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Açores 24Horas

20 de Fevereiro de 2012


Estamos em tempos de crises e palavras como dívidas e crédito entraram na linguagem do dia-a-dia com uma força aterradora. Mas é de outros créditos que queria falar. Os dos filmes. Já reparou que algumas televisões ainda passam uma lista (muitas vezes acelerada e ilegível – de nomes e funções no final dos filmes? Já reparou que muda de canal quando aparece a palavra FIM nos filmes a que assiste? E quantas vezes se levantou do cinema ainda às escuras?

 

É do trabalho desse conjunto de pessoas (e de funções) que nascem os filmes. Depois do trabalho do argumentista, do realizador, do produtor do director de fotografia, do director de casting, do director de arte (só para dar alguns exemplos) se ter iniciado começa o trabalho de actores e de uma lista mais ou menos longa de assistentes, técnicos, figurantes. Uma plêiade de outros actores anónimos responsáveis pelo resultado colectivo que é um filme. Deles raramente se fala, mas são essenciais para que o filme aconteça.

 

Por isto, quando se fala de financiamento do cinema se referem valores muito acima de outras artes. Os valores de produção de um filme (é a designação de todo o processo) atingem as dezenas de milhões em alguns países. Centenas de milhões quando falamos das mega-produções americanas. A montagem financeira de apenas um filme pode ser comparada à constituição de uma empresa, com um plano de negócios, criação de postos de trabalho, impactos na economia que muito raramente são tidos em conta por quem fala, desconhecendo o assunto na maior parte dos casos, do financiamento do Cinema em Portugal.

 

Se em países como os Estados Unidos ou a Índia a indústria cinematográfica e audiovisual é uma realidade, nos países europeus é ainda um sonho em construção. E em Portugal? Em Portugal toda a cadeia do cinema é um esforço diário, constante e muitas vezes brutal pela conquista de espaço de expressão, de meios para produzir e de um desafio permanente à imaginação para sobreviver e continuar a fazer filmes. É o artesanato na sua forma mais genuína, onde o improviso e a imaginação são ferramentas e instrumentos narrativos.

 

A Europa, tem múltiplas realidades. Países de grande produção com a França à cabeça, o Reino Unido, a Alemanha entre outros, onde já se vislumbra um sector do cinema e audiovisual com características industriais e comerciais. E os outros países de pequena produção, maioritariamente com um forte cunho autoral, artesanal mas surpreendentemente rico em diversidade, originalidade e com uma qualidade de resultados que surpreende na maior parte dos casos.

 

Desde a produção americana até cada um destes países uma coisa é comum à montagem financeira: a presença de dinheiro público. É conhecida a guerra de alguns estados norte-americanos (e até de cidades) para conseguirem localizar nos seus territórios a rodagem de filmes ou de séries de televisão. E mesmo lá, terra de liberalidades por vezes exageradas, seja em subsídios, descontos ou isenções fiscais também há dinheiros públicos envolvidos. Em França o CNC apoia em média a produção de 200 longas-metragens por ano. Alguma polémica? Não, de todo, nestes países a actividade cinematográfica é reconhecida em pé de igualdade com outra qualquer. Até com cláusulas de “excepção cultural” em alguns países. Os esquemas de financiamento são muito variados, mas todos contam com várias fontes: orçamentos de estado ou benefícios fiscais, contributos das televisões (públicas e privadas), taxas sobre a exibição cinematográfica.

 

E porquê este investimento público? Pelas evidentes vantagens no marketing territorial, na divulgação e na atracção para os seus territórios das mais variadas actividades, com significativos impactos económicos de maior ou menor relevância. O Cinema está no top ten das exportações americanas, por exemplo. Nos países europeus não consegue atingir aquele significado, mas é gerador de impactos económicos relevantes e tem uma importância cultural fundamental.

 

Crucial na afirmação de identidades culturais e na manutenção dessa mesma identidade.

 

 

Estamos a meio da discussão pública de um interessante projecto de Lei do Cinema em Portugal. No ano de 2011 estreou um número anormalmente elevado de filmes portugueses de grande qualidade, e agora o Festival de Berlim inclui dois filmes portugueses com três prémios no seu palmarés. RAFA, de João Salaviza e TABU, de Miguel Gomes. É o reconhecimento no maior festival de cinema do mundo. Enche de orgulho e oportunidade para políticos saudarem os criadores portugueses. Tudo muito bem, só que não basta.

 

Tudo o que representa o pouco cinema que se faz em Portugal – da produção à exibição não comercial – se encontra parado. No nosso país temos técnicos, temos produtores, actores e realizadores que não vivem exclusivamente do cinema na sua maioria. A paralisia ou atraso nos financiamentos significa o abandono da actividade, significa o fim do Cinema em Portugal.

 

Quando se fala de crise os sectores culturais são os primeiros a ser apontados como subsidiodependentes, os primeiros a ser cortados e deixados ao abandono, esquecendo o que significam em termos de geração de emprego e a fragilidade do próprio sector. E portanto, objecto do maior desinvestimento e do desinteresse de quem tem responsabilidades políticas.

 

No momento em que a discussão de uma boa proposta de Lei do Cinema mantém o Cinema paralisado, importa reflectir se depois desta crise e deste desinvestimento, ainda vamos ter quem faça filmes em Portugal.

 

João Paulo Macedo

19-2-2011



16 de Dezembro de 2011


Gostei particularmente do texto do Baptista Bastos no Jornal de Negócios com o tema “A grande ofensiva contra os nossos valores” sobre as bizarrias que um conjunto de políticos falhados e de limitada inteligência vem impondo aos povos europeus. Nunca, nas últimas décadas da história europeia, a falta de inteligência e sensibilidade social estiveram tão presentes numa cimeira de governantes europeus.

 

Valeram os Primeiros-Ministros britânico e húngaro que, por razões diferentes, invocaram os direitos dos Povos e o respeito pela Democracia para não alinharem no pragmatismo bacoco daqueles que defendem quem uma “austeridade permanente e metas de execução orçamental impossíveis” são a solução para uma crise que ajudaram a agudizar. Resta-nos a esperança que a história nos ensina: decisões estúpidas têm a perna curta!

 

Dizia Baptista Bastos: “A mudança de paradigma social, económico, político e cultural é evidente. E, por arrasto, uma certa ideia de democracia, senão a própria democracia, está ameaçada. Já vivíamos numa democracia de superfície, na qual os princípios fundamentais do regime estavam a ser tripudiados. Com a extensão da ofensiva, o problema torna-se perturbador. Pouco a pouco, ou não tão lentamente quanto parece, a requalificação do ideal democrático e a recomposição das forças de Direita e de Extrema-Direita tornam-se manifestos.

 

Impostos, aumento do horário de trabalho, abolição de subsídios, congelamento de salários, despedimentos em massa, redução das pensões, acréscimo das taxas moderadoras nos hospitais – eis alguns aspectos da política obscena deste Executivo, que tende a agravar-se cada vez mais. Depois, há a presença da troika e a questão da perda da autoridade de Estado em favor de uns senhores que chegam, fazem, podem e mandam, à revelia das nossas características culturais, históricas e de identidade. Adicione-se ao panorama os vencimentos extraordinários que auferem.

 

A pátria tornou-se num regabofe. Enquanto as classes trabalhadoras são oneradas com o peso de uma vida que se lhes afigura sem direcção nem sentido, continua a haver ordenados e reformas insultuosos. Na Europa, uma senhora notoriamente ignara e um senhor sem qualidades apreciáveis dominam países e populações, sem que para isso tivessem sido mandatados pelo voto. A miséria alastra. E, apesar de alguns povos, o grego, por exemplo, demonstrar que não deseja ser escravo, a verdade é que parece uma situação inalterável. Periodicamente, uma que outra “cimeira” (há, agora, esta, recente) custa rios de dinheiro aos contribuintes – e tudo fica na mesma, senão pior. A senhora alemã e o senhor francês são fotografados e filmados aos beijinhos muito afectuosos, e, já se sabe!, as coisas vão piorar no dia seguinte.

 

A leitura exclusivamente económica do mundo, a inércia conivente das elites, o silêncio compulsivo ou deliberado da inteligência europeia está a conduzir-nos para a catástrofe. Sem que nada façamos para nos opor?”

 

 

João Paulo Macedo



12 de Setembro de 2011


Crónica nº 7 – Os novos povos dispensáveis

 

 

Há uns bons anos atrás numa conferência sobre o século XX, ouvi da boca do Professor Adriano Moreira uma frase que ficou gravada na memória. Referia-se, na altura,  à tragédia vivida pelo Povo Timorense na invasão indonésia e nas duas décadas seguintes. Perguntava-se ele, porque é que perante aquela tragédia – como outras  que tiveram lugar no mundo, a Comunidade Internacional se tinha pautado por uma actuação de quase absoluta indiferença. E a resposta, tão acutilante como verdadeira foi: “Porque simplesmente, para essa Comunidade Internacional, estávamos perante povos dispensáveis”. Lembro-me que continuou a sua linha de pensamento denunciando o cinismo presente em toda a “grande política” e os esforços que Portugal como pequeno país fez a partir de determinado momento.

 

Confesso que, olhando para o seu percurso político, fiquei surpreendido. Foi também naquele momento que o orador passou a fazer parte daquele conjunto de personalidades das quais discordo profundamente do seu pensamento e prática política, mas pelas quais nutro atenção e respeito intelectual.

 

Hoje, Timor Leste é um país independente que esperamos siga no caminho da reconstrução de uma Nação. Culminar da luta de um Povo que sofreu na pele o facto de ter sido considerado “dispensável” pela Comunidade Internacional.

 

Os jornais trazem-nos hoje, passadas décadas sobre estes factos, notícias de Novos Povos Dispensáveis, agora a propósito de uma absurda “crise económica”, que pega na realidade e se recria a toda a hora!

 

Hoje, o “grande povo dispensável” é a Grécia, um país nas mãos dos mesmos que originaram a crise: a banca e o sistema financeiro. Os juros das obrigações gregas a um ano ultrapassam os 100%. Ao mesmo tempo o governo grego avisa que não terá dinheiro para pagar salários e pensões a partir do mês de Outubro.

 

A dita crise que se auto-regenera e auto-alimenta nos dramas quotidianos de um número cada vez maior de cidadãos, tem autores e criadores que importa não esquecer:

-  A “banca” (americana onde tudo teve início e europeia onde se propagou a gananciosa apetência pelo lucro fácil),

- O “Sistema Financeiro Internacional” (onde tudo se amplificou)

- Os “governos e instituições internacionais” como a União Europeia que, chefiados por figurinhas de terceira categoria continuam incapazes de dar as respostas  correctas aos problemas que se tem levantado nos últimos anos.

 

Independentemente das responsabilidades dos políticos gregos (ou irlandeses, portugueses, espanhóis ou italianos…), quem está a pagar tudo isto é o cidadão comum.

 

O cidadão que vive do seu trabalho e do seu esforço diário e se vê empobrecer de dia para dia com medidas que cortam, de forma cada vez mais profunda, os orçamentos familiares.

 

As figuras de diminutas capacidades que chefiam os países e organizações internacionais (como a União Europeia) já decidiram quais os povos que hoje são “dispensáveis”.

 

E como vai ser quando a “coisa” chegar aos “indispensáveis”?

 

Por João Paulo Macedo

12-09-2011



5 de Julho de 2011


“A Cultura é Revolucionária!”

 

 

Uma das vantagens na partilha nas redes sociais é que nos deparamos, por vezes, com surpresas agradáveis. Uma amiga deixou há dias um texto que veio de encontro a um conjunto de preocupações e reflexões que vinha fazendo para a crónica deste mês. Roubo, da citação que ela fazia de uma intervenção de Sophia de Mello Breyner, na Assembleia Constituinte.

 

Os anos que passaram, de 1975 até agora, não retiraram actualidade ou importância a frases como as que então proferiu na Assembleia da República. De vez em quando, vultos da Cultura e da Cidadania tomam em suas mãos a consciência, e soltam o grito de um alerta.

 

“Num país e num mundo onde há doentes sem cama e doentes sem tratamento e sem hospital a questão da liberdade artística e intelectual pode parecer uma questão secundária.

Mas sabemos que a cultura influi radicalmente na estrutura social e na estrutura política. E por isso a questão da liberdade da cultura é uma questão primordial. E sabemos que toda a cultura real trabalha para a libertação do homem e que por isso toda a “cultura real” é, na sua raiz, revolucionária.”

 

Nos tempos que correm, de troikas, ratings, défices e dívidas soberanas a Cultura foi abatida a Secretaria de Estado, os artistas e agentes culturais a “subsidio dependentes”. Apelida-se a Cultura de supérflua como se de um luxo se tratasse e corta-se cegamente sem cuidar dos danos infligidos num sector tão importante na vida de uma nação.


Claro que, nos dias que correm, seja por conveniência de serviço (da dívida) seja pela incapacidade democrática de muitos governantes e autarcas de lidar com a liberdade da crítica e com a liberdade de expressão (sim, tantos anos depois de 74!) ainda existe por aí uma certa “inteligência política” que defende que o povo se quer acrítico e silencioso.

 

No passado impedia-se a acção cultural pela repressão e pela censura, hoje, sinais dos tempos, pela asfixia financeira e pela demagogia do discurso órfão de cultura, de inteligência e de sensibilidade democrática.

 

Como sempre, seguimos numa luta de resistência e de defesa de princípios e valores culturais cidadãos e democráticos. Volto ao discurso de Sophia: “Pois a cultura não é um luxo de privilegiados, mas uma necessidade fundamental de todos os homens e de todas as comunidades.

 

A cultura não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar – para que o homem possa construir e construir-se em consciência, em verdade e liberdade e em justiça. E, se o homem é capaz de criar a revolução, é exactamente porque é capaz de criar a cultura.”

 

O Estado nunca quis e, acima de tudo, nunca soube exercer a actividade cultural. Demitiu-se democraticamente de o fazer naquela Constituição confiando aos agentes culturais esse papel. Hoje há, como antes de 74 quem não queira que este exercício democrático e cidadão continue a ser desempenhado. A tentação de uma “cultura de regime” ainda continua a espreitar por alguns gabinetes.  E esse retrocesso – cultural, social e democrático – é provavelmente bem pior do que a infeliz despromoção do Ministério da Cultura a uma mera Secretaria de Estado.

João Macedo

6-7-2011

 

 



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