Horta, 23 Fevereiro 2012
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As próximas eleições regionais podem ficar marcadas por uma mudança de ciclo político. À semelhança do que aconteceu em 1996, com a saída em definitivo de cena de João Bosco Mota Amaral, da primeira linha da vida política regional, também agora nasce a oportunidade de se iniciar uma nova etapa nos Açores. Carlos César é, com todos os seus defeitos e qualidades, o rosto de um período de progresso e de grande desenvolvimento para o Arquipélago. É também o rosto, e isso resulta muito das maiorias absolutas sucessivamente conquistadas, da castração de uma sociedade civil livre e plural. Não me custa reconhecer os seus méritos. Mas não posso esconder que os governos de César (em regra, são assim que se comportam os governos absolutos), acabaram por fazer eclipsar as células vivas da sociedade: as instituições, as associações, e, numa perspectiva liberal, os indivíduos.
Tudo dependerá do que os açorianos decidirem em Outubro deste ano. Embora, verdade seja dita, que Vasco Cordeiro representa, em pior versão, um Carlos César dos pequeninos. E digo-o com todo o respeito. Onde um tinha firmeza a mais, o outro tem-na a menos. Onde César era astuto, Cordeiro faz jus ao nome. Onde César tem resultados, Vasco acumula fracassos (transportes, desempenho económico, desemprego… and so on!)
Não podendo César recandidatar-se (devido à limitação de mandatos prevista no Estatuto Político-Administrativo dos Açores), avançou Vasco Cordeiro: sem Congresso, escolhido à porta-fechada, numa (ingénua) jogada do PS/Açores, previsivelmente, para retirar espaço a qualquer contestação interna (já que Sérgio Ávila e José Contente poderiam baralhar as contas). Ganha o PSD que poderá fazer não esquecer ao eleitorado a falta de legitimidade do candidato socialista, ou melhor, a legitimidade reduzida de quem se pretende candidatar a Presidente do Governo Regional. Enfraquecida estava, enfraquecida está. Não poderia haver uma melhor oportunidade para fazer uma viragem no panorama político açoriano.
Nas conversas de bastidores do PS, a tensão e a preocupação aumentam. Não é certa a vitória do PS, e Carlos César pode mesmo sair definitivamente do palco. A ideia, que percorre alguns dos seus fiéis, de que César eleger-se-á deputado e chegará a Presidente da Assembleia Legislativa Regional (porque a política passará pela ALRA, à falta de dinheiro – uma realidade que rebentará mais cedo do que tarde – vejam-se as críticas do Tribunal de Contas acerca de encargos futuros desorçamentados no valor de 3 biliões) para poder continuar a mandar atrás da cortina, é uma ideia que pode cair por terra se o PS não conseguir vencer as próximas eleições ou se não conseguir um acordo, de circunstância, com o CDS/PP. A ilusão, alimentada no consulado de Sócrates, de que César poderia transitar para o Governo da República, ou mesmo aspirar a uma candidatura presidencial, faz lembrar a história de quem tudo quer, tudo perde. E uma vez mais, a história parece vir a repetir-se. É o que dá querer ser magnânimo…
Veremos o que se passará em campanha.
Já estamos habituados a que nestas, tudo valha. Não esperaria era que começasse tão cedo. Não é que, não só as acções do Governo parecem estar a cargo de Vasco Cordeiro (para começar a ganhar notoriedade) como foi lançado um jornal, o Jornal Açores 9 (e tantos são os jornais ditos independentes lançados, misteriosamente, a um ano de eleições), de propaganda socialista, alimentando a publicidade e notícias do Governo Regional. É inacreditável! Pensei, ingenuamente, que existiriam limites para o descaramento para se fazerem estas habilidades. Com uma tiragem de 50.000 exemplares, os CTT como parceiros de distribuição e com um teor manifestamente propagandístico, só falta anunciarem mesmo a criação do Ministério do Amor, da Paz e, porque não, da Verdade. Com respeito pelos colunistas que se prestaram a esse serviço (e por alguns, até tenho estima pessoal), essa forma de fazer política, utilizando o dinheiro de cada um de nós, devia há muito ter sido banida. Faça-se política. Mas com igualdade de armas. Numa sociedade verdadeiramente livre e esclarecida, isso mereceria um imediato repúdio e a vergonha geral dos militantes de um Partido que muito contribuiu para a democratização do nosso País.
João Mendonça Gonçalves
O estranho caso das passagens aéreas
Todos nós, açorianos, e não só, já nos questionámos acerca do elevado preço das passagens aéreas nos Açores. Já muito se escreveu sobre o assunto mas, com maior ou menor debate, a questão mantém-se: o preço a pagar pela insularidade tem sido muito alto e penalizador para quem é ilhéu. É assunto recorrente em colunas de opinião, em cafés, em campanhas eleitorais, no Parlamento Açoriano (ALRA)… contudo, tem sido de pouco proveito. Vejamos.
O Grupo SATA, melhor dizendo, a SATA SGPS (Sociedade Gestora de Participações Sociais, na gíria holding) é composta por cinco empresas: A SATA Internacional e a SATA Air Açores, como companhias aéreas; a Azores Express e a SATA Express, como operadores turísticos (o primeiro para ligações Açores-EUA; o segundo para ligações Açores/Continente-Canadá) e a SATA gestora dos aeródromos da Região Autónoma.
Ano após ano, tal como demonstram os Relatórios e Contas anualmente publicados (e disponíveis na página da internet da companhia), o volume de tráfego tem, globalmente, aumentado e os resultados líquidos têm acompanhado essa subida, embora 2008 e 2010 tenham sido anos de prejuízos.
Apesar destes anos negativos, o Grupo tem conseguido atingir um equilíbrio, com lucros em 2006 e 2007, na ordem dos de 5 milhões de euros por ano; em 2008, prejuízo de 3 milhões de euros; em 2009, lucro 1,6 milhões; em 2010, prejuízo de 3,5 milhões; e em 2011, lucro de 1 milhão de euros.
Sabendo que o Grupo SATA é detido a 100% pela Região Autónoma dos Açores (por enquanto, porque foi anunciado muito recentemente, e sem grande detalhe, a alienação de algumas participações sociais), importa perceber como é que estes resultados, globalmente positivos e satisfatórios, não se traduzem numa diminuição do valor das passagens aéreas inter-ilhas e destas para o Continente.
Apesar das tarifas promocionais e do que afirmou o Presidente do Grupo, António Menezes, em entrevista dada a um jornal da Região em 29 de Junho de 2011 (que houve uma “redução superior a 17% das tarifas aéreas decorrente da entrada em vigor, em Setembro de 2009, de novas Obrigações de Serviço Público”), a percepção geral é a de que se paga muito por uma passagem aérea quando a insularidade obriga a que a mobilidade de pessoas se faça, essencialmente, por avião. E, enquanto Região ultra-periférica, o normal seria dispor-se de condições mais acessíveis que promovessem essa mesma mobilidade.
Na verdade, uma passagem Açores – Lisboa, ida e volta, dificilmente (a não ser procurando as limitadíssimas tarifas promocionais) custará menos de 300 euros. É um preço razoável? Não me parece.
Haverá que entender qual a filosofia da SATA. Refiro-me ao Grupo SATA e não apenas à SATA Air Açores: se tem por missão assegurar as ligações entre as ilhas e o exterior, como resulta do seu espírito fundador; ou sem tem por propósito uma actividade puramente comercial, vocacionada para a procura do lucro, independentemente dos mercados onde se mova.
Tenho a opinião de que o caminho percorrido, erradamente, coincide com esta segunda visão, com prejuízo para a matriz original da empresa e com inevitáveis consequências para os açorianos.
Mesmo que se diga que o mercado inter-ilhas e as rotas para o Continente não são sustentáveis sem os actuais preços praticados e sem os subsídios governamentais (que representam menos de 5% do volume de receitas), a verdade é que estes prejuízos que encontraríamos na SATA Air Açores poderiam ser compensados pelas restantes empresas do grupo, em especial, pela “galinha de ovos de ouro” que é a SATA Internacional. Ou seja, o grupo SATA estaria vocacionado para potenciar o volume de actividade da SATA Air Açores, que seria alavancado através da redução das passagens aéreas para os açorianos (e não só) que se quisessem deslocar entre ilhas e destas para o Continente. Os prejuízos contabilísticos que resultariam desta opção/filosofia, seriam contrabalançados pelos resultados positivos das restantes empresas do grupo. O prejuízo da SATA Air Açores estaria coberto pelo lucro do Grupo SATA. Aumentar-se-ia a mobilidade interna e a coesão territorial mesmo que isso significasse uma diminuição relativa (embora, claro, com a devida ponderação) do “turismo externo” em razão da pressão para se atingirem maiores proveitos.
Em vez das tarifas promocionais, muito limitadas e condicionadoras, e que não têm oferta capaz de responder aos períodos de maior movimentação, como as férias (quando é maior o fluxo de residentes e de continentais que viajam – Natal, Páscoa ou Verão), seria mais vantajoso uma redução geral das tarifas aéreas durante todo o ano, ou que se fizesse uma discriminação positiva para os residentes (e – arrisco dizer – em particular, para os jovens – beneficiando as economias locais e regionais com o fluxo de gente que iria trazer). O que há é curto!
Este deverá ser, seguramente, um dos temas chave na próxima campanha eleitoral. A insatisfação das pessoas é grande e esta realidade atinge muitos açorianos que, perante esta situação difícil de explicar, estarão na expectativa em relação às soluções de cada partido político.
O CDS/PP tem conseguido capitalizar esta situação, denunciando, constantemente, o abuso praticado no preço das passagens aéreas. O PSD tem, pelo contrário, proferido intervenções a conta-gotas (a última, sugerindo a aplicação de um programa especial financiado pela União Europeia para o sector - um POSEI no transporte aéreo) sobre o assunto. Algo insuficiente, sabendo a relevância da matéria e a relevância que as pessoas dão à matéria.
Os Partidos já deveriam perceber que deixar as medidas-bandeiras para o período de campanha eleitoral é deixar ir-se na voragem mediática onde, muitas vezes, as ideias são colocadas para segundo plano. E ninguém lê programas eleitorais! Não se imagina que vá ser diferente agora. Não se convencem as pessoas com soundbytes e com poucos segundos de antena! É de suma importância que estas estejam já despertas para as ideias de cada um dos Partidos, em particular, de quem aspira a ser Governo.
Assistimos hoje a uma realidade bizarra. Vivemos em ilhas extraordinárias, com paisagens, tradições e culturas extraordinárias, mas estamos altamente condicionados pelo mar e ar que nos separam. Em vez de diminuir distâncias, a SATA (o transporte marítimo ficará para um próximo texto, porque esse é um tema que daria pano para mangas) tem feito do acto de viajar um comportamento de luxo, numa Região, recorde-se, que tem o quarto menor PIB per capita do País.
No filme The Curious Case of Benjamin Button, este personagem profere uma frase curiosa: “our lives are defined by opportunities, even the ones we miss”.
No nosso caso, a oportunidade que este ano se abre e o sentido crítico que se impõe a cada um de nós, tem de nos levar a reflectir sobre o tema, para que, dessa discusão, os Açores fiquem melhor servidos, com melhores transportes e mais coesão. Não sabemos quando melhores oportunidades virão.
Por: João Mendonça Gonçalves
A LEGITIMIDADE DA RUA
O passado dia 24 de Novembro fica marcado pela greve geral convocada pela CGTP e UGT, a segunda greve geral organizada conjuntamente por estas organizações sindicais, contra o que designam por “recessão económica e o retrocesso social, o agravamento da exploração dos trabalhadores, e o empobrecimento generalizado da população e do país”. Estas palavras de ordem podem ler-se na “Saudação aprovada na Manifestação da CGTP-IN em Lisboa”, que vale a pena prescrustrar, não vá a mesma servir de inspiração aos Gato Fedorento.
O inspirado sindicalista escreve aí que houve uma “enorme adesão (…) do sector privado e do sector público” e um “apoio expresso ao nível da opinião pública”. Lê-se, também, o argumento clássico acerca do “trabalho forçado; da subversão da Constituição através de propostas que visam legitimar os despedimentos sem justa causa” e, sem que a linguagem não fosse forte o suficiente, “ o roubo dos subsídios de natal e de férias”.
Este é um texto oficial da CGTP e que está disponível no seu site.
É difícil quantificar essa enorme adesão. O Governo fala em 10%, os Sindicatos dos Quadros Técnicos do Estado apontam para 80%. Se, como diz o ditado, no meio é que está a virtude, fiquemo-nos pelos 45%, porque estas guerras de números já são um habitué de cada vez que se convocam greves. Já no que se refere ao apoio da opinião pública, aqui é que o entusiasmo do escritor da Saudação foi mais longe que Neil Armstrong. Em abono da verdade, não existem dados que nos permitem concluir aquilo que a CGTP afirma. Ela fá-lo como instrumento de galvanização e mobilização dos trabalhadores. É verdade! É legítimo! Mas não é pelo facto da China se designar oficialmente República Popular da China que passa a ser um país muito democrático…! Em última análise, só poderemos comprovar a solidariedade da opinião pública para com os grevistas através de sondagens (que não sejam feitas na Soeiro Pereira Gomes, sfv). E, desde já, arrisco a dizer que, pelo menos empiricamente, a opinião pública não parece estar assim tão ao lado dos de vermelho (a não ser que seja para ver o Glorioso porque aí até eu uso e abuso da cor do PCP e do BE – quando não usam bandeiras fracturantes).
O protesto contra as alterações nas leis laborais é o de sempre, desde que a a CGTP e a UGT existem. Não se pode alterar nada, porque os trabalhadores são constantemente prejudicados. “Não ao banco de horas, não à possibilidade de despedimentos, não, não e não!” E porque o disparate não ocupa lugar, o Governo é sempre ilegítimo, está contra o povo e os trabalhadores! A rua, sim, essa é quem tem a legitimidade e a autoridade para levar o país a bom porto e para fazer funcionar a economia. Com a certeza de “quem nunca tem dúvidas e raramente se engana” (quem parece ser surpreendentemente, afinal, o líder da oposição?), este retrocesso civilizacional “tem apenas como objectivo encher, ainda mais, os bolsos dos banqueiros e capitalistas”, o que já faltava para deixar um Manifesto à justa medida de quem o promove. A pedra de toque é o “roubo” aos bolsos dos trabalhadores. O roubo!
Ora, o Governo da República, decorre das eleições legislativas de 5 de Junho. É suportado por uma maioria absoluta (PSD e CDS/PP) e encontra-se a cumprir um Memorando de Entendimento negociado com o Banco Central Europeu, com a Comissão Europeia e com o Fundo Monetário Internacional subscrito pelos três principais partidos que juntos obtiveram 80% dos votos dos portugueses. Procurar fazer na rua o que não se conseguiu pelo voto (enquanto expressão máxima da vontade dos cidadãos portugueses) e atentar contra a legitimidade deste Governo e deste Memorando revela muito da natureza democrática de que os Sindicatos afectos à extrema esquerda são feitos. E este aspecto parece-me inacreditavelmente pacífico! Esta colagem abusiva e a instrumentalização dos sindicatos, principalmente por parte do PCP, é aceite pelos trabalhadores sem que percebam que só lhes retira margem de actuação e de intervenção, porque esta ingerência na vida dos sindicatos e a politização dos mesmos desrespeita quem luta, quem protesta e reividinca quando tudo o resto falha, quando as injustiças acontecem e quando o próprio sacrifício de perder um dia de salário é medido, e muito bem medido!
A greve é um direito e não se está aqui a contestar a sua legitimidade. Tem consagração na Constituição (artigo 57º) e está regulada no Código do Trabalho (artigos 530º a 545º). Trata-se de uma abstenção concertada de trabalhar com vista a um objectivo comum que tem origem em 1910, embora a sua consagração tenha sofrido uma forte restrição na Constituição de 1933 prontamente abolida em 1974. É um direito cujo exercício compreende a existência de piquetes de greve, que o artigo 533º do Código do Trabalho salvaguarda, por forma a que a associação sindical ou a comissão de greve possa desenvolver “actividades tendentes a persuadir, por meios pacíficos, os trabalhadores a aderirem à greve, sem prejuízo do respeito pela liberdade de trabalho de não aderentes” Esta liberdade a que o preceito se refere é uma liberdade individual. Não sujeita, portanto, a coacção física ou moral de modo algum.
O que se verificou com alguns piquetes de greve em certos pontos do país é inaceitável. A situação em Vimeca, onde o piquete de greve (em que se encontrava também o deputado do PCP, Miguel Tiago) tentou impedir a saída dos autocarros da CARRIS, deveria ser condenada pela própria organização sindical. Ao invés disso, Carvalho da Silva, do alto da sua cátedra sindicalista, veio criticar a “actuação policial agindo na interpretação da lei da greve” afirmando que a mesma “não tem competências para [a] interpretar”, e que “não pode impedir os piquetes de desenvolver o seu trabalho de influenciar, por todas as formas ao seu alcance, respeitando a legalidade.” (Jornal das 20h, TVI, 24 de Novembro). Extraordinário! Agora, uma força policial que tem o dever de proteger a ordem pública e de salvaguardar o cumprimento da lei não pode interpretar a lei se, no caso concreto, esta for infringida. Proteger quem quer trabalhar, ou quem tem de trabalhar, obstruindo o seu percurso, não é, no entender do líder da CGTP, legítimo. Era o que mais nos faltava! A greve não é um direito absoluto. É um direito de exercício individual a que podem recorrer todos os trabalhadores. Quem não quer fazer greve não tem de ser coagido, apedrejado nem ostracizado.
A mesma crítica se faça ao que se passou nas escadarias da Assembleia da República onde, pelo que se relata, elementos do Movimento dos Indignados derrubaram as barreiras procurando lançar a desordem e a confusão. O anarquismo que assola a Grécia (que tem antecedentes históricos gravíssimos) não tem paralelo em Portugal mas não significa que devemos tolerar o que não toleraríamos se fossem grupos facistas ou reaccionários.
A somar a tudo isto, está em curso uma campanha que visa manchar a imagem da polícia, aos olhos da opinião pública, pela actuação que teve no dia 24. Os vídeos e os relatos, sempre cirurgicamente seleccionados, apenam demonstram partes da intervenção policial. Subtrai-se do grande público as circunstâncias em que ocorreram a identificação dos elementos provocadores e o seu historial neste tipo de situações. Mas basta olhar com um pouco mais de atenção e ver quem está a alimentar esta fogueira. Não adiro à tese fácil de fazer das forças policiais os maus da fita. Na verdade, mais do que nunca, precisaremos dela, num país onde os problemas sociais se estão a agravar e onde o sentimento de insegurança tende a crescer. Não me recordo, por exemplo, da última vez que foram enviados cocktails molotov contra repartições de Finanças, o que talvez seja bom. Mas sei que na madrugada de 24, isso aconteceu. E, para futuro, não augura nada de bom.
(Estudante universitário)
CRÓNICA DE UM DESTINO ANUNCIADO
Descobrimos, na semana passada, que o rating (por definição, trata-se de uma opinião – fortemente condicionadora – dada por especialistas relativamente à qualidade de crédito e obrigações financeiras de um Estado, de uma Região Autónoma, Empresa pública ou privada etc.) dos Açores desceu cinco (!) níveis: de Ba3 para B1, após uma investigação que se iniciou em 7 de Julho deste ano (dados retirados da moodys.com). A Agência de Notação de Risco responsável por este downgrade refere que a classificação “baseia-se nos riscos significativos de refinanciamento colocados pelos muito elevados níveis de dívida directa e indirecta [dívida em 2007 representava 165% das receitas, contra os 237% de agora], particularmente no contexto de acesso ao crédito muito constrangido”, e que deve-se, sobretudo, às grandes necessidades de financiamento das empresas públicas regionais, sobretudo as do sector da Saúde”, indicando que serão necessários cerca de 250 milhões de euros para financiar dívidas directas e indirectas, o que torna provável o recurso às verbas do Memorando de Entendimento da troika.
Ora, o que aqui se revela, não sendo Bíblia, não deixa de ser preocupante. Antes de nos debruçarmos no que realmente importa, faça-se um ponto prévio: não subscrevemos as teorias da conspiração que vêm nas Agências de Rating o mal de todos os mundos, embora não neguemos a sua quota de responsabilidade na actual crise. É uma questão que deixamos para um escrito posterior.
Todos aqueles que apontaram o dedo inquisitor à Madeira, terão de reflectir, agora, sobre a coerência das suas opiniões. A situação não é tão grave como a do Arquipélago vizinho, poderão argumentar. É verdade. Não é tão grave, mas não deixa de ser preocupante! E não nos podemos contentar pelo mal do vizinho ser maior do que o nosso.
Temos um sistema público fortemente endividado. Temos uma fraca capacidade exportadora, temos a taxa de desemprego a atingir os 11,6% (in Serviço Regional de Estatística dos Açores) e as perspectivas de acesso ao crédito têm vindo a piorar.
Naturalmente que os Açores não estão alheios ao que se passa em seu redor: o subprime iniciado nos EUA e que levou à falência de alguns bancos na Europa e, agora, a crise das dívidas soberanas, têm agudizado a crise institucional na zona Euro e perturbado o funcionamento dos mercados financeiros. No entanto, e admitindo que esta crise não era previsível (o que não é assim tão claro), não se pode condescender com a actual política do Governo (à semelhança do que fizera o Governo de José Sócrates) que tem conduzido a Região a um insuportável nível de endividamento que, mais dia, menos dia, mais Moody’s, menos Moody’s, iria colapsar.
Chegados aqui, o candidato do PS/Açores ao Governo Regional é Vasco Cordeiro. O responsável pela pasta da Economia (depois de uma pequena passagem pela pasta da Agricultura) tem demonstrado a sua incapacidade para promover a actividade empresarial da Região (a privada, porque a pública vive do crédito bancário…), para dinamizar a iniciativa económica e para atenuar os efeitos da crise ao nível do desemprego.
Ou seja, o que esta mais recente crise veio revelar, com reflexo na notação da Moody’s, é que os Açores não estão preparados hoje, como não estariam preparados se esta orientação política expansionista continuasse. Porque a desorçamentação (gritante no sector da Saúde, sendo assumida pela verdade dos factos como uma prática reiterada), prosseguida com o recurso ao endividamente e a fraca prestação económica, só podem conduzir à ruptura financeira e ao empobrecimento generalizado dos Açorianos.
A situação é, infelizmente, pior do que aquilo que se pensa, que a Comunicação Social conta e que o Governo anuncia (passe, com respeito para alguns, a redundância). Mais cedo do que tarde, seremos confrontados com a dura realidade.
O debate político terá de deixar a zona lamacenta e a centrar-se em questões maiores. Será possível manter o status quo, nomeadamente, na Saúde e nas restantes Empresas Públicas e encargos com as Scuts? A que preço? E com que dinheiro? E como ficarão ilhas como Corvo, Flores, Graciosa, São Jorge, deixadas constantemente para segundo plano a nível regional? A falta de peso político (e, também, económico) tem conduzido a uma Região Autónoma a duas velocidades (tal como na Europa). Com maiores dificuldades no futuro, que se traduzirão em restrições orçamentais (porque as dívidas terão de ser pagas para continuar a receber crédito ou fecham-se serviços), temo que o sub-desenvolvimento destas ilhas se agrave e que as condições socio-económicas da Região (que tem no País a taxa mais elevada de pessoas a receber o Rendimento Social de Inserção) se degradem atingindo níveis insuportáveis.
Portugal, Espanha, Grécia e Itália, países que acreditaram no crédito sem fim (e, nos três primeiros casos, nas contas públicas maquilhadas), viram os seus Governos mudar.. é o trágico caminho que espera esta equipa governativa em final de festa com Carlos César e Vasco Cordeiro à cabeça.
Não se pode esperar outra coisa que não seja mudar de rumo e mostrar que, 15 anos depois, os Açores necessitam de respirar um novo ar, onde a palavra de ordem seja responsabilidade.
Estudante universitário)
“Quando se educa crianças, não queremos só mostrar-lhes que um tigre ou um touro tem pêlo e quatro patas. Esperamos passar-lhes valores de integridade, respeito ambiental e consideração pelo sofrimento alheio”.
Leonor Galhardo, bióloga, PÚBLICO, 25-05-2009
RECORDANDO O AMIGO E O DESTACADO AMBIENTALISTA VERÍSSIMO BORGES
“À SUA MEMÓRIA COM GRATIDÃO E CARINHO”
Decorreram três anos da morte do amigo e destacado ambientalista dos Açores Veríssimo Borges, falecido no dia 8 de Outubro de 2008.
Relembro com carinho e gratidão o Veríssimo Borges, nos vários encontros de Educação Ambiental, seminários e palestras em que estivemos juntos, assim como nas grandes conversas que tivemos no seu escritório do Hotel Gaivota, colocando-me sempre a par das lutas que tinha em mãos e disponibilizando sempre a melhor atenção e bons conselhos para as questões que levava de Santa Maria.
Através dele conheci figuras ligadas a várias áreas do ambiente, entre as quais o Eng.ro Luís Monteiro, o “pai” da conhecida Campanha SOS-Cagarro, que decorre nesta data.
O desaparecimento de Veríssimo Borges foi uma grande perda para o ativismo ambiental nos Açores, pois foi, indubitavelmente, uma figura ímpar e muito marcante na defesa do ambiente da nossa Região, constituindo, sem dúvida, uma referência histórica e uma das “autoridades” que reconheço nesta nobre causa cívica e social.
Veríssimo Freitas Silva Borges, biólogo de formação, pertenceu ao movimento SOS-Lagoas e foi o fundador do Núcleo da Quercus de S.Miguel, tendo sido a personalização inconfundível daquela ONGA, praticamente até ao seu falecimento.
Tive o privilégio de acompanhar algumas das batalhas ambientais que travou, revelando-se um lutador íntegro, isento, frontal, coerente e bem apetrechado argumentativamente nas suas intervenções. Era persuasivo, concludente e possuidor de uma grande capacidade de sensibilização, tendo-me transmitido grandes ensinamentos e referências de balizamento importantes.
Para além da defesa das lagoas, pugnou abnegadamente pela implementação de um sistema sustentável de recolha, tratamento e valorização dos resíduos nos Açores, apostado na priorização da “redução” e “reciclagem”. Lutou, ainda, por um saneamento básico, com exigência de tratamento e estancagem de esgotos sobre o litoral, pela demarcação e ordenamento de áreas protegidas, em defesa dos recursos marinhos, contra a erosão provocada pela extração de leivas, pela elaboração dos POOC´s e pela criação de uma Secretaria Regional do Ambiente descompartimentada de outros setores, entre outras frentes.
O grande amigo Veríssimo, pessoa humilde, espirituosa e de grande graça nos convívios e reuniões de trabalho, distinguiu-se não só pelas suas qualidades humanas, mas também como um verdadeiro “motor” da causa ambientalista na Região, tendo sido uma das suas figuras mais ativas, corajosas e mediáticas que conheci.
Tinha uma postura transversal ao movimento ambientalista, e na defesa do “ecumenismo associativo”, foi o promotor dos Encontros Regionais das ONGAS dos Açores, tendo o CADEP-CN, participado em todos eles, resultando a consertação de algumas lutas comuns, para além de importantes trocas de experiências.
Profissionalmente, Veríssimo Borges era empresário hoteleiro, sendo um grande defensor do turismo sustentável e politicamente estava ligado, como independente, ao Bloco de Esquerda.
Deixa ainda um vasto legado na imprensa regional, de quem foi colaborador assíduo, tendo nesta abordado as mais diversas matérias, em particular as ligadas ao ambiente e, mais recentemente, à política.
Era casado com a simpática Eduarda Bulhão, ainda de costela mariense, que muitas vezes o acompanhava nos encontros ambientais, estando ao seu lado nas lutas que travava.
Se aprofundei o meu gosto pelo naturalismo, através do Sr. Pombo, foi referenciado no Veríssimo Borges e no Teófilo de Braga (outro grande amigo e figura histórica e incontornável do ambientalismo nos Açores) que me impulsionei no ativismo ambiental, colhendo influências, estímulos e conselhos, bebidos da mitigação dos seus “estilos” diferentes.
BEM HAJAS VERÍSSIMO BORGES.
TE RECORDAMOS COM CARINHO E GRATIDÃO.
*José Andrade Melo
CADEP-CN, Sta Maria