Horta, 18 Maio 2012
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O documentário – diário pessoal, género que parece ser insuficiente para o produto final – de Gonçalo Tochas sobre a ilha do Corvo, é de uma extraordinária criação.
É arrebatadora a forma como o realizador e produtor, juntamente com Didio Pestana, conseguem captar a essência, o perfume daquele pedaço de terra, nosso, no mais ocidental da ocidental Europa. Aquela ilha, que se mostra um bastião de resistência, no meio de um oceano em permanente fúria, e de um vento em constante ebulição, é-nos revelada de uma forma que só julgávamos possível se nela pisássemos, se nela tocássemos, se nela sentíssemos o seu cheiro, se a escutássemos, no meio do silêncio do Alântico.
A premissa por que começa a longa-metragem, de conhecer todas as pessoas, todas as casas, todas as pedras, todas as vacas, cabras, porcos, de conhecer tudo, numa ilha com 440 corvinos, parece ter ficado bem presente no decorrer desta aventura em que fomos convidados a entrar.
O Ti Zé Pedro, a dona Inês, que costura o boné (típica dos lavradores e baleeiros da ilha), o Baptista, e todas as personagens – riquíssimas – que Gonçalo Tochas teve a capacidade de nos trazer, são personagens naturais, inseridas numa paisagem, que só ali, no Corvo, poderíamos encontrar.
Há um certo bucolismo nas imagens e no som captados. Somos levados a um outro estado, difícil de compreender, para quem não é açoriano. Mesmo assim, parece que em cada ilha há um Açores diferente e, por mais açorianos que sejamos, nunca deixamos de nos surpreender.
O sangue açoriano do realizador não é seguramente alheio ao resultado alcançado. À profundidade e intimidade que ali registou e que connosco partilhou. O próprio confessou, a um jornal da região, que o Arquipélago é “memória de infância, de fascínios” que o “salvou na sua infância e na sua vida”. A beleza nas imagens e nas palavras fazem de Gonçalo Tochas um embaixador do melhor do que somos feitos. O gesto de, primeiro mostrar o filme no Corvo, antes de em qualquer outro sítio, é de quem ficou profundamente tocado e ligado àquela realidade e àquelas pessoas.
Em “É na Terra, não é na Lua” há uma certa magia, a tal “Natureza Mágica”, que nos encanta, que nos abre o coração e desperta em nós uma enorme vontade em agarrar uma mochila e seguirmos os passos ali percorridos. De conhecer todas as pessoas – e não meras personagens – todos os cantos, todas as casas, toda aquela vida, naquela vila, mais a oeste do que nunca.
Maria João Avillez – também deslumbrada pelas inacreditáveis três horas de película – escrevia no Público (27/04/2012) que “é fácil filmar o mar e o céu. Filmar a “alma” é para raros”. Foi o que Gonçalo Tochas fez. A ele lhe devemos o facto de nos ter trazido um pedaço de nós, porventura, desconhecido, e de, com isso, nos fazer sentir mais orgulhosos do que nunca da nossa alma açoriana.
João Luís Mendonça Gonçalves
(estudante universitário | natural da ilha de São Jorge)
CRÓNICA DE UM DESTINO ANUNCIADO
Descobrimos, na semana passada, que o rating (por definição, trata-se de uma opinião – fortemente condicionadora – dada por especialistas relativamente à qualidade de crédito e obrigações financeiras de um Estado, de uma Região Autónoma, Empresa pública ou privada etc.) dos Açores desceu cinco (!) níveis: de Ba3 para B1, após uma investigação que se iniciou em 7 de Julho deste ano (dados retirados da moodys.com). A Agência de Notação de Risco responsável por este downgrade refere que a classificação “baseia-se nos riscos significativos de refinanciamento colocados pelos muito elevados níveis de dívida directa e indirecta [dívida em 2007 representava 165% das receitas, contra os 237% de agora], particularmente no contexto de acesso ao crédito muito constrangido”, e que deve-se, sobretudo, às grandes necessidades de financiamento das empresas públicas regionais, sobretudo as do sector da Saúde”, indicando que serão necessários cerca de 250 milhões de euros para financiar dívidas directas e indirectas, o que torna provável o recurso às verbas do Memorando de Entendimento da troika.
Ora, o que aqui se revela, não sendo Bíblia, não deixa de ser preocupante. Antes de nos debruçarmos no que realmente importa, faça-se um ponto prévio: não subscrevemos as teorias da conspiração que vêm nas Agências de Rating o mal de todos os mundos, embora não neguemos a sua quota de responsabilidade na actual crise. É uma questão que deixamos para um escrito posterior.
Todos aqueles que apontaram o dedo inquisitor à Madeira, terão de reflectir, agora, sobre a coerência das suas opiniões. A situação não é tão grave como a do Arquipélago vizinho, poderão argumentar. É verdade. Não é tão grave, mas não deixa de ser preocupante! E não nos podemos contentar pelo mal do vizinho ser maior do que o nosso.
Temos um sistema público fortemente endividado. Temos uma fraca capacidade exportadora, temos a taxa de desemprego a atingir os 11,6% (in Serviço Regional de Estatística dos Açores) e as perspectivas de acesso ao crédito têm vindo a piorar.
Naturalmente que os Açores não estão alheios ao que se passa em seu redor: o subprime iniciado nos EUA e que levou à falência de alguns bancos na Europa e, agora, a crise das dívidas soberanas, têm agudizado a crise institucional na zona Euro e perturbado o funcionamento dos mercados financeiros. No entanto, e admitindo que esta crise não era previsível (o que não é assim tão claro), não se pode condescender com a actual política do Governo (à semelhança do que fizera o Governo de José Sócrates) que tem conduzido a Região a um insuportável nível de endividamento que, mais dia, menos dia, mais Moody’s, menos Moody’s, iria colapsar.
Chegados aqui, o candidato do PS/Açores ao Governo Regional é Vasco Cordeiro. O responsável pela pasta da Economia (depois de uma pequena passagem pela pasta da Agricultura) tem demonstrado a sua incapacidade para promover a actividade empresarial da Região (a privada, porque a pública vive do crédito bancário…), para dinamizar a iniciativa económica e para atenuar os efeitos da crise ao nível do desemprego.
Ou seja, o que esta mais recente crise veio revelar, com reflexo na notação da Moody’s, é que os Açores não estão preparados hoje, como não estariam preparados se esta orientação política expansionista continuasse. Porque a desorçamentação (gritante no sector da Saúde, sendo assumida pela verdade dos factos como uma prática reiterada), prosseguida com o recurso ao endividamente e a fraca prestação económica, só podem conduzir à ruptura financeira e ao empobrecimento generalizado dos Açorianos.
A situação é, infelizmente, pior do que aquilo que se pensa, que a Comunicação Social conta e que o Governo anuncia (passe, com respeito para alguns, a redundância). Mais cedo do que tarde, seremos confrontados com a dura realidade.
O debate político terá de deixar a zona lamacenta e a centrar-se em questões maiores. Será possível manter o status quo, nomeadamente, na Saúde e nas restantes Empresas Públicas e encargos com as Scuts? A que preço? E com que dinheiro? E como ficarão ilhas como Corvo, Flores, Graciosa, São Jorge, deixadas constantemente para segundo plano a nível regional? A falta de peso político (e, também, económico) tem conduzido a uma Região Autónoma a duas velocidades (tal como na Europa). Com maiores dificuldades no futuro, que se traduzirão em restrições orçamentais (porque as dívidas terão de ser pagas para continuar a receber crédito ou fecham-se serviços), temo que o sub-desenvolvimento destas ilhas se agrave e que as condições socio-económicas da Região (que tem no País a taxa mais elevada de pessoas a receber o Rendimento Social de Inserção) se degradem atingindo níveis insuportáveis.
Portugal, Espanha, Grécia e Itália, países que acreditaram no crédito sem fim (e, nos três primeiros casos, nas contas públicas maquilhadas), viram os seus Governos mudar.. é o trágico caminho que espera esta equipa governativa em final de festa com Carlos César e Vasco Cordeiro à cabeça.
Não se pode esperar outra coisa que não seja mudar de rumo e mostrar que, 15 anos depois, os Açores necessitam de respirar um novo ar, onde a palavra de ordem seja responsabilidade.
Estudante universitário)
“Quando se educa crianças, não queremos só mostrar-lhes que um tigre ou um touro tem pêlo e quatro patas. Esperamos passar-lhes valores de integridade, respeito ambiental e consideração pelo sofrimento alheio”.
Leonor Galhardo, bióloga, PÚBLICO, 25-05-2009
RECORDANDO O AMIGO E O DESTACADO AMBIENTALISTA VERÍSSIMO BORGES
“À SUA MEMÓRIA COM GRATIDÃO E CARINHO”
Decorreram três anos da morte do amigo e destacado ambientalista dos Açores Veríssimo Borges, falecido no dia 8 de Outubro de 2008.
Relembro com carinho e gratidão o Veríssimo Borges, nos vários encontros de Educação Ambiental, seminários e palestras em que estivemos juntos, assim como nas grandes conversas que tivemos no seu escritório do Hotel Gaivota, colocando-me sempre a par das lutas que tinha em mãos e disponibilizando sempre a melhor atenção e bons conselhos para as questões que levava de Santa Maria.
Através dele conheci figuras ligadas a várias áreas do ambiente, entre as quais o Eng.ro Luís Monteiro, o “pai” da conhecida Campanha SOS-Cagarro, que decorre nesta data.
O desaparecimento de Veríssimo Borges foi uma grande perda para o ativismo ambiental nos Açores, pois foi, indubitavelmente, uma figura ímpar e muito marcante na defesa do ambiente da nossa Região, constituindo, sem dúvida, uma referência histórica e uma das “autoridades” que reconheço nesta nobre causa cívica e social.
Veríssimo Freitas Silva Borges, biólogo de formação, pertenceu ao movimento SOS-Lagoas e foi o fundador do Núcleo da Quercus de S.Miguel, tendo sido a personalização inconfundível daquela ONGA, praticamente até ao seu falecimento.
Tive o privilégio de acompanhar algumas das batalhas ambientais que travou, revelando-se um lutador íntegro, isento, frontal, coerente e bem apetrechado argumentativamente nas suas intervenções. Era persuasivo, concludente e possuidor de uma grande capacidade de sensibilização, tendo-me transmitido grandes ensinamentos e referências de balizamento importantes.
Para além da defesa das lagoas, pugnou abnegadamente pela implementação de um sistema sustentável de recolha, tratamento e valorização dos resíduos nos Açores, apostado na priorização da “redução” e “reciclagem”. Lutou, ainda, por um saneamento básico, com exigência de tratamento e estancagem de esgotos sobre o litoral, pela demarcação e ordenamento de áreas protegidas, em defesa dos recursos marinhos, contra a erosão provocada pela extração de leivas, pela elaboração dos POOC´s e pela criação de uma Secretaria Regional do Ambiente descompartimentada de outros setores, entre outras frentes.
O grande amigo Veríssimo, pessoa humilde, espirituosa e de grande graça nos convívios e reuniões de trabalho, distinguiu-se não só pelas suas qualidades humanas, mas também como um verdadeiro “motor” da causa ambientalista na Região, tendo sido uma das suas figuras mais ativas, corajosas e mediáticas que conheci.
Tinha uma postura transversal ao movimento ambientalista, e na defesa do “ecumenismo associativo”, foi o promotor dos Encontros Regionais das ONGAS dos Açores, tendo o CADEP-CN, participado em todos eles, resultando a consertação de algumas lutas comuns, para além de importantes trocas de experiências.
Profissionalmente, Veríssimo Borges era empresário hoteleiro, sendo um grande defensor do turismo sustentável e politicamente estava ligado, como independente, ao Bloco de Esquerda.
Deixa ainda um vasto legado na imprensa regional, de quem foi colaborador assíduo, tendo nesta abordado as mais diversas matérias, em particular as ligadas ao ambiente e, mais recentemente, à política.
Era casado com a simpática Eduarda Bulhão, ainda de costela mariense, que muitas vezes o acompanhava nos encontros ambientais, estando ao seu lado nas lutas que travava.
Se aprofundei o meu gosto pelo naturalismo, através do Sr. Pombo, foi referenciado no Veríssimo Borges e no Teófilo de Braga (outro grande amigo e figura histórica e incontornável do ambientalismo nos Açores) que me impulsionei no ativismo ambiental, colhendo influências, estímulos e conselhos, bebidos da mitigação dos seus “estilos” diferentes.
BEM HAJAS VERÍSSIMO BORGES.
TE RECORDAMOS COM CARINHO E GRATIDÃO.
*José Andrade Melo
CADEP-CN, Sta Maria