O candidato das ideias alheias – Crónica Tiago Matias
24 de Abril de 2013
As eleições autárquicas aproximam-se e com elas todo um frenesim político, característico.
Na Câmara Municipal de Ponta Delgada temos hoje um presidente que herdou um legado difícil de gerir, fruto da sua predecessora cuja gestão não foi, convenhamos, a ideal – particularmente do ponto de vista financeiro. Isto poderia ser a premissa de um bom augúrio. Porém, infelizmente, não o é.
O Dr. José Manuel Bolieiro tem seguido um rumo diferente na sua gestão. Mas não deixa de ser importante recordar o seguinte: José Bolieiro foi o vice-presidente de Berta Cabral durante três anos. Então porque não implementou as medidas que tem vindo a promover ao longo dos últimos seis meses? Ou porque é que não se debateu por elas, no mínimo? Porque permitiu o município seguir na senda do endividamento? A resposta é simples; o agora assumidamente candidato autárquico do PSD/A a Ponta Delgada está empenhado numa tentativa de branquear o seu passado político e sacudir responsabilidades.
Numa análise, mesmo que superficial, verificamos que José Bolieiro foi “beber” muitas das suas medidas às propostas do PS/A para Ponta Delgada, ao longo dos anos.
Vejamos.
Bolieiro afirma que é “hora é de arrancar com uma estratégia impulsionadora que envolva todos os agentes com interesse no desenvolvimento da cidade”. O PS/A defende isto desde pelo menos 2005 – o diagnóstico está feito, é hora de passar aos atos.
Bolieiro diminuiu a sobrecarga fiscal e de taxas municipais sobre o negócio, a ocupação do espaço público e o licenciamento de obras particulares. São estas reinvindicações precisamente do PS/A desde há quase uma década.
O candidato do PSD afirmou que “o tempo da autarquia andar de costas voltadas para o Governo Regional tem de passar”. Ninguém objetou mais a postura de “orgulhosamente sós” que Berta Cabral inculcou no município de Ponta Delgada, que o PS/A. Aliás, esta lógica concorrencial não tem o mínimo sentido. Independentemente das cores políticas, freguesias, autarquias e governo regional têm de trabalhar em articulação, em prol de quem realmente conta – a população.
José Manuel Bolieiro quer agora apostar na “coesão territorial e social, descentralizando e reforçando os meios financeiros de todas as freguesias de Ponta Delgada”. Esta última frase é praticamente tirada a papel químico do discurso de anúncio de candidatura do candidato socialista, o Dr. José Contente.
Por outro lado o facto de José Contente estar já a apresentar propostas tão concretas, a sensivelmente meio ano das eleições, é prova de que o candidato socialista está empenhado em soluções que tirem o município de Ponta Delgada do marasmo em que este se encontra. O facto de José Contente defender os apoios sociais em detrimento do investimento em infraestruturas é prova de que o PS/A apresenta um candidato sensível aos tempos difíceis em que vivemos. O facto de José Bolieiro vir nesta altura – estrategicamente – fazer uma aproximação aos ideais de esquerda apenas prova que Bolieiro é um verdadeiro candidato das ideias alheias.
Tiago Matias
Tradutor
O Paradoxo da Soberania – por Filipe Costa
17 de Março de 2013
É certo que vivemos num mundo em constante globalização e por via desse fenómeno temos de enfrentar os prós e os contras do efeito, no entanto não nos podemos esquecer que num plano anterior, possuímos uma nacionalidade bem como uma identidade própria, e que vivemos numa Nação soberana. Pelo menos assim deveria ser.
Antes de formular algum tipo de opinião sobre o tema, o começo do Artigo 1º da Constituição da República Portuguesa dá-nos desde logo e de uma forma expressa a definição da qualidade do nosso País, ou seja, “ Portugal é uma República soberana,(…)”” e que se baseia em princípios muito importantes, tais como o de dignidade, liberdade e igualdade para todos aqueles que fazem parte desta nação.
O artigo 1.º da Constituição, que considero como um dos mais importantes da Constituição, e que dá legitimidade ao Governo em nome do povo, de interceder e atuar por forma a que a qualidade de vida deste seja o melhor possível, deveria ser motivo mais que suficiente para aqueles que possuem os desígnios da Nação nas suas “mãos”, entenderem que se está a descurar um documento que é a base da regulação da vivência social, económica, e institucional de Portugal, fazendo-me chegar à conclusão que o que deveria ser não o é e que, apesar de ser usual nos meios de comunicação social a utilização da palavra “inconstitucional”, não estão, e provavelmente não serão, implementadas medidas ou tomadas decisões conscienciosas com vista à “restauração” de uma qualidade que foi construída e adquirida arduamente com recurso ao suor e ao sangue dos nossos antepassados.
Mas afinal como podemos definir a soberania do Estado Português e onde está essa dita soberania?
Tendo em conta as considerações teóricas sobre a matéria, e de uma forma muito superficial, podemos considerar a soberania como uma qualidade inerente a um Estado, neste caso o Estado português, o qual não reconhece entidades superiores a este, quer seja no plano interno quer seja no plano internacional, daí, e tendo em conta a conjuntura económico-politica atual, seja legitimo considerarmos que vivemos num país à mercê das ordens emanadas por entidades que não deveriam interferir nos assuntos internos dos estados, e que são essas mesmas entidades que estão a regular o funcionamento de um país, o que por sua vez se repercute diretamente com a vida da população, a qual vem sofrendo, a um ritmo galopante, um agravamento das suas condições de sobrevivência.
Embora seja algo indesejável por parte da maioria dos portugueses, não é difícil compreender que no momento atual e por vários motivos, o Governo deixou de ter influência e poder para resolver alguns assuntos relacionados com a Nação e que soberania só mesmo na Constituição da República Portuguesa.
Filipe Costa
15/03/2013
“O meu movimento”, no portal do governo, deve querer dizer alguma coisa – por Francisca Ávila
1 de Janeiro de 2013
“O meu movimento” é uma plataforma virtual, criada no portal do governo da república. Nas palavras dos mesmos, a iniciativa pretende “dar uma oportunidade a todos de participar no debate sobre o futuro do nosso país. De uma forma lúdica e simples, qualquer cidadão português pode defender as causas em que acredita, fazendo-se ouvir por todos – e especialmente pelo seu Governo.” No entanto, para além de uma conversa pessoal com Passos Coelho, nada sabemos sobre o que pretende o governo fazer com as causas vencedoras.
No dia 30 de dezembro terminou a votação na segunda edição do concurso. A segunda, porque a primeira terminou no início de 2012, e pouco ou nada diferiu da segunda. Nas duas edições foram criados centenas de movimentos mas o tema transversal aos que sempre lideraram as tabelas de mais votados foi claro como água, e só deixou dúvidas a quem as quis ter. Alteração do estatuto jurídico dos animais, fim do uso de animais em circos, interdição de menores em espetáculos tauromáquicos, fim dos canis e gatis de abate ou nova lei de proteção animal foram causas que se mantiveram nos primeiros lugares. Está à vista, para quem quiser ver, que na sociedade portuguesa há uma preocupação crescente e ativa com questões relacionadas com a proteção animal. Mas a população apostou em força noutra causa, tanto na primeira como na segunda edição, a causa anti-tauromáquica.
Na primeira edição o Movimento do Sérgio manteve-se imperturbável, do início ao fim, no primeiro lugar do concurso, era o movimento pelo “Fim das Corridas de Touros”. Agora, na segunda edição, os portugueses continuaram a manifestar o seu profundo desagrado com a prática de espetáculos tauromáquicos em Portugal, acrescido ao facto de agora perceberem que estes são feitos à custa dos seus impostos. Assim, saiu vencedor o Movimento do Rui Manuel, pelo “Fim dos Dinheiros Públicos para as Touradas”.
Ao longo de 2012 assistimos a uma expressão popular clara de repúdio ao uso dos dinheiros públicos para a tauromaquia. Foram criados movimentos, feitas campanhas, entregues petições, em território continental e nas nossas ilhas dos Açores. Felizmente, o arquipélago da Madeira não padece deste mal. Assistimos também, pelas mãos do PEV e do BE, o assunto a ser levado à Assembleia da Republica, prova de que a voz das pessoas se faz ouvir, ainda que só por alguns.
Mas não pode ser só por alguns, não pode, porque o governo de Passos Coelho criou um espaço para que as pessoas pudessem defender as suas causas ao criar uma iniciativa que dá oportunidade aos cidadãos de exporem as razões pelas quais defendem causas, na primeira pessoa, ao primeiro-ministro de Portugal.
Com toda a legitimidade, exige-se agora que o governo de Passos Coelho aja com alguma coerência e dê respostas às situações que ele próprio criou. O governo de Passos Coelho disse querer ouvir os cidadãos e os cidadãos falaram, falaram e foram claros. Agora, resta-lhe cumprir a sua parte sem demoras, sem rodeios e sem touradas.
Francisca Ávila
“Realmente nove?” – de João Mendonça Gonçalves
13 de Dezembro de 2012
Realmente nove?
As eleições de dia 14 de Outubro tiveram um resultado claro e que não merecem grandes comentários adicionais. Contudo, e porque se volta à política, importa deixar algumas notas.
André Rodrigues, um jovem arquitecto de 28 anos, teve a coragem de encabeçar e ser eleito pela lista do PS da ilha de São Jorge. Não se sabe se ficará muito tempo, ou se tentará migrar para a Câmara de Velas (renunciando ao mandato de deputado para se candidatar, ou mantendo o lugar na Horta?), mas a verdade é que não parece estar em grande consonância com o Governo Regional. Ora, a propósito do Programa de Governo para 2012-2016, diz André Rodrigues que “para um contexto de sustentabilidade financeira dos Açores, é essencial vencer três grandes desafios nesta legislatura: a revisão da Lei de Finanças das Regiões Autónomas, a definição do próximo Quadro Comunitário de Apoio de 2014/2020 e a manutenção da atual estrutura de repartição de encargos e responsabilidades entre a Administração Central e a Administração Regional”
Rodrigues esquece-se que a Lei de Finanças Regionais não depende da Assembleia Legislativa Regional de que é membro. Essa é uma competência da Assembleia da República que tem maioria PSD/CDS. Se essa é uma prioridade dos parlamentares socialistas, então, está condenada ao fracasso. Até Carlos César, em Março do presente ano, veio felicitar a não revisão de tão importante Lei. Estranhas contradições.
Em segundo, a gestão dos fundos comunitários depende não do Governo e da Assembleia Regional (embora possam participar da discussão), mas do Governo da República. O deputado socialista reconhece isso, mas estranha-se que coloque como prioridade um assunto que não cabe na sua alçada.
Terceiro, a repartição de encargos já é feita à luz dos instrumentos que existem. Do Estatuto Político-Administrativo, da citada Lei, e de outros mecanismos que têm mais carácter nacional que regional. Depende, por isso, mais da vontade da República e não da vontade regional.
Esta estranha obsessão em querer retomar e reformar o Estatuto Político-Administrativo não tem cabimento. O Estatuto foi alterado (bem ou mal, não se discute isso aqui) na última legislatura (que tinha maioria PS na Região e contava com amplo consenso na Assembleia República). Não foi criada, sequer, jurisprudência sobre o assunto. E muitos dos intrumentos jurídicos ao dispor da autonomia nem estão a ser aproveitados pelos órgãos regionais. Porque é que se quer voltar a mudar? Estas tiradas, de pendor orgulhosamente autonómico não passam de palavras ocas.
Deverão ser outras as preocupações dos representantes açorianos. Todos queremos crescimento, competitividade e emprego. Deixemo-nos de lugares comuns. O ponto resume-se à definição de prioridades e alocação de recursos.
Curioso é que no Programa de Governo dos Açores, (250 páginas de pura poesia atlântica) surja apenas uma referência à ilha de São Jorge. Melhor que Calheta e Velas, que são totalmente omitidas no documento (tal como têm sido apagadas do mapa pela classe política de São Jorge.)
Até nisto há desertificação. Talvez, quem sabe, por culpa do dicionário do WORD que não reconhece 9, mas sim 1, 2 ou 3 ilhas nos Açores (e não será o único…). Se, num extenso programa de governo, uma de nove ilhas aparece apenas uma vez referida está tudo dito quanto ao seu peso no panorama regional. E quanto ao peso dos seus políticos no panorama regional.
Esse é um aspecto que desde há algum tempo me tem suscitado alguma inquietação e que, de certa forma, surge relacionado com uma promessa do PSD, de Duarte Freitas, em reduzir o número de deputados.
As ilhas com menor população têm, proporcionalmente, menos deputados, assegurando-se, contudo, sempre a presença de 2 sob pena do Corvo não ficar representado. A questão reside na proporcionalidade.
A esse nível, o que sucede é que ilhas populosas, como São Miguel e Terceira, concentram a maioria (19 e 10, respectivamente) dos 52 deputados. Sem contar com os 5 que poderão ser eleitos por qualquer ilha (embora tradicionalmente reforcem esses 29). Tal significa que um deputado de uma ilha pequena, como São Jorge (elege 4) , Graciosa (3) ou Flores (3), tem de trabalhar o dobro ou o triplo para conseguir responder aos anseios da população. E a realidade mostra-nos que os deputados de ilhas pequenas têm de lutar não só contra o centralismo do governo regional, mas também contra o centralismo do próprio aparelho partidário. Migalhas para uns são milhões para outros. E é nessa luta de formiga que se faz a política regional.
Se não é pelo número, tem de ser pela qualidade. E são escassos, em comparação com ilhas maiores, os recursos humanos qualificados técnica e politicamente para exercerem funções públicas.
A escola da vida é importante. Sempre foi. Mas hoje colocam-se também outras exigências. Quem não está atento ao que se passa, por exemplo, na Europa, dificilmente poderá explicar porque é que os fundos comunitários vão terminar. Quem não compreende o que é um défice ou uma dívida pública, dificilmente compreenderá os cortes na despesa e a situação de aperto que vivemos hoje. E assim por diante.
O que falta na sociedade, falta na política. Faltam-nos pessoas qualificadas, inteligentes, interessadas e intelecualmente honestas. Falta até algum desprendimento, alguma independência pessoal e económica e maior sentido crítico em relação à corrupção moral. Até para elevar o debate político e deixar de o remeter para os cafés onde impera a politicazinha barata e paroquial.
São Jorge tem sofrido com a falta de quadros. As elites (seja lá o que isso for) são poucas ou inexistentes. E assim, lutar contra os doutores das ilhas grandes, torna-se muitíssimo mais difícil. Se não é pelo prestígio pessoal, fundado em créditos profissionais ou académicos (sem desprimor para o conhecimento da vida em sociedade), não afirmamos a nossa voz. Porque elas são poucas, porque estão a diminuir e porque ninguém com autoridade parece realmente estar inquietado com isso.
João Mendonça Gonçalves
Mestrando na Universidade Católica Portuguesa
Do arrebatador documentário sobre o Corvo
1 de Maio de 2012
O documentário – diário pessoal, género que parece ser insuficiente para o produto final – de Gonçalo Tochas sobre a ilha do Corvo, é de uma extraordinária criação.
É arrebatadora a forma como o realizador e produtor, juntamente com Didio Pestana, conseguem captar a essência, o perfume daquele pedaço de terra, nosso, no mais ocidental da ocidental Europa. Aquela ilha, que se mostra um bastião de resistência, no meio de um oceano em permanente fúria, e de um vento em constante ebulição, é-nos revelada de uma forma que só julgávamos possível se nela pisássemos, se nela tocássemos, se nela sentíssemos o seu cheiro, se a escutássemos, no meio do silêncio do Alântico.
A premissa por que começa a longa-metragem, de conhecer todas as pessoas, todas as casas, todas as pedras, todas as vacas, cabras, porcos, de conhecer tudo, numa ilha com 440 corvinos, parece ter ficado bem presente no decorrer desta aventura em que fomos convidados a entrar.
O Ti Zé Pedro, a dona Inês, que costura o boné (típica dos lavradores e baleeiros da ilha), o Baptista, e todas as personagens – riquíssimas – que Gonçalo Tochas teve a capacidade de nos trazer, são personagens naturais, inseridas numa paisagem, que só ali, no Corvo, poderíamos encontrar.
Há um certo bucolismo nas imagens e no som captados. Somos levados a um outro estado, difícil de compreender, para quem não é açoriano. Mesmo assim, parece que em cada ilha há um Açores diferente e, por mais açorianos que sejamos, nunca deixamos de nos surpreender.
O sangue açoriano do realizador não é seguramente alheio ao resultado alcançado. À profundidade e intimidade que ali registou e que connosco partilhou. O próprio confessou, a um jornal da região, que o Arquipélago é “memória de infância, de fascínios” que o “salvou na sua infância e na sua vida”. A beleza nas imagens e nas palavras fazem de Gonçalo Tochas um embaixador do melhor do que somos feitos. O gesto de, primeiro mostrar o filme no Corvo, antes de em qualquer outro sítio, é de quem ficou profundamente tocado e ligado àquela realidade e àquelas pessoas.
Em “É na Terra, não é na Lua” há uma certa magia, a tal “Natureza Mágica”, que nos encanta, que nos abre o coração e desperta em nós uma enorme vontade em agarrar uma mochila e seguirmos os passos ali percorridos. De conhecer todas as pessoas – e não meras personagens – todos os cantos, todas as casas, toda aquela vida, naquela vila, mais a oeste do que nunca.
Maria João Avillez – também deslumbrada pelas inacreditáveis três horas de película – escrevia no Público (27/04/2012) que “é fácil filmar o mar e o céu. Filmar a “alma” é para raros”. Foi o que Gonçalo Tochas fez. A ele lhe devemos o facto de nos ter trazido um pedaço de nós, porventura, desconhecido, e de, com isso, nos fazer sentir mais orgulhosos do que nunca da nossa alma açoriana.
João Luís Mendonça Gonçalves
(estudante universitário | natural da ilha de São Jorge)
CRÓNICA DE UM DESTINO ANUNCIADO – por João Mendonça Gonçalves
21 de Novembro de 2011
CRÓNICA DE UM DESTINO ANUNCIADO
Descobrimos, na semana passada, que o rating (por definição, trata-se de uma opinião – fortemente condicionadora – dada por especialistas relativamente à qualidade de crédito e obrigações financeiras de um Estado, de uma Região Autónoma, Empresa pública ou privada etc.) dos Açores desceu cinco (!) níveis: de Ba3 para B1, após uma investigação que se iniciou em 7 de Julho deste ano (dados retirados da moodys.com). A Agência de Notação de Risco responsável por este downgrade refere que a classificação “baseia-se nos riscos significativos de refinanciamento colocados pelos muito elevados níveis de dívida directa e indirecta [dívida em 2007 representava 165% das receitas, contra os 237% de agora], particularmente no contexto de acesso ao crédito muito constrangido”, e que deve-se, sobretudo, às grandes necessidades de financiamento das empresas públicas regionais, sobretudo as do sector da Saúde”, indicando que serão necessários cerca de 250 milhões de euros para financiar dívidas directas e indirectas, o que torna provável o recurso às verbas do Memorando de Entendimento da troika.
Ora, o que aqui se revela, não sendo Bíblia, não deixa de ser preocupante. Antes de nos debruçarmos no que realmente importa, faça-se um ponto prévio: não subscrevemos as teorias da conspiração que vêm nas Agências de Rating o mal de todos os mundos, embora não neguemos a sua quota de responsabilidade na actual crise. É uma questão que deixamos para um escrito posterior.
Todos aqueles que apontaram o dedo inquisitor à Madeira, terão de reflectir, agora, sobre a coerência das suas opiniões. A situação não é tão grave como a do Arquipélago vizinho, poderão argumentar. É verdade. Não é tão grave, mas não deixa de ser preocupante! E não nos podemos contentar pelo mal do vizinho ser maior do que o nosso.
Temos um sistema público fortemente endividado. Temos uma fraca capacidade exportadora, temos a taxa de desemprego a atingir os 11,6% (in Serviço Regional de Estatística dos Açores) e as perspectivas de acesso ao crédito têm vindo a piorar.
Naturalmente que os Açores não estão alheios ao que se passa em seu redor: o subprime iniciado nos EUA e que levou à falência de alguns bancos na Europa e, agora, a crise das dívidas soberanas, têm agudizado a crise institucional na zona Euro e perturbado o funcionamento dos mercados financeiros. No entanto, e admitindo que esta crise não era previsível (o que não é assim tão claro), não se pode condescender com a actual política do Governo (à semelhança do que fizera o Governo de José Sócrates) que tem conduzido a Região a um insuportável nível de endividamento que, mais dia, menos dia, mais Moody’s, menos Moody’s, iria colapsar.
Chegados aqui, o candidato do PS/Açores ao Governo Regional é Vasco Cordeiro. O responsável pela pasta da Economia (depois de uma pequena passagem pela pasta da Agricultura) tem demonstrado a sua incapacidade para promover a actividade empresarial da Região (a privada, porque a pública vive do crédito bancário…), para dinamizar a iniciativa económica e para atenuar os efeitos da crise ao nível do desemprego.
Ou seja, o que esta mais recente crise veio revelar, com reflexo na notação da Moody’s, é que os Açores não estão preparados hoje, como não estariam preparados se esta orientação política expansionista continuasse. Porque a desorçamentação (gritante no sector da Saúde, sendo assumida pela verdade dos factos como uma prática reiterada), prosseguida com o recurso ao endividamente e a fraca prestação económica, só podem conduzir à ruptura financeira e ao empobrecimento generalizado dos Açorianos.
A situação é, infelizmente, pior do que aquilo que se pensa, que a Comunicação Social conta e que o Governo anuncia (passe, com respeito para alguns, a redundância). Mais cedo do que tarde, seremos confrontados com a dura realidade.
O debate político terá de deixar a zona lamacenta e a centrar-se em questões maiores. Será possível manter o status quo, nomeadamente, na Saúde e nas restantes Empresas Públicas e encargos com as Scuts? A que preço? E com que dinheiro? E como ficarão ilhas como Corvo, Flores, Graciosa, São Jorge, deixadas constantemente para segundo plano a nível regional? A falta de peso político (e, também, económico) tem conduzido a uma Região Autónoma a duas velocidades (tal como na Europa). Com maiores dificuldades no futuro, que se traduzirão em restrições orçamentais (porque as dívidas terão de ser pagas para continuar a receber crédito ou fecham-se serviços), temo que o sub-desenvolvimento destas ilhas se agrave e que as condições socio-económicas da Região (que tem no País a taxa mais elevada de pessoas a receber o Rendimento Social de Inserção) se degradem atingindo níveis insuportáveis.
Portugal, Espanha, Grécia e Itália, países que acreditaram no crédito sem fim (e, nos três primeiros casos, nas contas públicas maquilhadas), viram os seus Governos mudar.. é o trágico caminho que espera esta equipa governativa em final de festa com Carlos César e Vasco Cordeiro à cabeça.
Não se pode esperar outra coisa que não seja mudar de rumo e mostrar que, 15 anos depois, os Açores necessitam de respirar um novo ar, onde a palavra de ordem seja responsabilidade.
Estudante universitário)
“Recordando Veríssimo Borges”, por José Andrade Melo
10 de Outubro de 2011
“Quando se educa crianças, não queremos só mostrar-lhes que um tigre ou um touro tem pêlo e quatro patas. Esperamos passar-lhes valores de integridade, respeito ambiental e consideração pelo sofrimento alheio”.
Leonor Galhardo, bióloga, PÚBLICO, 25-05-2009
RECORDANDO O AMIGO E O DESTACADO AMBIENTALISTA VERÍSSIMO BORGES
“À SUA MEMÓRIA COM GRATIDÃO E CARINHO”
Decorreram três anos da morte do amigo e destacado ambientalista dos Açores Veríssimo Borges, falecido no dia 8 de Outubro de 2008.
Relembro com carinho e gratidão o Veríssimo Borges, nos vários encontros de Educação Ambiental, seminários e palestras em que estivemos juntos, assim como nas grandes conversas que tivemos no seu escritório do Hotel Gaivota, colocando-me sempre a par das lutas que tinha em mãos e disponibilizando sempre a melhor atenção e bons conselhos para as questões que levava de Santa Maria.
Através dele conheci figuras ligadas a várias áreas do ambiente, entre as quais o Eng.ro Luís Monteiro, o “pai” da conhecida Campanha SOS-Cagarro, que decorre nesta data.
O desaparecimento de Veríssimo Borges foi uma grande perda para o ativismo ambiental nos Açores, pois foi, indubitavelmente, uma figura ímpar e muito marcante na defesa do ambiente da nossa Região, constituindo, sem dúvida, uma referência histórica e uma das “autoridades” que reconheço nesta nobre causa cívica e social.
Veríssimo Freitas Silva Borges, biólogo de formação, pertenceu ao movimento SOS-Lagoas e foi o fundador do Núcleo da Quercus de S.Miguel, tendo sido a personalização inconfundível daquela ONGA, praticamente até ao seu falecimento.
Tive o privilégio de acompanhar algumas das batalhas ambientais que travou, revelando-se um lutador íntegro, isento, frontal, coerente e bem apetrechado argumentativamente nas suas intervenções. Era persuasivo, concludente e possuidor de uma grande capacidade de sensibilização, tendo-me transmitido grandes ensinamentos e referências de balizamento importantes.
Para além da defesa das lagoas, pugnou abnegadamente pela implementação de um sistema sustentável de recolha, tratamento e valorização dos resíduos nos Açores, apostado na priorização da “redução” e “reciclagem”. Lutou, ainda, por um saneamento básico, com exigência de tratamento e estancagem de esgotos sobre o litoral, pela demarcação e ordenamento de áreas protegidas, em defesa dos recursos marinhos, contra a erosão provocada pela extração de leivas, pela elaboração dos POOC´s e pela criação de uma Secretaria Regional do Ambiente descompartimentada de outros setores, entre outras frentes.
O grande amigo Veríssimo, pessoa humilde, espirituosa e de grande graça nos convívios e reuniões de trabalho, distinguiu-se não só pelas suas qualidades humanas, mas também como um verdadeiro “motor” da causa ambientalista na Região, tendo sido uma das suas figuras mais ativas, corajosas e mediáticas que conheci.
Tinha uma postura transversal ao movimento ambientalista, e na defesa do “ecumenismo associativo”, foi o promotor dos Encontros Regionais das ONGAS dos Açores, tendo o CADEP-CN, participado em todos eles, resultando a consertação de algumas lutas comuns, para além de importantes trocas de experiências.
Profissionalmente, Veríssimo Borges era empresário hoteleiro, sendo um grande defensor do turismo sustentável e politicamente estava ligado, como independente, ao Bloco de Esquerda.
Deixa ainda um vasto legado na imprensa regional, de quem foi colaborador assíduo, tendo nesta abordado as mais diversas matérias, em particular as ligadas ao ambiente e, mais recentemente, à política.
Era casado com a simpática Eduarda Bulhão, ainda de costela mariense, que muitas vezes o acompanhava nos encontros ambientais, estando ao seu lado nas lutas que travava.
Se aprofundei o meu gosto pelo naturalismo, através do Sr. Pombo, foi referenciado no Veríssimo Borges e no Teófilo de Braga (outro grande amigo e figura histórica e incontornável do ambientalismo nos Açores) que me impulsionei no ativismo ambiental, colhendo influências, estímulos e conselhos, bebidos da mitigação dos seus “estilos” diferentes.
BEM HAJAS VERÍSSIMO BORGES.
TE RECORDAMOS COM CARINHO E GRATIDÃO.
*José Andrade Melo
CADEP-CN, Sta Maria
Azores, 23 Maio 2013