queria dizer na sua plenitude, era um abismo de entendimentos, subentendidos, de segundos e terceiros sentidos… implícitos e explícitos. Não nos esquecemos, tudo isto vindo de uma mente ágil de um homem octagenário. Pode-se não concordar com a sua ideologia. Pode-se não concordar com a sua escrita, onde a falta de pontuação torna a leitura mais difícil, com necessárias releituras de frases ou mesmo parágrafos inteiros. Mas não podemos tirar algo que tinha em abundância; talento. E quando começamos a perceber qual a intensidade do enredo tem através da respiração acertada que se faz no acto de leitura, faz-nos parecer que sentimos que Saramago o fazia precisamente nesses mesmos momentos e nos lê o que escreveu. Passava não só a ser uma experiência intelectual, mas até física.. Recordo-me bem da sua prestabilidade e estranhamente amável com os jornalistas, embora fosse intolerante para os que colocavam perguntas estranhas ou mesmo estúpidas. Era um sentimento de como se fossemos colegas da mesma profissão, sem a longa separação de um Nobel pelo meio. Muitos se questionaram e criticaram a sua (suposta) “repatriação” espanhola e por ter decidido viver numa ilha de Nuestros Hermanos, como se o lugar onde vivia o fizesse menos luso ou menos atento à realidade do nosso país. Não se diz que o corpo pode estar preso a um local, mas a mente é livre? Pobres diabos. Mas, mesmo assim, se havia pessoa a quem se prestava atenção sobre o que escrevia ou falava a amiúde, independentemente se concordássemos com os seus argumentos, era José Saramago. Ele falava e nós escutávamos atentamente. Por isso, um dia vou sentar-me no banco sob a sombra da azinheira, transplantada da sua terra Natal para Lisboa, (e onde foram depositadas as cinzas do escritor, junto à Casa dos Bicos (perto da futura Fundação Saramago), de onde Saramago viu sair um Lagarto Verde quando ainda era muito criança. Um facto que até poderemos considerar banal, mas cuja imagem o marcou e nunca esqueceu e, mais importante, serviu-lhe de mote como inspiração. Irei lá para ler uma das suas obras, apesar de serem muito poucas as que me faltam, e de deixar o meu espírito libertar-se e encontrar alguma similaridade no seu engenho e arte. Mas acima de tudo, e é este o meu primeiro propósito, de uma forma singela prestar-lhe homenagem. Ele foi o meu lagarto verde que um dia vi sair da árvore, mas eu tive mais sorte, vi-o sair mais que uma vez.
Saramago sentimos muitas saudades tuas
(I)
Eduardo Sobral
TRISTE VISITA AO PARQUE DO CAPELO
26 de Janeiro de 2011
Já há bastante tempo que não visitava o Parque do Capelo, fi-lo no passado dia dezasseis de Janeiro, e fiquei estupefacto com as mudanças que por ali estão a ser operadas.
Na verdade fui confrontado com o maior atentado, que poderia ter sido feito àquela infra-estrutura de laser, a qual era motivo de orgulho de todos os Faialenses e de funcionários dos Serviços Florestais. Eu próprio utilizava aquele espaço como sendo um dos pontos de atracção turística, e quando mostrava a ilha a qualquer amigo vindo do exterior, aquele parque era uma paragem obrigatória, deixando-os a todos maravilhados.
Mas voltando ao motivo que me levou a escrever estas linhas, trata-se tão somente o atentado cometido contra aquele parque, pois não consigo entender, como algum responsável por aquele espaço aprove aquela intervenção, que considero atingir as raias da criminalidade, sim porque “aquilo” que está a ser construído, os materiais utilizados, a arquitectura, são a antítese do espírito que levou à construção deste parque, e que foi o resultado de muita carolice dos funcionários e responsáveis dos Serviços Florestais.
Não venham agora os responsáveis, defender a velha máxima, de que, quando se realiza uma ampliação ou remodelação de um edifício antigo, ou fazemo-lo com uma traça exactamente igual à existente, ou se rompe completamente com esta. Isto até pode ser verdade, e resultar em edifícios como a Casa Grande, mas aplica-lo ao Parque do Capelo, com o seu ambiente muito próprio, a sua arquitectura, a sua integração ambiental, afigura-se na minha modesta opinião numa atitude criminosa.
Podem os responsáveis vir a público dizer que, as instalações sanitárias estavam desadequadas, e que não possuíam instalações para deficientes, plenamente de acordo, mas será que tornar as instalações modernas e condignas, não poderia ter sido conseguido através da construção de uma casa com traça tradicional, executada em pedra, à semelhança do excelente trabalho que foi realizado no pós-sismo, com a construção da moradia tradicional, erguida a poucos metros do actual mamarracho.
Com certeza que a grande maioria dos Faialenses ficaria bem mais agradado com uma solução desse tipo.
Para construírem aquele Mausoléu, deveriam no mínimo ter algum cuidado na escolha de materiais, nomeadamente, utilizar ao invés das cúpulas um vidro acrílico branco, réplicas da pirâmide do Louvre, pelo menos seria mais chique. Ao invés do pavê vermelho, que deveria ser azul, pois estava mais de acordo com o nome da ilha.
Enfim, para descrever todas as incoerências, seria um rol interminável, a titulo de exemplo e apesar de ter sido uma passagem apenas pelo exterior, e para alem das já referidas, gostaria de salientar as placas de sinalética, as madeiras exóticas e o betão à vista. Bem para disfarçar fizeram alguns revestimentos em pedra serrada.
Desconheço quem sejam os responsáveis por tão vil atentado, mas quero aqui repartir as culpas entre o arquitecto projectista, que não teve qualquer sensibilidade, para perceber qual o enquadramento da mesma, e os responsáveis por tomarem a decisão de construção.
Pelo menos estes últimos, tinham a obrigação de acautelar melhor o interesse público, e o dinheiro dos contribuintes, evitando a tomada de decisões deste tipo, colocando à discussão pública, ou pelo menos publicando previamente estes projectos para que os Faialenses, como principais interessados, se possam pronunciar, evitando a execução de obras que ao invés de serem motivo de orgulho e satisfação, sejam motivo de discórdia e tristeza.
Mais uma vez venho manifestar o meu mais veemente protesto pela forma como os governantes desta ilha, e os seus representantes, vão desbaratando o nosso dinheiro, apesar da crise que vamos atravessando.
Para terminar, peço a todos os faialenses que façam uma visita ao Parque do Capelo, e caso concordem com a minha opinião, tornem público os seus protestos, para que estes senhores saibam que a população repudia veementemente a sua actuação.
Américo Borralho
Correcção da Obra do Jardim da Avenida
11 de Janeiro de 2011
Foi sem qualquer surpresa que li num jornal local, um misto de comunicado e de propaganda, já que o conteúdo da noticia, mais parece uma operação de charme, no qual se conclui que o Conselho de Administração da UrbHorta afinal é sensível.
1 – Conhecendo a composição do Conselho de Administração, não seria de esperar que tomassem outra posição, relativamente à obra que está em curso, e que levassem em consideração o parecer da APADIF, deliberando proceder às alterações sugeridas.
Só não entendo, porque não o fizeram mais rapidamente, já que gastar o dinheiro dos outros é fácil e barato para os seus bolsos.
Será que estes senhores são imunes ou inimputáveis, já que deliberam assim tão facilmente, sem que alguém, nomeadamente quem os nomeou os responsabilize.
2 – Na última crónica onde abordava o assunto, sugeria que os membros do Conselho de Administração se demitissem.
Como agora vêm afirmar que são sensíveis às sugestões dos munícipes, espero que também acatem a minha sugestão, e que se demitam.
Assim, evitavam continuar a esbanjar o nosso dinheiro, demonstrando a sua mais que evidente falta de competência, para assumirem tais responsabilidades.
3 – Se vão proceder aos arranjos necessários, para respeitar a filosofia do projecto base, conforme consta do curto excerto publicado, é porque o mesmo foi alterado, modificação essa, que tudo leva a crer, seja da lavra do Conselho de Administração, ou de algum dos seus membros, pelo que a ser assim, deveriam ou deveria assumi-lo publicamente.
4 – Faço votos para que mais nenhuma associação faça uma visita profissional à obra, porque senão em Dezembro de 2011, ainda continuaremos a assistir a deliberações do Conselho de Administração, autorizando mais uma das muitas alterações sugeridas, ou por incumprimento de mais uma qualquer norma legal. A única entidade que na certa emitiria um parecer favorável, seria a Câmara de Comércio da Horta, pois o mais certo seria trocar o parecer original, ou então este extraviar-se. Nesse caso, seria mais difícil de explicar o extravio do mesmo, naquela distância de cerca de cinco centenas de metros, que distam entre a Câmara do Comércio, os Correios de Portugal e a UrbHorta.
5 – Já que estes senhores não têm o bom senso de se demitirem , e como o comum dos cidadãos, não os podem obrigar fazer, já que eles não são sujeitos a sufrágio popular, será que quem os nomeou, é conivente, ou está de acordo com a sua gestão, já que quem cala consente. Aliás, esta situação também não me espanta, pois o modelo de gestão utilizado na UrbHorta é em tudo semelhante ao utilizado na Câmara Municipal, mais parecendo decalcados.
Américo Borralho
30 de Dezembro de 2010
Foi com alguma satisfação que li no Incentivo do passado dia 27 de Dezembro, um Comunicado da Comissão Politica do PSD, do Faial, lamentando as obras já realizadas e em curso na Avenida.
Este comunicado tem um senão, peca por extemporâneo, pois foi preciso a realização de várias obras para que o principal partido da oposição, venha a público tomar posição. Se estivessem atentos teriam detectado que eu próprio já tinha abordado o assunto em duas crónicas publicadas no Faial Online em 11 Março de 2009, sob os títulos “Ideia Brilhante” e “Cidade Museu Mundial”.
Lamento que tais escritos não tenham tido qualquer resultado pratico, talvez porque a qualidade do texto não tenha sido a ideal, ou porque os lideres da oposição e os responsáveis políticos da edilidade, tenham andado completamente distraídos, não tendo em conta as opiniões que vão sendo manifestadas publicamente, pelos seus munícipes.
Para que não percam tempo a procurar as referidas crónicas, quero relembrar que as mesmas se referem às várias intervenções desgarradas que têm sido levadas a cabo pela edilidade, sem qualquer orientação ou plano, pré-definidos. Mais sugeria a elaboração de um plano de requalificação, aprovado com um “pacto de regime” entre as várias forças politicas, sendo todas as intervenções pontuais a realizar, escrupulosamente enquadradas no referido plano.
Infelizmente estas sugestões caíram em cesto roto, e passaram ao lado dos responsáveis políticos, que continuam a realizar intervenções desgarradas.
Bom, mas o que mais me indignou enquanto faialense, foi a intervenção do sr. Presidente da UrbHorta, na entrevista publicada no Incentivo de 14 de Dezembro, onde ficou bem claro a sua total falta de respeito pela boa gestão dos dinheiros públicos, seja por falta de formação, seja por falta de “jeito”.
Enquanto cidadão, não posso alterar esta situação, já que estes pretensos gestores, não são sufragados pelo voto, sendo na sua maioria das vezes, nomeados pela sua cor politica, pelos serviços prestados ao partido, e nunca pelas suas aptidões técnicas capacidades, qualidades e desempenhos.
Mas voltando ao teor das afirmações do sr. Presidente da UrbHorta, não posso deixar de salientar aquela que mais contribuiu para a minha revolta.
“O que se pensou foi que enquanto não há intervenção profunda mais vale fazer pequenas intervenções que melhorem a qualidade do que deixa-las assim eternamente”.
Pasme-se, a Câmara da Horta é governada há mais de quinze anos pelo Partido Socialista, sem que os seus signatários tenham realizado qualquer esforço para a elaboração de um projecto de recuperação global da Avenida. Ao invés disso, como diz o ditado “com papas e bolos se enganam os tolos”, vão fazendo pequenas intervenções, como aquela, que está em curso, sem que para tal tenham qualquer ideia de conjunto, ou linha de rumo.
Assim a razão da minha indignação resulta do facto de o responsável máximo da UrbHorta, vir admitir publicamente, que vão gastando o nosso dinheiro em pequenas intervenções desgarradas, para quando existir um Plano de Requalificação da Avenida, todos os gastos com estas pequenas intervenções, serão deitados para o lixo, já que estas intervenções serão totalmente demolidas, pois dificilmente se integrarão no novo Plano, a menos que este seja uma manta de retalhos.
Esta minha indignação ainda se agravou, ao ler as notícias de hoje, o sr Presidente da APADIF, vem a publico demonstrar que a incompetência destes Senhores é ainda maior, e que o nosso dinheiro está mesmo entregue aos bichos.
Por isso, enquanto Faialense contribuinte exijo que estes “gestores” destas entidades, pensem bem antes de tomarem estas decisões, ou então coíbam-se de proferir este tipo de afirmações públicas.
P.S. - Melhor fariam se tivessem o bom senso de se demitirem.
Américo Borralho
21 de Novembro de 2010
Nota
Caros leitores. Li cem livros em cem semanas e sobre eles escrevi cem recensões neste espaço. Agradeço o acolhimento da simpática Sisandra e o feed back que fui recebendo de alguns leitores. Mas chega, não quero maçar ninguém. Com amizade, despeço-me de todos com esta recensão nº 100. Mas isto não é um adeus – é um até breve.
O Peso do Hífen – Ensaios sobre a experiência luso-americana
de Onésimo Teotónio Almeida
Estudioso acérrimo da história cultural, do imaginário e de tradição literária dos Açores, observador atento do real luso-americano, Onésimo Teotónio Almeida continua a publicar livros com espantosa regularidade, numa linha de contínua e continuada coerência com a sua obra primordial de onde irradia todo o seu imaginário: Da Vida Quotidiana na lUSAlândia (1975).
Deste autor acabo de ler, com natural expectativa, O Peso do Hífen, Ensaios sobre a experiência luso-americana (Imprensa de Ciências Sociais, 2010), que reúne uma série de textos, escritos entre 1983 e 2010, concebidos para ensaios, palestras e outras comunicações, e que agora surgem em versões alargadas, aprofundadas, expandidas, actualizadas e/ou reescritas.
Falar de Onésimo é falar de um pensamento analítico e da visceralidade de uma escrita rigorosa. E este autor pensa claro e escreve claro. Por exemplo, sobre as impressões da sua vida interior e exterior. Os seus escritos, com marcas de oralidade, propõem reflexões que são emoções e emoções que são reflexões. Eis um escritor de pormenores (patente nas inúmeras “Notas ao texto”), bem apetrechado em termos teóricos, com capacidade de informar, esclarecer, decifrar e avaliar, e que incorpora nos seus discursos os métodos e as preocupações dos mais diversos ramos da ensaística e da investigação.
Sabendo-se que, à boa maneira empirista, as ideias chegam a nós pela experiência, temos que Onésimo sabe do que fala e fala sobre o que sabe e conhece, ele que vive e escreve em permanente desassossego criativo. Da sua vivência de quatro décadas em terras americanas, da assimilação de duas culturas diferentes, ele faz, com grande lucidez, uma série de reflexões filosóficas, observações sociológicas, apreciações literárias e retira conclusões, reinterpretando e reinventando, através de uma escrita errática, os temas que lhe são particularmente caros: a experiência da diáspora, a identidade, assimilação e aculturação dos portugueses inseridos nas comunidades norte-americanas; a “cultura hifenada”; as evocações dos incontornáveis Jorge de Sena e José Rodrigues Miguéis; a revisitação dos tempos pós revolucionários de Abril; as (íntimas) mundividências; os olhares (críticos e minuciosos) sobre a história e literatura luso-americanas, etc.
Se o pensamento de Onésimo é profundamente português, a sua metodologia de análise é estruturalmente anglo-saxónica. Quero com isto dizer que este autor não é dos que usam palavras a mais para esconder ideias a menos. Bem pelo contrário: sem flores na lapela nem brincos semióticos, ele dá forma e expressão ao que sente e pensa, sem aparatos académicos, esquivando-se a hermenêuticas e a considerações excessivamente teóricas, escrevendo num português vivo e escorreito, em estilo limpo, de grande elegância lexical, e com uma muito bem conseguida articulação de ideias.
Victor Rui Dores
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O Jornal FaiaOnline, agradece ao Prof. Victor Rui Dores o empenho e dedicação que durante as ultimas 100 semanas nos dedicou.
Está connosco desde a nossa primeira edição, há precisamente 2 anos, o que muito nos honrou e prestigiou.
Como o próprio referiu na sua nota, não é um Adeus, é sim um Até Breve!
O nosso muito obrigado.
15 de Novembro de 2010
Finalmente Árvore,
de Sara Porto
Mergulhando no universo prodigioso da fábula, a faialense Sara Porto escreveu Finalmente Árvore (APADIF, 2010), uma história envolvente e bela que desperta em nós uma imediata adesão afectiva.
Com claros propósitos ecológicos e óbvias preocupações ambientais, este é um livro que sendo para crianças se destina também aos adultos, ou à criança que existe dentro de cada adulto. Sempre assim foi desde as fábulas de Esopo (que viveu seis séculos antes de Cristo), passando por Fedro, La Fontaine, Daniel Deföe, Emílio Salgari, Júlio Verne, Robert Louis Stevenson, Lewis Carroll, entre muitos outros, até aos nossos dias.
A história que lemos, dando conta das aventuras, atribulações e peripécias de uma sementinha que cresce e se torna em frondosa árvore, revela o lado humano dos sentimentos, dos afectos, das emoções e dos estados de alma. De referir que, a pensar nos deficientes visuais, existem 22 páginas do livro em Braille.
Revelando sensibilidade e imaginação criadora, Sara Porto escreveu esta narrativa infantil mas não infantilizada, e isto porque esta é uma história que vai para além do universo respeitante às crianças.
As ilustrações do livro, levadas a cabo por pessoas com deficiência do Projecto Moviment´arte, da Associação de Pais e Amigos dos Deficientes da Ilha do Faial (APADIF), dão sentido, estética e autenticidade à história. Há, nestes desenhos, uma beleza plástica e um fascínio encantatório que é de saudar.
Por conseguinte, este é um livro que olha e nos olha, que fala e nos fala. Deixemo-nos enternecer com esta fábula que se lê com infinito prazer. Porque bem carecidos e carenciados de sonho andamos todos nós.
Victor Rui Dores
9 de Novembro de 2010
Canção da vida vivida
de Armando Côrtes-Rodrigues
Faz todo o sentido escrever poesia numa altura em que, manifestamente, a poesia não está na moda. E não está na moda porque a linguagem poética tem dificuldade em competir com outras linguagens: a teórica, a social, a política e, sobretudo, a linguagem dos órgãos de comunicação social.
Por outro lado, os ventos não correm de feição para a coisa poética. Vivemos um tempo marcado por um feroz neo-liberalismo, por um capitalismo desenfreado, por ausência de referências e de valores. Este é, acima de tudo, um tempo marcado pelas novas tecnologias da informação e da comunicação que, com todo seu rol de coisas positivas, também traz aspectos nefastos. Por exemplo: hoje falamos muito, mas comunicamos pouco; vivemos essencialmente da imagem – (os jovens passam mais tempo em frente do écran do computador do que em vez do écran da televisão). Está aí a geração do videoclip e tudo o que não seja uma imagem por segundo é, para os nossos jovens, uma perfeita chatice… Jovens que, segundo Umberto Ecco, utilizam o telemóvel como um apêndice natural das trompas de Eustáquio…
Moral da história: com tanta comunicação, com tanta informação e com tanta imagem, os nossos jovens são hoje cada vez mais comunicativos, mas menos cultos; cada vez mais informados, mas menos eruditos. Pior do que isso: hoje confunde-se cultura com animação e diversão…
A poesia não está na moda. É certo que os livros de poesia não fazem aumentar as receitas públicas nem equilibram as contas externas. E não é menos certo que o poema não tem ainda a cotação do dólar ou do Euro. E, no entanto, nunca como agora, estivemos tão carentes e carenciados de sonho e de utopia. Nunca como agora precisamos tanto de poetas, de filósofos e de gente das Letras. (Afinal “o binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo”, como escreveu Fernando Pessoa).
Vem tudo isto a propósito do livro Canção da vida vivida (Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1991), de Armando Côrtes-Rodrigues (1891-1971), com selecção e apresentação do professor brasileiro Celestino Sachet.
Estamos na presença de uma colectânea de poemas inéditos daquele autor micaelense, poemas esses que se encontravam no espólio sob guarda da família e dispersos por jornais e revistas.
Apesar do evidente circunstancialismo dos poemas, e não obstante tratar-se de um livro desigual, quer na forma, quer no conteúdo, Canção da vida vivida é, mesmo assim, uma obra importante para a compreensão da poética de Armando Côrtes-Rodrigues que, recorde-se, foi amigo pessoal de Fernando Pessoa na fase futurista da revista “Orpheu”, e que viria a trocar Lisboa por São Miguel, onde durante longos anos, se dedicou a um certo franciscanismo literário, cantando, em verso e em prosa, louvores à paisagem, à vida e às gentes daquela ilha, de que são exemplos significativos o livro de poesia Em louvor da humildade (1924) e a bem conhecida peça de teatro Quando o mar galgou a terra (1940).
Victor Rui Dores
1 de Novembro de 2010
Um testemunho de vida em
Histórias de Aventuras e Contrabandos,
de Nuno Álvares de Mendonça
Amante do mar e da liberdade, Nuno Álvares de Mendonça largou de novo amarras na aventura da escrita.
Após ter dado à estampa a 3ª edição desse livro incontornável que dá pelo título de Memórias de um Baleeiro, este autor jorgense (filho de mãe picarota e pai graciosense) volta agora, com estas Histórias de Aventuras e Contrabandos (edição de autor, Nova Gráfica, Lda., Ponta Delgada, 2005) a aparelhar a memória e a rizar o discurso. Navegar é preciso, não importa a rota, muito menos o destino. Sem temer furacões, ventanias, tempestades e outras tormentas, ei-lo timoneiro experiente, a navegar à bolina, perseguindo a liberdade, a felicidade e o sonho.
Ainda e sempre há em Nuno Álvares de Mendonça o gosto de surpreender o leitor e o prazer de contar histórias com desfechos surpreendentes.
Mas atenção: estas histórias não são viagens imaginárias, já que este livro resulta de experiências vividas pelo seu autor no âmbito da ilha de S. Jorge, em geral, e da vila das Velas, em particular.
De regresso à sua ilha natal, o velho Jaime (alter-ego de Nuno Álvares de Mendonça) acompanhado de um amigo recente em viagem de férias pelas ilhas (e que na narrativa funciona como um interlocutor), visita lugares, recorda acontecimentos, reencontra pessoas, mata saudades. Esta revisitação geográfica e afectiva à ilha de S. Jorge constitui, afinal, o pré-texto, ou o leit motiv do livro.
Histórias de Aventuras e Contrabandos constitui um testemunho de vida e traz-nos, à partida, três grandes novidades temáticas.
Em plena Segunda Guerra Mundial, e numa altura em que no decorrer de tal conflito armado Portugal manteve a chamada “neutralidade colaborante”, Nuno Álvares de Mendonça foi testemunha de acções de negócios e contrabando na ilha de S. Jorge, praticadas em terra e no mar, envolvendo tripulantes de submarinos alemães e naturais da ilha. O dólar americano servia de moeda de troca, uma vez que o marco alemão tinha pouco valor cambial. Os lucros eram chorudos. Segundo o autor, numa altura em que uma casa razoável se comprava por 15 ou 20 contos, os lucros obtidos no contrabando da borracha poderia atingir os 30.000$00. Tanto quanto julgo saber é a primeira vez que este assunto (por muitos ainda considerado tabu) é, no contexto açoriano, assumidamente trazido às páginas de um livro.
Segunda novidade: a existência, na ilha de S. Jorge, de uma “Justiça da Noite” ainda durante o primeiro quartel do século XX. Até agora, os registos escritos sobre tal prática circunscreviam-se à ilha Terceira. Pois a verdade é que, num tempo em que se ia parar à cadeia por transportar aguardente do Pico para S. Jorge, Nuno Álvares Mendonça, ainda muito jovem, esteve directamente envolvido em manifestações dessa organização secreta que visava a moralização dos costumes.
Terceira novidade: a homenagem sincera e sentida que o autor presta a seu pai, Rui de Mendonça (1896-1958), dando-nos a verdadeira dimensão humana dessa personalidade de referência que, tendo sido professor primário, advogado provisionário, armador, poeta, contista, teatrólogo, jornalista e político, sempre se bateu pelos valores da liberdade, da justiça e da democracia.
Em 1931, Rui de Mendonça, então Delegado da Junta Revolucionária da ilha de S. Jorge, envolveu-se em acções que visavam o derrube de Salazar… Acabaria por sofrer as consequências da sua coragem e do seu envolvimento político: esteve preso na cidade da Horta e, posteriormente, foi engrossar as fileiras dos deportados políticos que conheceram o cativeiro no Castelo de S. João Baptista, na ilha Terceira, não se concretizando, felizmente, a ameaça do Tarrafal… Foram tempos muito difíceis para a família, que era numerosa, sendo de destacar a grande determinação e a inexcedível dignidade com que a mãe do autor soube enfrentar tamanhas adversidades.
Recorde-se que, no dia 9 de Junho de 1989, Rui de Mendonça foi condecorado, a título póstumo, com o Grau de Oficial da Ordem da Liberdade, pelo então Presidente da República, dr. Mário Soares.
De resto, a influência de Rui de Mendonça seria determinante na formação cívica, moral e intelectual de Nuno Álvares de Mendonça que, desde muito cedo, se habituou a não gostar de ditaduras, fossem elas exercidas, lá longe, por Carmona e Salazar, ou, cá dentro das ilhas, por directores de alfândega, guardas-fiscais e outros inimigos de estimação… Mantendo sempre uma atitude de inconformismo e resistência, viria ele, mais tarde, a apoiar, em S. Jorge, as candidaturas de Humberto Delgado e Norton de Matos.
Mas este é, essencialmente, um livro de histórias, memórias, aventuras e peripécias. Algumas são heróicas: por exemplo, a ousadia e a coragem dos “lutadores do mar” na amarração ao cais de lanchas e batelões, em tempo de mar bravo e de falta de infra-estruturas portuárias…
E há a epopeia do autor que, com apenas 14 anos de idade, transportou, num pequeno barco e pela calada de noite, um leitão de S. Jorge para o Pico… Ele que, muito jovem, fez uma chave da porta da cadeia das Velas, em estreita colaboração com a “justiça da Noite”… E salvou uma criança prestes a morrer afogada… E concebeu, a partir de uma ventoinha de ferreiro, um invento para aumentar a potência do motor de uma lancha (“gasolina”). E, mais tarde, domesticou um cavalo que, na primeira tourada de praça realizada em S. Jorge, salta por cima do toiro livrando-se assim de uma cornada fatal. (“…e enfrentar um toiro não há-de ser pior do que enfrentar uma baleia”, é-nos dito na página. 109). E, já homem maduro, empreendeu uma viagem arriscadíssima, a bordo da sua traineira, de S. Jorge para o Faial…
Outras narrativas são absolutamente hilariantes: a forma radical com que o autor aprendeu a nadar…; a do outro que foi roubar uma melancia e que, perseguido por um cão e seu dono, corre desalmadamente com a melancia debaixo do braço e, ao saltar para a “chata”, estatela-se no mar, sem saber nadar… Ou a peripécia daquele sujeito que, ao cair da tarde, vai caçar pombas da rocha, mas começa a chover e ele abriga-se num palheiro; aí chegado escuta a voz de uma mulher que lhe pergunta se ainda chove. O homem, que era amante de saias, procura no escuro o vulto da mulher que estava sentada em cima de um monte de palha. Manhosamente foi-se aproximando e como aquela não lhe oferecesse resistência, tudo se tornou fácil… A surpresa veio depois do acto consumado quando a mulher, dando-se a ver, disse: “Nossa Senhora te pague, meu filho! Há mais de 30 anos que não sabia o sabor disto!” (pág. 106).
Este é um livro atravessado por personagens de grande riqueza humana, algumas frenéticas e tumultuosas: tio Medeiros, contrabandista; o avô Mafredo e a sra. Amélia, contadores de histórias; o João Mentiroso, que fazia partidas; o padre Faria, que se endividava para pagar as contas dos mais necessitados; mestre Amaro Carvalho, homem sensato, culto e contador de casos; Manuel da Rosa, homem de sabedoria
Mas este regresso à ilha serve também um propósito de ajuste de contas, já que os oportunistas do passado são desmascarados (José Silva, o polícia, por exemplo), bem como é posta a nu a “nabice” e a incompetência do mestre do barco “Espírito Santo” que, em dia de mar chão, naufragou ao fazer a manobra de saída do cais das Velas… As causas de tal naufrágio são aqui minuciosamente analisadas.
Estamos, por conseguinte, perante um belíssimo livro de aventuras marítimas, de memórias marinheiras e de apetecíveis peripécias. Há aqui uma nostalgia irónica que apetece e uma escrita bem fluída (que se fica entre a ilha e a viagem) e se lê com infinito prazer.
Victor Rui Dores
24 de Outubro de 2010
Reliques of Ancient English Poetry
e o Romanceiro de Almeida Garrett
Contrariamente ao que se ensina nas Escolas Secundárias, Almeida Garrett não foi apenas o introdutor do romantismo em Portugal, nem o “dandy” que usava espartilho e se pavoneava, no Rossio, com as nomeações de Visconde, Par de Reino e Ministro… Ele foi, acima de tudo, um conhecedor profundo das literaturas inglesa, francesa e alemã – um autor que soube apreender as ideias mais “europeias” de uma imensidade de escritores do século XIX.
O ensaio As reliques of Ancient English Poetry de Thomas Percy e o Romanceiro de Almeida Garrett: Dois Modos Diferentes de Entender e Avaliar a Poesia Popular (SREC/DRAC, 1990), de E. J. Moreira da Silva.
É propósito deste autor analisar e comparar as compilações de Thomas Percy (1729-1811) e de Almeida Garrett (1799-1854) à luz dos motivos que os levaram a realizá-las e dos objectivos que pretenderam alcançar com elas. Levar a cabo tal tarefa implica, no entanto, concluir quais os princípios literários que se encontram na base do modo de entender e avaliar a poesia popular, quer de Percy, quer de Garrett; razão pela qual E. J. Moreira da Silva, ao longo deste estudo, analisa e estabelece as diferenças ou semelhanças existentes entre estes princípios.
O ensaio está dividido em duas partes: na primeira delas, o autor fala exclusivamente das Reliques de Percy, inserindo-a no contexto literário da época (o do início da transição, em meados do século XVIII, do Neoclassicismo para o Romantismo inglês das primeiras décadas do século XIX) e analisando-as à luz de três ensaios de Addison, acerca das antigas baladas, que, segundo o autor, “se revelam indispensáveis para uma compreensão adequada dos princípios teóricos que determinam o modo de Percy entender e avaliar as composições dos antigos bardos”. Na segunda parte é traçado o percurso que, sobretudo das Reliques e dos poemas Ossiânicos, conduz ao aparecimento do nacionalismo romântico alemão, com o qual surgiram as ideias fundamentais defendidas por Garrett no seu Romanceiro.
Neste ensaio fala-se ainda da teoria da poesia popular (Volksdichtung) de Herder, que se encontra, por sua vez, na origem do nacionalismo romântico alemão e que, segundo Moreira da Silva, “se tornou necessário conhecer, para que se possa compreender com clareza o fundamento teórico subjacente ao pensamento exposto por Garrett nos prefácios, introduções e notas do Romanceiro”. Por fim o autor define os critérios literários que determinam o modo de Garrett entender o valor e a “função” da literatura popular, analisando-a simultaneamente à luz do pensamento de Herder acerca da poesia popular e em comparação com os que subjazem ao modo de Percy entender e avaliar as produções dos antigos bardos.
Este livro fica, desde já, a constituir um decisivo contributo para o progresso dos estudos dentro da ensaística comparada.
Victor Rui Dores
18 de Outubro de 2010
Os Novelos
ou a inquietação do partir e do ficar
Os Novelos (colecção Gaivota, SREC, 1990), de Madalena Caixeiro, é um livro sintomático da mundividência açoriana. Mas falta-lhe profundidade narrativa e imaginação criadora assente na magia do verbo. Acima de tudo, falta, neste livro, uma perspectiva do conhecimento aprofundado dos Açores.
É que não se pode escrever um bom romance acerca destas ilhas quando delas se tem apenas um conhecimento pouco mais que superficial. Não basta falar do vaivém das marés, da humidade do clima, da terra que treme, das hortênsias em flor, do perfume dos ananases, do respirar das baleias, ou da estranheza do “sotaque”… É preciso transfigurar o real mítico dos Açores, por exemplo. Madalena Caixeiro está inda a tempo de aprender a lição nemesiana…
Poderá parecer estranho que se comece por avançar aqui uma leitura negativa para um livro que esta recensão pretende defender. É que aspectos, neste livro, que me agradam sobremaneira e que importa aqui registar.
Por exemplo: o retrato psicológico das personagens femininas. São mulheres insuladas, perseguidas na sua ânsia de quebrar a clausura da ilha e habitadas por um percurso de utopia e por um desejo de felicidade. Há, nelas, a revolta interior, a ânsia de evasão, a busca de um amor que ultrapasse a mesquinhez quotidiana da ilha. São mulheres que sofrem o ambiente opressivo ilhéu e que, por isso, perseguem sonhos de viagem e de aventura. Vivem divididas entre a vontade de partir (para o continente português, ou para a América) e o súbito desejo de ficar (nos Açores).
Apesar de escrito com alguma frouxidão narrativa, Os Novelos é mesmo assim, um livro interessante que e lê com sereno prazer.
Victor Rui Dores
9 de Outubro de 2010
Água de Verão – Contos e Narrativas
de Florêncio Terra
Florêncio Terra (1857-1941) escolheu aquilo que melhor serviu os propósitos da sua escrita: o conto rústico, que teve em Júlio Dinis, Fialho de Almeida e Trindade Coelho os seus principais cultores.
Se situarmos a escrita deste autor faialense na época em que foi produzida, facilmente detectaremos que ele soube assimilar certas correntes literárias e certas influências temáticas então em voga do outro lado do mar: a preocupação em cultivar uma escrita estética, elegante, que busca a beleza suprema da arte pela arte; a renúncia ao mundo da cidade pela procura incessante de ambientes bucolicamente rurais; a captação sensorial (de feição simbolista) da paisagem; um certo tom desiludido, pessimista e nostálgico em relação à temática do destino do homem e ao sentido da vida e do mundo; uma excessiva envolvência pela moral católica; um ambíguo fascínio pelo presságio e um certo gosto mórbido pelo tema da morte, etc.
Um pouco de tudo o que acima se expôs está contemplado no livro Água de Verão – Contos e Narrativas (Horta, 1987), mas com algumas variantes temáticas específicas. E isto porque os contos nos remetem para um contexto, que não deixando de ser rústico, se inscreve num espaço fortemente telúrico: a ilha.
Com efeito, é na ilha onde tudo se passa. É na ilha onde as personagens, mantendo entre si mútuas relações de harmonia e de conflito, se revelam através de uma série de mundividências: a memória do Natal e da matança do porco e o desfilar de histórias do vivido, do sentido e do evocado.
No livro em análise a vida é, assim, representada nos seus momentos de exaltação e de crise, sendo as relações humanas apreendidas nos seus momentos de tensão antagónica. É precisamente esse “modo” como a escrita de Florêncio Terra põe em questão o real, que, quanto a mim, a torna se não diferenciada de outros prosadores, pelo menos razoavelmente personalizada. Vejamos porquê.
Em vários contos, o narrador torna visível a sua presença, isto é, adopta a perspectiva de uma personagem inserida na história (narrador-protagonista). Escrevendo para ser lido em jornais, Florêncio Terra não perde nunca de vista o seu destinatário: o público leitor. Por isso os textos são como que produto imediato do acto da fala. Considere-se o tom cúmplice, directo e coloquial com que o narrador se dirige aos leitores: “meu amigos, quereis saber…?”; “muitos bons dias, queridos leitores”; “temos por hoje conversados”; etc.
Entre uma literatura de exis (literatura de consumo, de deleite ou entretenimento) e uma literatura de praxis (literatura de acção tendente a transformar as estruturas da sociedade humana), Florêncio Terra opta definitivamente pela primeira. Daí que a sua escrita não desça fundo nas implicações sociais: intui apenas uma realidade estabelecida. É verdade que escreveu uma literatura de salão, cultivou um certo tipo de escrita com o propósito de agradar uma certa elite faialense. Mas também é verdade que, mesmo alinhando em certos modismos da época, Florêncio Terra foi um homem de grande talento, “um estilista dotado de significativos recursos linguísticos e imagéticos”, segundo escreve Urbano Bettencourt no prefácio do livro em apreço.
Há um conto de que gostei especialmente: “Suave arrependimento”, em que nos é apresentado um espantosos retrato psicológico de uma mulher – Madalena. Florêncio Terra sabia traçar os perfis emocionais das suas personagens. Acima de tudo escrevia com sóbria mestria discursiva, trazendo para a sua prosa, valiosas achegas regionalistas e etnográficas.
Impõe-se, pois, (re)descobrir e recuperar este escritor nosso.
Victor Rui Dores
4 de Outubro de 2010
A poesia singela de Ana Adelina
Ana Adelina Bettencourt da Costa Nunes (1892-1977) foi, à semelhança de uma Silvina Furtado de Sousa – Iracema (1877-1973), uma mulher de letras e uma poetisa estimável. E isto numa altura em que, no contexto da sociedade faialense, o papel da mulher se remetia praticamente ao doce aconchego do lar.
Desta autora releio o livro póstumo O meu livro de cantigas (Horta, 1976), onde, em versos singelos, vasa todo o lirismo da sua alma idealista e nostálgica. Os seus poemas alimenta-se de amor e revelam um constante deslumbramento por tudo aquilo que a rodeava: o culto pela natureza, a paixão pelo mar, a ligação telúrica à ilha, a evocação do passado, o amor ao marido e à família…
Os versos de Ana Adelina são, por isso mesmo, auto-biográficos, descritivos, impressionistas e confessionais, sendo atravessados por uma suave espiritualidade romântica.
Mulher simples, culta, inteligente e generosa, esta faialense soube perseguir o sonho através de uma poética claramente assumida no feminino. Trata-se de uma poética que parte do eu para os outros. Com efeito, a sua escrita esteve sempre ao serviço dos outros e da comunidade faialense. E deixou marcas nos jornais, nos livros, nas palestras, nas agremiações desportivas, sociais e culturais, no teatro e no ensino do magistério primário.
Pelo muito que fez pela sua terra, merece esta mulher ser lembrada. Quanto mais não seja porque ela foi uma versejadora que, com bons sentimentos, soube escrever poesia estimável.
Victor Rui Dores
28 de Setembro de 2010
Canto ao Pico,
de Manuel de Arriaga
A par de uma intensa actividade dividida pela política e pela advocacia, Manuel de Arriaga (1840 – 1917) foi também prosador doutrinal e poeta estimável. As suas obras publicadas reúnem temas tão diversificados como poesia, escritos didácticos e filosóficos, textos políticos, discursos parlamentares e trabalhos forenses.
No âmbito deste artigo cabe apenas tecer brevíssimas considerações sobre a poesia deste faialense que foi o primeiro Presidente da República Portuguesa e que viveu intensamente os últimos decénios da Monarquia Constitucional e os primeiros anos da Primeira República.
Espírito profundamente altruísta e magnânimo, romântico em política como nos gostos literários, a poesia de Manuel de Arriaga inspira-se nos ideais humanitários preconizados pela Revolução Francesa (Liberdade, Igualdade, Fraternidade), estando vertida nas publicações Canto ao Pico (Horta, 1888), Cantos Sagrados (Lisboa, 1899) e Irradiações (Lisboa, 1901) – obras de nítida inspiração romântica e bem reveladoras da alma pura e ingénua de Arriaga e do seu espírito religioso e idealista.
Sejamos claros: Manuel de Arriaga, notável orador, não foi um grande poeta. Mesmo assim, é de reconhecer que às vezes conseguiu, ao abordar temas como Liberdade e Deus, erguer-se a voos que não o deixam em plano inferior a outros poetas portugueses seus contemporâneos, de bem maior fama. Sobressai na sua poesia uma religiosidade de base panteísta.
Deste autor acaba de sair a edição fac-similada do folheto Canto ao Pico, no âmbito das comemorações do centenário da República promovido pela Direcção Regional da Cultura do Governo dos Açores, com texto introdutório de Susana Goulart Costa.
Em 1887, com 47 anos de idade, Manuel de Arriaga regressa aos Açores depois de 21 anos de ausência, sendo recebido entusiasticamente pelos membros do Centro Republicano da Horta. Nos dias 9 e 10 de Setembro daquele ano realiza, na companhia do seu amigo Artur Avelar e de três guias, uma subida à montanha do Pico. Dessa experiência, intensa e exaltante, resultaram os nove poemas (que devem ser lidos como um só) de Canto ao Pico, cujos versos glorificam a “montanha soberba”. Cinco notas apendiculares escritas pelo autor ajudam-nos a perceber essa aventura inolvidável.
Victor Rui Dores
21 de Setembro de 2010
Álbum da Ilha do Pico,
de Ermelindo Ávila
“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia” Lev Tólstoi
Homem atento à história e aos problemas da sua ilha do Pico, espírito crítico, perspicaz e informado, o comendador Ermelindo Ávila continua, aos 95 anos de idade, igual a si próprio: sereno e distinto cavalheiro, incansável e afável estudioso, interlocutor amabilíssimo, senhor da cortesia, da persistência e da bondade humana.
A sua última publicação, Álbum da Ilha do Pico (Publiçor, 2010), regista e condensa um rico manancial informativo sobre os 3 concelhos da ilha montanha, numa linha de contínua e continuada pesquisa histórica e cultural. Este autor vem, assim, mostrar e demonstrar que é a partir da história local que se chega à história universal. De resto, e num contexto literário, já no-lo havia lembrado Miguel Torga: “O universal é o regional sem paredes; (…) quanto mais regional, mais universal”.
Por conseguinte, Ermelindo Ávila (re)visita e (re)escreve fragmentos da história e do imaginário da ilha do Pico, lança olhares às suas gentes e paisagens, resgatando do esquecimento “figuras e factos” incontornáveis, evocando acontecimentos marcantes – do povoamento do Pico às artes e ofícios, das actividades comerciais e industriais à caça à baleia, do vulcanismo à emigração, das festas religiosas e profanas à bibliografia picoense.
E, porque já viveu muito e é homem sábio, Ermelindo Ávila dá sempre um testemunho pessoal ao que narra, articulando passado e presente e perspectivando o futuro da sua ilha. Sabendo-se que, à boa maneira empirista, as ideias chegam a nós pela experiência, temos que este picaroto sabe do que fala e escreve sobre o que sabe e conhece, ele que, de há muito, nos jornais (“O Dever”), na rádio (“Manhãs de Sábado”) e em outras praças, vem desenvolvendo profícua actividade, dedicando-se ao estudo e divulgação de temas do Pico, em geral, e das Lajes, em particular, sem descurar o que se passa nas outras ilhas.
Bem arrumado, profusamente ilustrado e graficamente irrepreensível, Álbum da Ilha do Pico aí fica a merecer a nossa melhor atenção. O seu autor, bem apetrechado em termos de pesquisa, com capacidade de informar, esclarecer e avaliar, escreve num português vivo, em estilo limpo, de grande finura lexical e com uma muito boa articulação de ideias.
A ave de Minerva levanta voo ao entardecer. Continuemos a estar atentos a este historiador de mérito, digo, a este observador atento da ilha do Pico.
Victor Rui Dores
15 de Setembro de 2010
Que paisagem apagarás,
de Urbano Bettencourt
Urbano Bettencourt é o rigor e a busca incessante da palavra exacta e essencial. Poeta, filólogo, professor, ensaísta (especialista em literaturas insulares), criador literário, homem de pensamento, este picaroto habita a palavra e é por ela habitado – na perspectiva nemesiana de quem, leccionando e escrevendo, se desfaz em linguagem.
O seu último livro, Que paisagem apagarás (Publiçor, Ponta Delgada, 2010), que reúne vários textos dispersos por diferentes publicações, alguns em suporte electrónico, ao lado de outros ainda inéditos, é um verdadeiro deleite intelectual.
Atravessadas por um sopro poético, estamos perante um conjunto de narrativas que transfiguram a realidade pelo toque da ficção, balançando entre o real e o imaginário. Temos descrições que são evocações e que tanto se soltam na dinâmica dispersiva da viagem, como se prendem à ilha – a real e a sonhada.
Cronista de jornadas, o narrador assume, desde logo, a dupla condição de residente e viajante que, atenta e argutamente observa, reflecte e ironiza o real. Não se trata, porém, de uma viagem que se aventura para longe, ao encontro do Outro e do diverso, isto é, não é uma viagem em espiral segundo a expressão emblemática de Xavier de Maistre, Voyage autour de ma Chambre, nem as Viagens garrettianas são para aqui chamadas.
Em tempo de “globalização galopante”, Que paisagem apagarás impõe-se como expressão da viagem pela literatura, já que esta é uma escrita marcada pela afectividade que resulta de experiências vividas, sentidas e sonhadas pelo seu autor. Acima de tudo, reflexão sobre a condição humana e viagem pela memória – por exemplo, a memória (magoadíssima) da Guerra Colonial.
A depuração passa aqui por uma negação do acessório, do ornamento, da retórica. “Noite” e “Antes da noite” são duas narrativas de excelência literária. O texto “O comboio inexistente”, mais desenvolvido, daria uma bela peça de teatro. E há este dado surpreendente: em vários momentos surge-nos um tal Ernesto Gregório, interposto narrador, a funcionar como uma espécie de alter-ego do autor.
Mas a cereja em cima do bolo está na segunda parte do livro: “Breves, brevíssimas e (des)aforismos”. Em curtíssimos e apetecíveis textos, eivados de humor, escárnio e maldizer, o autor lança olhares sarcásticos a uma certa mundividência social, cultural e literária.
Por conseguinte, estamos na presença de um Urbano Bettencourt no seu melhor, isto é, na sua fase mais experimentada, consistente, criativa e fecunda.
Victor Rui Dores
6 de Setembro de 2010
Daqui até ao Verão
ou a infância revisitada
Tendo em vista estudos académicos, releio Daqui até ao Verão, de Ana Paula Costa, conto vencedor do Prémio Nunes da Rosa no Concurso Literário Açores 94. Trata-se de um belo e envolvente texto que, através de fugazes e fugidios “flashes”, nos dá vários olhares (nostálgicos e fascinantes) sobre a “infância a preto e branco” vivida no microcosmo da ilha.
Poder-se-ia falar, a propósito, de Proust e da sua “recherche du temps perdu” (busca do tempo perdido), ou associar a infância ao mito do Éden, isto é, a infância enquanto paraíso perdido do homem.
Ana Paula Costa optou por nos mostrar fotografias dos “dias felizes” dos seus verdes anos, falando-nos da alegria de sensações e de sentimentos que ficaram enraizados na sua lembrança nostálgica. Observando e descrevendo esse “instante suspenso” que há nas fotografias do passado, accionando os dispositivos do “flashback”, a narradora fala e fala-nos de breves memórias insulares, revisitando, assim, lugares, pessoas e coisas que lhe povoam o imaginário.
Envolto em espessa recordação e pleno de espessura evocativa, Daqui até ao Verão é uma montagem (com várias imagens, planos e enquadramentos) que capta, de forma sincera e sentida, vivências iniciáticas da narradora enquanto menina em pleno despertar para a vida, para o mundo e para o conhecimento das coisas. É, acima de tudo, a memória maior da sua relação inocente e fascinada com os outros – o avô, a avó, demais familiares e amigos. Mas é também a inquietação de quem, nas primeiras rajadas da vida, vive dividida entre alegrias e dúvidas, sonhos e desejos, partidas e chegadas, separações e reencontros. É, enfim, a busca incessante de um “deus ex-machina”.
Numa escrita tricotada pelas marcas de uma inocência assumida, Daqui até ao Verão busca também respostas para o complicado mundo dos adultos, questionando os seus valores culturais e educativos, problematizando alguns dos mecanismos repressivos associados à infância (a escola, a catequese, etc.). A narradora (Inês) vai, a pouco e pouco, compreendendo que o mundo não é igual para os homens e para as mulheres. Os homens têm o poder, o saber e a liberdade. As mulheres perseguem, no seu íntimo, a ânsia de quebrar e clausura e os tabus da ilha, havendo nelas a busca do desejo e da felicidade.
Continuando a manusear o álbum de fotografias antigas, a narradora recorda o fascínio da ilha e a memória da água viva. A ilha é o seu refúgio, o lado de lá do sonho, do vivido, do sentido e do evocado. Cá está toda a geografia sentimental e afectiva da ilha. Cá estão as ambiências impregnadas de insularidade e envoltas em atmosferas felizes e familiares. Cá estão os símbolos do amor e da fidelidade, tipificados nas figuras do avô e da avó, que surgem do fundo dos tempos como aparição de ternura no meio das ruínas da vida.
Bem urdido e com apreciável frescura narrativa, Daqui até ao Verão é um conto de atenta observação do humano e é um livro singular e tocante – a merecer a nossa melhor atenção.
Victor Rui Dores
27 de Agosto de 2010
Sobre Rapsódia Vegetal
de António Fernando Vieira Lucas da Silva
“Isto já foi muito animado e rico. Tudo à volta da Horta e dos Flamengos eram casas, quintas cheias de laranjas, de plantas e flores, a quinta de S. Lourenço, a quinta da Silveira, a quinta dos Dabney, depois abandonadas quando a Inglaterra deixou de comprar os frutos no Faial indo buscá-los ao Cabo”.
Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas
O desenvolvimento económico dos Açores tem sido feito por e através de ciclos: logo nos séculos XV e XVI viveu-se o ciclo dos cereais, sobretudo do trigo que fez dos Açores “o celeiro de Portugal” e, paralelamente, assistiu-se ao ciclo do pastel e da urzela, plantas tintureiras cujo cultivo se ficou a dever aos flamengos. O pastel fornecia corante azul escuro e a urzela, pertencente à família dos líquenes, permitia a coloração vermelho-violeta.
No Livro 3 de “Saudades da Terra”, Gaspar Fructuoso refere que o flamengo Van der Haegen (Silveira) carregava navios com pastel e urzela para a Flandres e para a Inglaterra. De realçar a importância destas plantas numa época muito anterior à descoberta dos corantes químicos para dar coloração aos tecidos.
Depois, a partir do século XIX, assistimos ao ciclo da moagem (os moinhos de vento foram, por assim dizer, a primeira “indústria” açoriana), a que se seguiram o ciclo da laranja, o ciclo da vinha e o ciclo da baleia.
Os autores e viajantes do século XIX e primeiro quartel do século XX deixaram testemunho escrito sobre estes ciclos económicos, sendo de realçar as muitas referências feitas às quintas, pomares, hortas e ao exotismo dos jardins da família Dabney, nomeadamente quando aludem às residências da “Bagatelle”, “Fredónia” e “Cedar´s House”. A recente publicação dos 3 volumes dos Anais da família Dabney no Faial veio trazer nova luz sobre a presença desta importante família norte-americana entre nós. Ficámos a saber, por exemplo, que foram os Dabneys que introduziram as araucária nos Açores a partir do Faial.
O século XX será caracterizado, no arquipélago, pela prevalência do ciclo da agro-pecuária e, mais recentemente, um novo ciclo económico de desenvolvimento tem vindo a abrir-se: o do turismo.
Este brevíssimo contexto histórico serve para melhor percebermos o opúsculo intitulado Rapsódia Vegetal (edição de autor, 2010), de António Fernando Vieira Lucas da Silva, faialense que ama incondicionalmente a terra, cidadão dotado de uma consciência ecológica e acérrimo defensor do património natural.
Falando da sua experiência pessoal, o autor vem recordar-nos que, num passado recente, o milho, o trigo, a beterraba, o tabaco, a chicória, a cevada e o milho canarinho constituíram as plantações mais importantes do Faial, com relevância em termos económicos e sociais para a ilha, sendo que a fruticultura chegou, de igual modo, a ter aqui alguma expressão e importância.
Recorrendo ao conhecimento empírico, e fazendo abordagens que estão muito próximas de “O Seringador”, “O Borda d´Água” e outros almanaques congéneres, esta Rapsódia Vegetal vale pelo que tem de útil repositório de informações, opiniões, recomendações e sugestões.
O autor escreve falando connosco: refere as dificuldades com que se deparam os agricultores; tece considerações sobre algumas técnicas de plantação da fruta, precisando as épocas próprias para o fazer; fala-nos dos benefícios da fruta na nossa saúde (“An apple a day keeps the doctor away”); historia, classifica e caracteriza frutos e plantas; dá contributos sobre como vindimar e achegas sobre adubação, sulfato e podas; avança com algumas curiosidades. Por exemplo: que se deve semear ervilhas e feijão no enchente da Lua; que a hortelã afasta as moscas; que o sr. José Baleeiro ainda faz chinelos de casca de milho; que houve um tempo em que os sabugos serviam de papel higiénico; e que ainda bem recentemente se cultivava mil canarinho com a finalidade de se construir vassouras.
Para ilustrar as suas observações, António Fernando Vieira Lucas da Silva recorre à fraseologia popular (“O rabanete vai à mesa do rei”; “O feijão quer ver o dono sair da terra”; “A uva é a fruta do sol”; “A laranja substitui o sol de inverno” (porque tem vitamina C), bem como ao adagiário: “Maio maião, ganhas na cana mas não ganhas no grão”; “Até São João se semeia pão”; “Até S. Pedro da vinha tem medo”; “Em S. Martinho, vai à adega e prova o vinho”; “Na vinha a rebentação de Março vai ao cabaço, rebentação de Abril vai ao funil”…
E, volta e meia, o autor é tocado pela emoção poética quando escreve:
“Como bonito era ver as searas na nossa Ilha, então quando o trigo estava perto de ser ceifado e fazia um pouco de vento, formava pequenas ondas mágicas e douradas que produziam uma doce canção de embalar.” (pág. 30)
A vegetação do Faial de há muito que tem vindo a ser alterada, já que a área de distribuição de floresta primitiva deu lugar aos aglomerados urbanos, campos agrícolas e áreas de pastagem. Nesta matéria, o século XIX foi determinante com a introdução, no arquipélago, de plantas exóticas, tais como o incenso, a roca-da-velha (ou conteira), a fona de porca, o chorão, a cana e a hortênsia que vieram aumentar as ameaças à nossa flora natural e endémica, nomeadamente o cedro-do-mato, o louro, o azevinho, o queiró, a azorina vidali, os fetos entre outros. Tomemos a hortênsia como exemplo: originária do Japão, a hortênsia é, sem dúvida, muito vistosa e bela, mas é uma infestante e uma invasora e, por conseguinte, dá cabo da comunidade endémica.
Ser ecológico é muito mais do que gostar da natureza – é ter consciência de todas estas dinâmicas. Por isso quero saudar António Fernando Vieira Lucas da Silva, que se identifica com a flora e valoriza o património vegetal, e, por isso, luta para que o Faial não seja esquecido nem se apague no mapa da globalização.
Recomendo vivamente a leitura desta Rapsódia Vegetal porque nela encontramos dados de interesse geral e sugestões que são verdadeiramente úteis.
Victor Rui Dores
14 de Agosto de 2010
Sobre Andanças de pedra e cal,
de Álamo Oliveira
Artesão de palavras sempre em busca de novas significações para as mesmas, poeta telúrico de agudíssima sensibilidade e apreciáveis recursos sensoriais, Álamo Oliveira é um dos nomes mais representativos da açorianidade literária. E, nos seus 34 livros até agora publicados (e bem cuidados), este autor persegue as palavras certeiras, no seu modo (insulado) de olhar as coisas, de as reflectir e transfigurar. Senhor de várias artes, ecléticas escritas e múltiplos talentos, ele identifica-se, enquanto cidadão e escritor, com a ilha Terceira, seu microcosmo de referência, e capta, em prosa e em verso, o espírito do seu povo.
A poesia é tanto mais importante quanto mais se confunde com a vida. E falar de Álamo Oliveira é falar da íntima ligação entre a vida e a escrita. Isto é, da integridade viva do real, da sua essência infinita e concreta que o habita, que o assombra, que o renova. É esta dimensão do amor à terra e do desejo da viagem que faz deste terceirense um poeta sui generis – ele que já foi insuportavelmente barroco e sufocantemente rebuscado… Com o tempo, Álamo encontrou o equilíbrio formal, descobriu o domínio da economia do verso e a requintada arte de finalizar o poema, sendo que um constante sentido de rigor e de vigilância orientou a demanda de uma linguagem depurada e erguida sobre a palavra exacta e essencial. Resultado: o percurso poético de Álamo tem sido sempre de sentido ascendente.
Duas circunstancialidades rodeiam a génese dos poemas reunidos neste seu último livro, Andanças de pedra e cal (BLU edições, 2010): o autor empreendeu, nos últimos anos, viagens (reais e imaginadas) por terras europeias, brasileiras e americanas (Eu próprio pude testemunhar o seu “exílio” pessoal em Berkeley, em 2002), sendo que das impressões e experiências colhidas dessas viagens resultaram os versos que constituem a primeira parte do livro, com o título de “andanças”; por outro lado, a segunda parte da obra, intitulada “de pedra e cal”, reúne poemas que já haviam sido publicados no álbum Memórias de Ilha em Sonhos de História, poemas esse escritos para dar respiração a uma série de serigrafias do artista plástico Álvaro Mendes – são olhares (com denso conteúdo poético) lançados sobre determinados monumentos e espaços da ilha Terceira.
Por conseguinte, este é um livro dispersivo, de itinerâncias e peregrinações, atravessado por olhares, impressões, alusões, afectos e imagens. Estamos perante a revisitação mítica da viagem, ou, se quisermos, da geografia afectiva de lugares, memórias e coisas que povoam o imaginário de Álamo Oliveira, isto é, tudo aquilo que lhe ficou suspenso na memória e é, aqui, matéria de evocação.
Tematicamente este livro traz a novidade de uma concepção estética universalizante: o poeta decifra o enigma dos dias e viaja da Ilha para o Mundo, funcionando a Ilha como uma alegoria ou uma metáfora do Mundo; e isto porque estando o poeta condicionado pela distância e pelo apartamento, necessário se torna um diálogo entre a Ilha e o Mundo.
Por isso estes são versos forjados à luz da observação do real, do vivido e do sentido, do “cá” e do “lá”, num jogo poético do mítico e do simbólico. Os poemas condensam, en passant, a condição insular nas suas vertentes geográfica, humana, histórica e cultural. O poeta colhe impressões do que vê, sente e pensa e, viandante anónimo, procura na viagem não o destino, mas a sua própria natureza. Mais do que uma viagem física, trata-se aqui daquela que ele, poeta, empreende em busca da sua identidade e do encontro consigo mesmo e com os outros.
Aliás, a arte poética alamiana tem precisamente como duas grandes linhas de força a íntima ligação do homem com a terra-mater insular, por um lado, e por outro, o drama antigo do partir ou do ficar. Neste livro, o autor assume o compromisso de partir, como pretexto para ver a ilha de fora, sendo que o desejo da viagem é uma forma de procura e de descoberta, e a errância é a busca do sonho e da felicidade possível.
Em Álamo Oliveira a poesia faz e faz-se. E o leitor mais atento e informado saberá que este autor revela grande domínio da escrita e mestria na composição poética. Apenas três exemplos retirados, ao acaso, do livro em apreço. Uma prosódia prenhe de poeticidade: “só sabiá sabia que não sabia desafiná” (pág. 29 ); a depurada limpidez de uma bem conseguida sonoridade: “no rio é sempre Janeiro. mas caem águas de março/ na cachoeira de versos enfiados na saudade como missanga (pág. 28); a ironia: “todo o ano é santo em são francisco e/ por vezes o pacífico não é tanto” (pág. 26).
Gostei incondicionalmente desta poesia marcadamente lírica e destes poemas que são fugazes fulgurações. Porque encontrei, neste livro, a harmonia do mundo para lá das ruínas e das sombras do quotidiano.
Victor Rui Dores
9 de Agosto de 2010
O esplendor de Eduíno de Jesus!
“Caríssimo
O computador não está avariado, eu é que começo a adornar. Meti carga a mais, não a estivei devidamente, atafulhei tudo num bric-à-brac de sonhos e decepções a trouxe-mouxe, e agora não sei o que devo deitar borda fora para equilibrar o casco, ou se isso tão pouco é possível.
Quatro vezes passei o cabo dos 20 e nunca cheguei aprender a rota! Os almirantes, lá à proa, sabê-la-ão? A minha cerviz calcificada nem me permite espreitar, daqui onde estou, o sentido da viagem que se abre nas minhas costas. Envelheci grumete, nunca subi, uma vez que fosse, à gávea; e agora para aqui estou, sentado à popa, olhando o mundo a ficar para trás…
Um abraço
Eduíno”
(e-mail, datado de 1/10/2008, e enviado a Onésimo Teotónio Almeida, pág. 365)
Acabo de ler, de fio a pavio, o livro Eduíno de Jesus – A Ca(u)sa dos Açores em Lisboa, homenagem de amigos e admiradores (Instituto Açoriano de Cultura, 2009), organizado por Onésimo Teotónio Almeida e Leonor Simas-Almeida, casal unido na arte e no afecto.
De afectos e com afectos está este livro escrito. Trinta e quatro autores dão, nas páginas desta obra, público e vivo testemunho da importância de Eduíno de Jesus – um autor que, na minha opinião, vale por toda uma literatura.
– Este é o “borracho” dos escritores açorianos! – foi assim que, em Abril de 1987, o poeta Álamo Oliveira me apresentou Eduíno de Jesus, no âmbito do 2º Encontro de Escritores no Solar de Lalém (na Maia do Daniel de Sá), nesse tempo em que havia tempo para os escritores celebrarem a vida, a amizade e a literatura.
Duas décadas depois, o sereníssimo e admirável Eduíno de Jesus, agora octogenário, continua a ser um “borracho”, isto é, possui essa capacidade inesgotável de comiseração e de ternura. E continua a ser, para muitos de nós, um raio de luz e um farol de saber.
Homem afectivo e modesto, professor aposentado, ensaísta profundo, poeta de primeiríssima água, intelectual rigoroso, dinamizador cultural e cidadão empenhado, o Eduíno é um sortido de cultura(s), fina ironia e sólidos conhecimentos. Solidário e acolhedor, dotado de uma infinita paciência, ele é igual a si próprio: agudo e arguto observador da realidade, extremamente cordial no trato, cumpridor e meticuloso, competente e minucioso, homem da perspicácia, da agudeza de espírito e da finura, um jeito muito fraterno de ser e conversar.
Interlocutor precioso e amabilíssimo, estar à conversa com o Eduíno é, efectivamente, receber uma lição de vida porque este homem entende inteligentemente o seu tempo e possui ideias claras e rigorosas sobre as coisas de que fala. Com ele aprendi que não se coloca o escritor de um lado e a obra do outro, mas que ambas devem ser entendidas como escuta, decifração e conhecimento. Dele tenho recebido crítica construtiva, natural, afectuosa, livre e segura, sem o tom pedagógico ou quase insolente de certos académicos que conheci durante os meus cinco anos de servidão na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa.
Ah, o inefável Eduíno dos colóquios e das conferências, resplandecente de sapiência e esplendoroso de enternecimento, com a sua voz mansa e os seus papelinhos na mão… É uma delícia para a mente e é um consolo para o espírito ler e ouvir este carismático pequeno grande homem, micaelense dos Arrifes e açoriano do Mundo! Ele tem essa capacidade de nos animar, no verdadeiro sentido etimológico da palavra, ou seja, de dar a alma.
E depois o Eduíno é aquele gentil cavalheiro de nobres e generosos sentimentos. Por exemplo: cumprimenta as senhoras sempre de beijo na mão, o que faz as delícias da minha mulher…
Homem de poucos deslumbramentos e de nenhumas complacências, o Eduíno é, por conseguinte, um “borracho” e uma ternura. Devolvo-lhe, neste escrito, aquilo que ele escreveu ao “poliédrico” Onésimo quando este completou 50 anos de idade, mas troco os 50 por 80: “Fazer 80 anos não é nenhuma coisa do Outro Mundo. Aliás, é mesmo uma coisa que só se faz neste mundo”.
O Eduíno será velho quando o for. Entretanto, e à semelhança do que já foi feito com a sua poesia, urge que ele (ou alguém por ele) recolha os muitos ensaios e estudos que tem dispersos em livros, jornais, revistas e outros periódicos, tendo em vista a sua publicação em vários volumes. A leitura das suas mensagens internéticas (capítulo III da obra em apreço) são disso um bom exemplo.
Pérolas linguísticas
Onésimo fez uma recolha da correspondência via e-mail por ele recebida de Eduíno de Jesus entre 2004 e 2009, e organizou-a em forma de diário. O resultado salta à vista de todos: os e-mails de Eduíno dirigidos a Onésimo (esse “impenitente passageiro em trânsito” (pág. 377), mostram os muitos e multifacetados conhecimentos do autor de Os Silos do Silêncio e são, por assim dizer, uma espécie de diário de bordo que se lê com infinito prazer.
Através deste diário de bordo acompanhamos o quotidiano de um homem que vive de palavras, para as palavras e com as palavras e que, devagar, devagarinho (nele é lenta a gestação da escrita), vai trabalhando uma série de projectos, dois dos quais hão-de fazer furor quando virem a luz da publicação: o Léxico Açoriano e o Arquivo de Autores Açorianos.
Do capítulo “Diário em e-mail” (que sublinhei até mais não), respigo estes saborosíssimos nacos de prosa que seleccionei e que aqui deixo à fruição do leitor.
“Hoje estou chateado sem saber porquê.” (pág. 191)
“Estou admirado com o teu inabitual silêncio, mas não o quebres se ele for de oiro.” (pág. 205)
“Enfim, que se lixem esses filhos da pátria que os pariu.” (pág. 211)
“Pelas esquinas, os partidos políticos, à falta de ideias, insultam-se recíproca e porcamente.” (pág. 205)
“Foi um fechar de festa com chave enferrujada”. (pág. 211)
“Ontem escrevi-te um e-mail que se volatilizou.” (pág. 213)
Assunto: “Nada de nada” (pág. 214)
“Em que parte do planeta estarás? Eu por mim andarei na Lua, como sempre fiz na vida.” (pág. 215)
“Os seus versos (Gilberto de Vasconcelos) eram banalmente ultra-românticos, mas de um ultraromantismo requintado em lume brando e, pior do que isso, parturejados sem dor. Não obstante, morreu tuberculoso, como qualquer verdadeiro poeta ultra-romântico.” (pág. 216)
“E quanto à nota biobibliográfica, não te afreimes.” (pág. 219)
“E tu por essa gentlemaníaca Inglaterra (…)” (pág. 232)
“Mas, sabes?, não me regozijo de ter sido sempre sincero. Perdi amigos por isso.” (pág. 258)
“Logo será a gala do aniversário da Casa dos Açores. Não vêm Laborinho nem Carlos César, que andarão nessa altura a laborinhar ou a cesariar por outras bandas.” (pág. 264)
“Não quebres a cabeça a procurar nessa selva obscura um trilho transitável” (pág. 268)
“As férias têm isto de negativo: acabam.” (pág. 283)
“Bem, ando (e não vejo porquê) com o astral em baixo. Isto não é em mim “nada de novo”, dá-me de vez em quando. Umas vezes corro as cortinas da alma e fico cá por dentro em retiro, fazendo contas à vida (que nunca dão certo…); outras, venho cá para fora, ou vou lá para fora (depende do meu ponto de vista na altura) e espanejo-me, cabriolo, retouço. Disfarço quando posso, mas às vezes os amigos dão por isso. Bom, agora estou numa de cortinas corridas.” (pág. 291)
“Por aqui faz frio por fora e por dentro da alma” (pág. 306)
“… a gente está sempre a tropeçar um no outro por essas esquinas do mundo”. (pág. 307)
“Quando eu era adolescente, a América era umas casas de madeira muito lindas por fora e confortáveis por dentro no meio de relvados verdíssimos com rapazes por ali andando a pé com bicicletas com muitos cromados pela mão, de um lado, e raparigas do outro lado, de sapatinhos rasos e soquettes e saias de organdi muito rodadas com laços azuis à cintura e um cestinho com a merenda que iam comer debaixo de uma grande árvore muito frondosa: as raparigas pareciam-se todas com a Deanna Durbin e cantavam como ela. Depois, já para o fim da adolescência, começo da juventude, as raparigas já tinham crescido na minha memória e os rapazes também, claro; eles fumavam aromáticos cigarros como os Philips Morris que comprávamos à unidade na loja do Sr. Figueiredo do Largo 2 de Março, elas levavam debaixo do braço as poesias de Lamartine ou de Musset (porque os poetas naquele tempo eram todos franceses, a América não tinha poetas)” (…) (págs. 331 e 332)
“Ainda um dia conto ir à Irlanda. Quem sabe? Hoje imagino essa ilha como uma imensa planície verde ondulante onde é preciso caminhar com cuidado para não pisar os gnomos que vivem por ali. Eles escondem-se debaixo da copa dos cogumelos à nossa aproximação, mas, mesmo que não se escondessem, a gente passaria sem dar por eles, pois o seu talhe é o de um polegar, mais ou menos. Chamam-se todos Patrick”. (pág. 340)
“A fisioterapia comigo não dá: fiz vinte sessões e fiquei vinte vezes pior. Psicoterapia… não imagino massajarem-me a alma. Primeiro, teriam de a encontrar; e, encontrando-a, tinham de lhe tirar radiografias, e como o fariam se a alma não é opaca para os raios X?” (pág. 346)
“Por aqui nada faz sentido. Vejo a vida passar como árvores por uma janela de comboio depressa e falsamente. Consulto o relógio que, noutro tempo, estava sempre atrasado, e agora vejo que é tarde.” (pág. 370)
“Por aqui o sem-saborismo do costume.” (pág. 379)
“Cessei com vagas melhoras o meu tratamento por acupunctura.
Gostava que a Terra fizesse a sua rotação completa mais devagar e idem o percurso da sua órbita” (pág. 379)
Enfim, deliciei-me com estes textos internéticos. A epistolografia tem os dias acabados? Com Eduíno, não. E quem disse que não se pode escrever literatura nas gloriosas auto-estradas da Net?
Longa vida a Eduíno! Que é de Jesus e nosso.
Victor Rui Dores
8 de Agosto de 2010
As noites da semana do mar não são só concertos e tascas… são acima de tudo animação e uma festa gigante de convívio, reencontros e descobertas.
Prova disso, foi a marcha improvisada por dezenas de pessoas que ao som da marcha da Semana do Mar se formaram num magnífico arco e o resultado pode ver-se na imagem… Palavras para quê???!!!
Para o ano há mais !
3 de Agosto de 2010
Histórias de uma paixão pelo mar,
de Manuel Mota e Pedro Oliveira
Manuel Mota é um andarilho do mar e um marinheiro do vento. Sempre em busca de viagens longínquas e rotas imaginárias. Um homem que, na linha da proa dos vários barcos que teve, contornou o sonho e velejou a aventura. No início em viagens costeiras, depois em incursões inter-ilhas e participação em várias regatas. Finalmente, fazendo-se valer de um capital de experiência acumulado, encetou a viagem de circum-navegação a bordo do veleiro “Oásis”, juntamente com alguns amigos.
Histórias de uma paixão pelo mar (Agora Comunicação, 2009) relata (pela voz de Manuel Mota e escrita de Pedro Oliveira) não só a aventura dessa viagem durante 20 meses: foram 36.000 milhas percorridas, 32 países visitados e muitas outras emoções de momentos inesquecíveis. Aqui também se fala da relação fascinada e afectiva que Manuel Mota sempre nutriu pelas suas embarcações. Porque a errância foi sempre o destino deste skipper micaelense, a sua forma de perseguir a felicidade maior e a liberdade suprema.
Victor Rui Dores
30 de Julho de 2010
Vaidade de Março, de Paulo Freitas
ou a solidão do poeta
Deste autor já aqui falei do seu livro Amores de raiva (1999), mas hoje trago à liça o livro que o trouxe para a poesia: Vaidades de Março (1998), numa altura em que ele contava 24 anos de idade, acabara de sair do Seminário de Angra do Heroísmo, escrevia ainda um pouco agarrado à forma, mas revelava já indiscutível talento poético.
A primeira coisa que se me oferece dizer sobre Vaidades de Março é que este não é um livro de vaidades; isto é, não estamos perante a lírica amorosa de um estudante em tempo de crise afectiva e sentimental e este não é um daqueles livros “precoces e precipitados” (a expressão é de Nemésio) que por aí abundam. Esta obra surpreende pela maturidade poética do seu autor, que exprime a sua tristeza e a sua solidão em versos bem carpinteirados, como neste soneto:
Andam meus dias tristes e acabados,
no chão rodopiando em desatinos…
Parecem chorar alto como os sinos
daquela igreja além, desentoados.
Andam meus dias tristes e curvados,
de mágoas e saudades tão divinos!
Parecem formar bando de meninos,
vestidos sempre igual, acinzentados!
Transformado na vida pela idade,
Como se o tempo fora em mim tecendo
Como lagarta o fio de um casulo!…
E na vida eu me vi envelhecendo,
perdendo a toda a hora a mocidade,
como se o tempo desse em mim um pulo. (pág. 18)
O que este livro nos apresenta é um “poeta magoado” e um “náufrago de alma e de cabeça”, que busca “transpor o transcendente”. E tudo isto através da expressão de um intimismo subjectivista (como forma de alheamento ou rejeição do mundo concreto) e de um pessimismo fatalista e decepcionado.
Rompem amargura, inquietação e angústia nos poemas de Paulo Freitas. Confrontado com “a vil Humanidade em podridão” e com “a vil doença”, o poeta parte em busca do sentido da existência e interroga a contingência e a transitoriedade do ser humano, buscando caminhos de libertação e liberdade.
Confrangido na solidão, o poeta vira-se então para a natureza, com a qual se identifica, isto é, consubstancia-se às coisas naturais numa afirmação panteísta.
Aqui também se fala da morte, não apenas a morte física, mas sobretudo a morte metafórica enquanto libertação, castigo ou perdão; daí a relação/oposição nascer/morrer, vida e morte.
Vaidades de Março também nos remete para uma poética telúrica, onde os símbolos insulares andam de mãos dadas com a açorianidade: mar, ilha, vulcão, vento, água, vendaval, mato, bago, hortênsia, bardo, prado, cais, barcos, etc.
Saúde-se este livro salpicado de memórias, emoções e afectos.
Victor Rui Dores
20 de Julho de 2010
O Homem e o Mar – embarcações dos Açores
de João Gomes Vieira
Figura incontornável da ilha das Flores, João Gomes Vieira é um cavalheiresco homem de cultura(s), conversador nato dotado de miúda e graúda erudição, inquieto e irrequieto, lapa da ilha mas animado por uma curiosidade universal, sentencioso e humanista, possuidor de uma consciência crítica e de um finíssimo sentido de humor, voz rouca e olhos encharcados de luz marítima…
Vivendo ao ritmo cadenciado de ondas e marés, este florentino dividiu a sua vida entre a carreira administrativa e o fascínio pelas coisas do mar. Ele é herdeiro de marítimas aventuras: quando menino foi tocado pelas histórias que ouviu da boca de velhos marinheiros da baleação americana; desde muito cedo aprendeu o sonho da viagem, e da família herdou uma tradição embarcadiça, revendo-se na figura modelar de seu pai que foi marinheiro e oficial baleeiro.
Por conseguinte, existindo e resistindo, agindo e reagindo no microcosmo da sua ilha (espaço de muitas partidas e de poucos regressos), João Gomes Vieira sentiu sempre o apelo do mar, traduzido no desejo de evasão e na necessidade indomável de quebrar silêncios e distâncias. E precisamente por ser portador de um imaginário telúrico e de uma memória marinheira, começou a escrever O Homem e o Mar – embarcações dos Açores (edição de autor, Intermezzo-Audiovisuais, Lda., 2002), que daria por concluído 50 anos depois.
Apresentando-se em edição bilingue (português e inglês, sendo que as traduções são excelentes), com esplendoroso aspecto gráfico, este não é um livro de circunstância, mas sim a obra de uma vida. De uma vida de trabalho e de contínua e continuada pesquisa nos domínios da historiografia e da antropologia marítima.
Com apetecível Prefácio do escritor João de Melo, a que se segue avisada Nota Explicativa do autor, o livro arranca com a descrição de uma viagem “rumo ao alto mar”, que João Vieira Gomes efectuou na corveta General Pereira d´Eça, viagem essa (d)escrita em escorreita prosa diarística. A viajar nessa “fortaleza de aço”, o autor dá conta das actividades a bordo e reflecte sobre o mar e a epopeia marítima de um povo que, através da errância, buscou caminhos de felicidade e sonho. Simples pretexto, afinal, para escrever sobre as embarcações primitivas dos Açores (recorrendo a informações de autores que vão de Gaspar Fructuoso, António Cordeiro, Frei Diogo das Chagas, passando por Padre Manuel de Azevedo da Cunha e José Cândido da Silveira Avelar até a estudiosos e pessoas da actualidade), seguindo rotas por outros portos e outras memórias.
João Gomes Vieira sabe que os barcos de que fala fazem parte da nossa memória afectiva e têm alma (1). Por isso mesmo, em plena era da fibra de vidro, lança olhares retroactivos (e fascinados) às embarcações que existiram e/ou existem nas nove ilhas dos Açores nos últimos 100 anos. E isto numa altura em que, dada a imparável marcha do progresso, a construção naval em madeira tem os dias contados. Procede o autor à inventariação de todo um património marítimo, escrevendo sobre embarcações tradicionais e contando histórias de homens do mar e da terra – gente de grande riqueza psicológica e funda expressão humana.
Convirá não esquecer que esses homens e esses barcos não são apenas homens e barcos – são pedaços da nossa cultura, da nossa memória e da nossa história.
Bem documentado e informado, e através de uma muito bem conseguida fluência narrativa, João Gomes Vieira capta esse “espírito do lugar” (que compreende as 900 milhas náuticas quadradas do universo marítimo açoriano) e fala do tráfego local e cabotagem; recorda baleias, botes e baleeiros; analisa a pesca do alto e a recolha de algas marinhas; evoca embarcações de recreio e de aventura; não esquece os artistas que no mar buscaram inspiração; comenta aspectos ligados à construção naval; através de textos que lhe foram fornecidos pelo padre José Idalmiro Ferreira, traz à lembrança devoções marítimas e, a fechar o livro, apresenta-nos um preciosíssimo glossário baleeiro por ele recolhido na ilha das Flores.
Por outro lado há este dado inapelável: mais do que para ser lido, este é um livro para ser visto, tocado e contemplado. Tal é a impressionante e riquíssima iconografia nele contida. Importantes arquivos fotográficos (os de Coronel Afonso Chaves e de Cônsul Dabney, por exemplo), recolhidos junto dos Arquivos Públicos dos Açores e nos contactos pessoais com fotógrafos e particulares, aqui se apresentam à fruição do nosso olhar. Porque esta é uma obra que também deve ser entendida como objecto de prazer visual.
Atravessado pela memória do vivido e do sentido, e escrito com grande poder evocativo, O Homem e o Mar – Embarcações dos Açores resulta da relação apaixonada e apaixonante que João Gomes Vieira, ilhéu com sede de infinito, sempre teve para com as coisas do mar e da terra. Um livro que, a partir de agora, passa a constituir uma referência e um marco incontornável no âmbito da etnografia marítima.
Victor Rui Dores
Recordo, aqui, o poema Os barcos, do meu amigo Mário Machado Fraião: “os barcos levam nomes de mulheres/ por elas nos consumimos/ e nos perdemos/ e nos reencontramos” (…).
Julgo ainda que a associação barcos / mulheres ultrapassa os domínios do linguístico e do poético. E isto porque pessoalmente conheço mulheres que apetecem como barcos. E barcos que têm a sensualidade e a elegância de mulheres (é o caso das canoas baleeiras)…
12 de Julho de 2010
O nascimento de uma paróquia
analisado por Mário Moura
Em tempo de globalização e massificação, e numa era marcada pela mistificação e pela desidentificação, há, nas ilhas dos Açores, um punhado de estudiosos atentos à realidade local e dispostos a contribuir para a valorização histórica e patrimonial de tudo o que os rodeia. O micaelense Mário Moura é um desses historiadores locais que, numa linha de contínua e continuada pesquisa histórica, vem mostrar e demonstrar que é a partir da História local que se chega à História universal. De resto, e num outro contexto, já no-lo havia lembrado Miguel Torga: “O local é o universal sem paredes; (…) quanto mais local, mais universal”.
Mário Moura é, pois, um historiador local que (re)visita e (re)escreve aspectos ligados à História da ilha de São Miguel e, no seu mais recente livro Nascimento de Uma paróquia – Nossa Senhora da Conceição (século XVII), fá-lo a partir do microcosmo da Ribeira Grande.
Há grandeza em ser-se historiador local. Gaspar Frutuoso, Frei Agostinho de Monte Alverne, Frei Diogo das Chagas, entre tantos outros que lhes sucederam, foram também historiadores locais e hoje não podemos passar sem eles.
Não fora Mário Moura um historiador local e hoje não saberíamos, por exemplo, a história completa da paróquia de Nossa Senhora da Conceição da Ribeira Grande e desconheceríamos de todo o perfil de Matias Nunes de Melo, o seu primeiro vigário.
Bem documentado e informado, Mário Moura dá, ao referido livro, tratamento criterioso e meticuloso. Estamos na presença de um estudioso bem apetrechado em termos teóricos e que possui capacidade de informar, esclarecer, decifrar e avaliar, ele que incorpora nos seus estudos os métodos e as preocupações dos mais diversos ramos da investigação histórica.
Ao ler este ensaio, dou comigo a pensar que a estrutura moral dos açorianos deve muito ao clero. Com efeito, nestas ilhas, o padre, e também o professor primário, deram um contributo decisivo para a alfabetização e para o desenvolvimento cultural das nossas gentes. Os padres, mais dos que os professores primários, eram detentores de vasta cultura humanista; uns e outros não se limitavam a ensinar a ler, a escrever e a contar, foram também responsáveis pela criação de jornais, filarmónicas, grupos corais, ranchos folclóricos, grupos de teatro, tunas, agremiações desportivas e até actividades científicas. Lembro aqui o padre faialense Manuel José de Ávila (1851-1923), que foi meteorologista reputadíssimo.
Sim, devemos muito ao clero, e logo desde os primórdios do povoamento: primeiro com os frades franciscanos e carmelitas e, mais tarde, com os jesuítas e capuchinhos, que para além da religião e instrução, nos deixaram outras influências igualmente importantes: a produção do vinho e aguardentes… (De igual modo ficamos a dever às freiras a nossa melhor doçaria conventual…).
“É muito fácil construir igrejas; o que é difícil é meter Deus lá dentro”, escreveu o sociólogo norte-americano Toynbee. A história do nascimento e da construção da igreja de que, na referida obra, nos fala Mário Moura é bem esclarecedora dessa dificuldade, noutros tempos de escassos recursos.
Este é, pois, um trabalho de investigação de grande interesse, documentado com importantes registos fotográficos. Ao lê-lo, fico a pensar que seria importante reconstituir uma história da arquitectura dos monumentos eclesiásticos açorianos, ou então uma História de Artes dos Açores. Porque foi através das artes que os açorianos deram respostas às eternas perguntas da vida. Temos que preservar o património escultórico religioso dos Açores, desenvolver os nossos recursos espirituais e salvaguardar o património artístico que os nossos antepassados nos legaram.
Pergunto: o que se tem feito pela salvaguarda de todo o recheio das nossas igrejas? O espólio artístico nelas existente estará todo inventariado e devidamente acautelado?
Em tempos de pirataria, houve muito espólio roubado, queimado e arruinado para sempre. É óbvio que também houve causas naturais para a destruição das nossas igrejas ao longo dos últimos 500 anos: convulsões vulcânicas, sismos, enchentes, tempestades marítimas, os altos índices de humidade, etc. Abundavam os incêndios nos templos e, à incúria do homem, juntava-se a sempre constante falta de dinheiro… Mas convirá não esquecer que, nos confortáveis tempos que correm, continua a haver por aí muitas outras formas de pirataria…
Estejamos vigilantes e atentos ao nosso património.
Defendo o princípio de que não há cultura nacional se não houver uma cultura regional. Por isso saúdo este trabalho exaustivo de Mário Moura, historiador local que continua à descoberta das nossas raízes, o mesmo será dizer, da nossa identidade cultural.
Victor Rui Dores
5 de Julho de 2010
Se ficares em meus lençóis, de Jayme Velho
Após ter publicado Quando os brandais cedem (Ponta Delgada, 1988) e Por detrás do embondeiro (Ponta Delgada, 1999), Jayme Velho – pseudónimo do médico Rui de Mendonça – deu à estampa Se ficares em meus lençóis (Ponta Delgada, 2002) e que, tal como os anteriores, se apresenta com excelente cuidado gráfico.
Trata-se de um livro de vibrações e de fragmentos de vida vivida e de vida sonhada: a vivência auto-biográfica interage com a crónica; e a narrativa ficcionada interliga-se com a reflexão analítica. O autor (que é simultaneamente narrador e narrador-protagonista) navega sonhos e memórias em viagens reais e imaginárias.
E a viagem deste livro começa com uma revisitação à infância insular enquanto passado irrecuperável e paraíso irremediavelmente perdido. Isto é, são-nos descritas vivências iniciáticas do narrador em pleno despertar para a vida, para a sexualidade, para o conhecimento das coisas e para o mundo. Vivendo no microcosmo da ilha, o narrador recorda os verdes anos e a sua relação fascinada e inocente com os outros: a mãe, o pai, os irmãos e outros familiares, mas também gente castiça que ele conheceu de perto e que faz parte do seu imaginário e da sua memória afectiva: o Herculano, o Anatólio, o José da Rosa, o Chico da Charra, o José da Avó e outras personagens (de grande riqueza humana) que surgem do fundo dos tempos como uma aparição de saudade no meio das ruínas da vida.
Da Rua Nova e das tropelias da infância, passa-se à “crise do acne” da adolescência e à inquietação de quem, nas primeiras rajadas de vida pré-adulta, vive dividido entre alegrias e dúvidas, sonhos e desejos, raivas e frustrações, separações e reencontros. São as memórias do liceu, dos primeiros amores, de atmosferas felizes e familiares, da pistola de zagalotes de atirar aos pássaros e de tantas outras aventuras…
Já na idade madura, convida-nos o narrador a partilhar momentos de felicidade por ele vividos em viagens efectuadas pelo mundo, através das quais (re)colhe ensinamentos proveitosos e inesquecíveis impressões.
E há a considerar este dado inapelável: Jayme Velho dá-se bem com o universo feminino. Para ele a mulher é sempre esplendorosa e simboliza o mistério, o fascínio, o sonho, a volúpia, o pranto, a ternura, a salvação, a coragem, a verdade, o espanto, a paixão, a serpente… Estamos na presença de um autor que traça admiravelmente o perfil psicológico de personagens femininas e vai fundo na expressão do êxtase amoroso e erótico e na polarização do desejo totalizante. E que gosta de surpreender o leitor com desfechos imprevistos e imprevisíveis: é de antologia o acto de cópula por cima do presépio na narrativa “Um desastre natalício”….
Atente-se, por exemplo, na minúcia da descrição pictórica e verdadeiramente literária do rosto de uma mulher (página 146):
“Saí apressado, estupefacto e tonto. A senhora do carro vermelho também saíra e com naturalidade foi ver os estragos que tinham resultado do acidente. “Nada de grave” disse-me como se não se tivesse passado nada. “Está magoado”? perguntou a ajeitar uma madeixa enorme do cabelo que lhe caía em cascata sobre a testa inteligente e os olhos claros que faiscavam poder. As sardas eram aos milhares numa tez escura como ilhas perdidas no mar negro. E o nariz que acompanhava de forma impressionante o traço triangular do rosto forte acabava por se fundir de forma harmoniosa com os lábios carnudos e trémulos sempre prestes a falar como veleiros nervosos na linha de partida à espera do tiro da largada. O carmim, o pálido, o escuro, o verde e o vermelho misturavam-se num conjunto forte duma pintura de traços vigorosos de génio inspirado”.
Porém, sendo esta uma escrita de afectos e de outras nostalgias, é também ela um lugar de confronto e de ajuste de contas com aspectos relacionados com aquilo que em determinado tempo e local se viveu e experimentou. Escrever continua a ser, para Jayme Velho, uma forma de resistência, de denúncia das verdades ilusórias, de renúncia às máscaras de um quotidiano alienante e, sobretudo, de exorcismo da memória. E é curioso que este autor faça a sua catarse recorrendo quase sempre ao sonho, levando o leitor às mais fascinantes ambiências oníricas.
É também pelo lado da memória interior que Jayme Velho lança olhares críticos às perplexidades do nosso presente, questionando os mitos do nosso passado recente e do nosso futuro incerto. E interroga-se sobre “a crise de líderes”, reflecte sobre pintura e pintores, fala no sopro de Deus, remetendo-nos para a analogia essencial que liga a criação divina à criação artística; ou seja, de que modo é que o artista se mede pela figura de Deus criador.
Com capa e apetecíveis gravuras da autoria de Sérgio Luís (que acentuam o sentido de humor de algumas histórias), Se ficares em meus lençóis é também um belo livro sobre o amor e a solidão. Um livro bem disposto, bem carpinteirado e bem urdido, com um bom ritmo discursivo e apreciável frescura narrativa.
É que vale mesmo a pena ler estas 166 páginas plenas de espessura evocativa e de atenta observação do humano.
Victor Rui Dores
Azores, 25 Maio 2013